A FEIRA DO LIVRO 2026, Literatura,
Alta tensão
Pilar Quintana retorna ao universo narrativo do premiado A cachorra para explorar os temores que habitam a mente de uma mulher
01maio2026 • Atualizado em: 29abr2026 | Edição #105O que pode ser mais assustador do que estar sozinha num casebre sem portas e janelas, no meio de uma floresta, cercada de animais selvagens e de homens cujo comportamento parece pouco confiável? Para a autora colombiana Pilar Quintana, que participa d’A Feira do Livro 2026, o terror está no que tudo isso causa na mente de uma mulher.
Em seu terceiro romance, Noite negra, a escritora retoma o universo narrativo de sua premiada primeira novela, A cachorra (trad. Livia Deorsola, Intrínseca, 2020) — que ganhará nova edição, da Companhia das Letras, em 2027. A vila de pescadores no Pacífico colombiano onde Damaris desenvolve uma relação maternal com a vira-lata Chirli agora é o cenário onde a publicitária Rosa busca refúgio, após abandonar o trabalho em uma agência em Cáli, principal centro urbano e econômico do sudoeste do país, a fim de realizar o ideal idílico de morar no mato com o companheiro, o carpinteiro irlandês Gene.
Enquanto constroem uma casa sobre um penhasco, entre a selva e o mar, Rosa e Gene enfrentam tempestades, ataques de mosquitos, serpentes e morcegos chupadores de sangue, e a falta de energia elétrica, mas têm o pôr do sol como manifestação da exuberante natureza ao redor. Quando o marido precisa fazer uma viagem, Rosa se vê só — a poucos dias da lua nova, período em que a noite se torna um breu —, rodeada pelos perigos da mata e por vizinhos que pareciam gentis, até o exato momento em que o barco de Gene se afasta da praia.
Desse instante em diante, Rosa terá de lidar com os olhares lascivos do taciturno Nato, um faz-tudo local que cobiça a madeira nobre de uma das árvores do quintal, e as constantes visitas de Rodrigo e Engenheiro, com suas “brincadeiras” de conotação sexual, embaladas pelo consumo de biche — destilado artesanal de cana-de-açúcar produzido em comunidades afro-colombianas. Tudo isso, sob a indiferença de seu Israel, o caseiro da propriedade vizinha, com quem Rosa acreditava poder contar na ausência de Gene.
O romance não é autobiografia nem autoficção, mas parte de uma experiência pessoal
A situação é familiar a Quintana. Assim como Rosa, a escritora nasceu em Cáli e morou por nove anos nessa região da Colômbia, numa cabana semelhante à da protagonista de Noite negra. Nesse período, permaneceu três meses acompanhada apenas por galinhas, gatos e cachorros, enquanto o então marido se recuperava de uma cirurgia na cidade.
A escritora afirma que, durante essa temporada, os homens do povoado com os quais convivia passaram a se comportar de maneira diferente. Ela foi inclusive coagida por líderes locais que discordavam de suas posições políticas, algo que jamais havia ocorrido na presença de seu parceiro.
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Numa entrevista à jornalista Lorena Mahecha, no Penguin Podcast Colombia, Quintana explica que Noite negra não é uma autobiografia, tampouco autoficção, mas um romance que parte de uma experiência pessoal tão forte que ela teve de transformar em ficção: “Isso é a literatura, não é? O que nós, escritoras, fazemos é retirar da própria vida acontecimentos muito importantes e transformá-los em outra coisa”, disse Quintana. “Nunca estive tão só como nesse período. Na cidade, falamos de uma solidão existencial, pois não estamos verdadeiramente sozinhos como na selva. Tive medo e, quando sentimos isso, precisamos ser corajosas para enfrentar.”
Thriller
Quintana constrói um thriller psicológico no qual amadurece e aprofunda questões ligadas ao macrocosmo feminino que perpassam seus romances anteriores, A cachorra e Os abismos (trad. Elisa Menezes, Intrínseca, 2022), ambos premiados na Colômbia e finalistas, em 2020 e 2023 respectivamente, do National Book Awards na categoria literatura traduzida.
No primeiro, a cobrança social pela maternidade e a frustração por não conseguir engravidar levam Damaris a adotar a cadela Chirli, que é tratada pela tutora como um bebê. Já em Os abismos, a escritora descreve as opressões de gênero a partir da perspectiva de Claudia, uma menina de oito anos que testemunha as violências cometidas contra sua jovem e bela mãe num casamento entediante com um homem mais velho.
Além de evidenciar o fato de que uma mulher não está segura mesmo dentro da própria casa, Noite negra investiga os relacionamentos com os homens. Abandonada pelo pai, Rosa se sente rejeitada também pelo companheiro. Ao ver Gene sorrir no barco que o levará a outra cidade, imagina que ele se cansou da vida no mato e vai trocá-la por outra, um pensamento que a perseguirá com cada vez mais intensidade. Soma-se a isso o fantasma de um antigo namorado, que passa a rondar suas lembranças.
Resgates
Afora retornar ao cenário de A cachorra, Quintana resgata personagens como a família Reyes e a própria dupla Rosa e Gene. No romance anterior, uma das residências onde Damaris atua como caseira é a de “madame Rosa”, uma viúva idosa. O casal aparece ainda em dois contos de títulos ainda sem previsão de lançamento no Brasil, nos quais ela esclarece outros mistérios em torno de marido e mulher.
