Repertório 451 MHz,
Guerras culturais de ontem e hoje
Em conversa n’A Feira do Livro 2026 a partir do seu Hipocritões e olhigarcas, o historiador e político português Rui Tavares fala sobre as guerras culturais
31jul2026 • Atualizado em: 30jul2026Está no ar o novo episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves conversa com o historiador e deputado português Rui Tavares sobre Hipocritões e olhigarcas, livro lançado pela Tinta-da China Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um), que percorre a história das guerras culturais, da virada do século 20 até os dias de hoje.
Mais do que uma conversa sobre o lançamento, o episódio é uma verdadeira aula de história moderna, na qual expressões cunhadas por Tavares nomeiam personagens do cenário político global atual — entre eles, o presidente americano Donald Trump e o empresário Elon Musk. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.
Rui Tavares é historiador, cientista social e deputado em Portugal. Nos últimos anos, publicou pela Tinta-da-China Brasil Esquerda e direita: guia histórico para o século 21 (2024); O pequeno livro do Grande Terremoto (2022), sobre o terremoto que arrasou Lisboa, em 1755; e Agora, agora e mais agora (2024), baseado no podcast de mesmo nome. Hipocritões e olhigarcas: passado e futuro das guerras culturais foi lançado durante A Feira do Livro, que aconteceu em São Paulo, entre 31 de maio e 7 de junho.
Tavares explica o título e como ele nasceu. “A resposta mais rápida é que nós vivemos numa época de novos monstros. E a gente tem que designar esses novos monstros com novas palavras.”
O “hipocritão”, disse, é uma referência direta a Donald Trump: “sempre achei muito interessante a maneira como ele utiliza a hipocrisia como uma arma para atacar os seus adversários políticos”. Já os “olhigarcas” são os bilionários das big techs, como Elon Musk, que lucram com a chamada economia da atenção.
Família Calmon
O autor explica o conceito das guerras culturais. Para evitar que seja “esvaziado”, Tavares propõe três critérios: uma guerra cultural precisa ser polarizadora, obrigando todos a tomar partido; precisa envolver identidades, valores e narrativas, não apenas disputas materiais; e precisa gerar carga emocional.
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Um dos exemplos da conversa é o caso da família Calmon. Tavares conta que na cidade do Porto, em 1900, uma jovem brasileira que queria entrar para a vida religiosa foi impedida pelo pai, o que provocou uma discussão que mobilizou Portugal, dividindo conservadores e progressistas. Para Tavares, o episódio ilustra como, numa guerra cultural, o posicionamento de cada um costuma depender mais da posição do adversário do que da coerente aplicação dos próprios princípios.
“Se o conservador defende ‘X’ naquele caso, a gente vai defender ‘Y’. É muito comum — e vocês veem isso todos os dias”, explica.
Novas tecnologias
O historiador lembra que toda nova tecnologia de comunicação, do rádio à internet, passou por um momento de regulação. Para ele, hoje a verdadeira urgência diz respeito à inteligência artificial, que não é debatida o suficiente.
“Em todos os episódios anteriores em que tínhamos inovações tecnológico-científicas existenciais para a humanidade, os Estados sentaram-se em conjunto e redigiram um tratado. Na inteligência artificial não acontece nada”, afirma.
O historiador também fala sobre a “falsa” liberdade de expressão propalada nas redes sociais. Tavares associa figuras como Elon Musk ao uso do discurso em torno da liberdade justamente para controlar o que circula. “Ele fala da liberdade de expressão ao mesmo tempo que determina qual é o algoritmo que vai valer e o que não vai valer. Já não é hipocrisia, é hipocrisérrima.”
Desejo político
Tavares ainda comenta o que chama de “objeto de desejo político”.
Ele lembra que movimentos como os sindicatos e o sufragismo surgiram em torno de reivindicações bem definidas, como a jornada de oito horas de trabalho e o direito ao voto. “Um objeto tem que ser o mais concreto e desejável possível”, diz.
O historiador cita o projeto-piloto português sobre a semana de quatro dias, cuja implementação, segundo ele, trouxe melhorias de rendimento e de saúde mental para os funcionários.
“Diminuíram os erros no trabalho, os acidentes, que também custam dinheiro. E, na verdade, nenhuma empresa que tenha adotado o projeto, que era voluntário, de passar para os quatro dias, voltou atrás”, conta.
A Feira do Livro no YouTube
A gravação desta e de outras mesas está disponível no YouTube, no canal d’A Feira do Livro. Confira em: https://www.youtube.com/@AFeiradoLivro.
Livro marcador
O episódio traz a sugestão do escritor capixaba Stefano Volp, no novo quadro do 451 MHz, o Livro Marcador. Nele, os ouvintes podem descobrir quais livros marcaram a vida de autores e outras personalidades da cultura e das artes. Volp recomenda Carta ao pai, de Franz Kafka, relançado pela editora L&PM, com tradução de Marcelo Backes.
“Eu li esse livro no final da pandemia