As similaridades, no entanto, terminam aí. A história da publicitária Rosa se passa em 1980, muito antes de a família de Damaris chegar ao vilarejo. “Rosa é uma mulher corajosa e forte, que sempre fez o que quis”, descreve Quintana na entrevista ao Penguin Podcast. “Ela nasceu em 1941, estudou nos anos 60, época em que as mulheres já podiam frequentar a universidade, mas o mais desejável era que se casassem, tivessem filhos e fossem donas de casa”, diz. “Rosa desafiou essa lógica, se tornando uma profissional, mesmo sendo filha de uma mãe solo e criada pela avó, num bairro popular.”
Como trânsfuga de classe, Rosa ascende socialmente graças aos estudos. Na universidade, é apresentada a modos de vida alternativos, devido à convivência com militantes socialistas, atuantes no movimento que daria origem às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Depois de formada, destaca-se a ponto de se tornar sócia de uma agência de publicidade, onde permanece até conhecer o carpinteiro Gene, um mochileiro irlandês em viagem pela América Latina.
Uma intenção era explorar a ideia de que não somos diferentes da natureza nem superiores a ela
“Talvez como todos que moram em cidades e trabalham das oito às cinco, Rosa não está totalmente satisfeita e quer viver numa casinha simples, na natureza”, diz Quintana ao podcast. “Quando começa a namorar um irlandês capaz de construir uma cabana, ela decide largar tudo e se transforma numa senhora que carrega um facão e usa bota pantaneira.”
Para compor essa personagem de uma geração que nasceu décadas antes da sua, Quintana buscou referências em obras de mulheres que integram a Biblioteca de Escritoras Colombianas (BEC), projeto dirigido por ela e realizado por instituições como a Biblioteca Nacional da Colômbia e o Ministério das Culturas, das Artes e dos Saberes. Lançada em 2022, a primeira etapa publicou dezoito autoras nascidas desde o período colonial até a primeira metade do século 20, cujos livros estavam esgotados ou não tiveram a merecida divulgação.
Entre as obras, há romances, contos, crônicas, peças de teatro, autobiografias e antologias poéticas de nomes como Francisca Josefa de Castillo, Soledad Acosta de Samper, Emilia Pardo Umaña e Elisa Mújica. Quintana segue como diretora editorial da segunda fase da coleção, iniciada em 2025, produzindo dez antologias com textos de 97 escritoras cujos trabalhos estavam dispersos.
Dissociação
Os pormenores do passado e da personalidade de Rosa, desde a configuração familiar antes de ela nascer até os detalhes mais íntimos de sua existência, emergem nos quatro únicos dias que compõem o romance. Da despedida do marido, na manhã de domingo, à quarta-feira, data em que ele deve ligar para o único telefone da vila, num pequeno armazém, lembranças, dúvidas e acontecimentos aparentemente insignificantes adicionam doses crescentes de tensão no repetitivo cotidiano da personagem.
Assim como em A cachorra e Os abismos, Quintana descreve, com minúcia e linguagem enxuta, o dia a dia da protagonista numa narrativa fluida, que prende a atenção e cria um clima de espera para que algo terrível aconteça. Do amanhecer ao pôr do sol, Rosa faz tudo sempre igual: urina num balde preto, que depois esvazia na mata; dá milho às galinhas; come e joga os restos no lixo orgânico (que sempre lhe causa mal-estar); lava a louça; cuida da casa; verifica se todo o dinheiro que possuem segue no esconderijo entre os livros de Edgar Allan Poe e Jane Austen; toma banho no rio; acende o lampião; volta a lavar louça…
A vida é lavar louça, diz a si mesma, enquanto as esfrega na bancada do quintal.
Mas, quando se está cercada por uma floresta, as surpresas são incontáveis. Entre elas, Rosa precisa atacar o ninho de cupins que pode destruir sua casa, lidar com o morcego pendurado numa viga da varanda, livrar-se da aranha caranguejeira presa ao mosquiteiro que a protege dos insetos, lutar com os espinhos num trecho de mata fechada. Mais que um cenário, a natureza é a antagonista que a observa, respira, emite sons e a toca. Não à toa, num trecho, um dos vizinhos diz a Rosa: “O marido a deixa e a selva a come”.
Numa entrevista ao jornal espanhol El País, Quintana afirma que uma de suas intenções em Noite negra era explorar a ideia de que não somos diferentes da natureza nem superiores a ela. “Nós fazemos parte da natureza e nos comportamos como ela. Nossa luta não é contra, mas dentro da natureza, como a de todo animal”, diz. “Somente os animais domesticados podem relaxar. Os selvagens estão em permanente luta pela sobrevivência. Se estamos em casa, podemos nos comportar como um gato ou um cachorro, mas, se estamos na selva, é preciso ficar em estado de alerta o tempo todo.”
Em meio aos sobressaltos, Rosa imagina lances trágicos envolvendo suas galinhas, o companheiro e a si mesma. Passa a inspecionar obsessivamente o galinheiro e a dormir com uma faca sob o travesseiro, e só sai de casa carregando um facão, experimentando um medo que está fora, mas também dentro dela. Um sentimento que se acentua quando a protagonista começa a duvidar da própria sanidade, no momento em que seu Israel garante não existir nenhum morcego no lugar por ela apontado.
“Sabemos o que está acontecendo pelo olhar de Rosa”, diz Quintana ao El País. “No episódio do morcego, esse pacto se rompe. Depois disso, ela passa a se questionar se o viu mesmo e não tem quem a ajude, pois o que torna as coisas reais é termos pessoas que as corroborem.”
Para completar, todas as vezes que Rosa se sente observada, um dos vizinhos aparece em atitude suspeita, dando início ao que Quintana chama de um “processo de desintegração”. Uma dissociação que irá culminar na noite negra, quando a selva exterior e aquela que a personagem carrega dentro si não se diferenciam mais uma da outra.
Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “Alta tensão”
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.
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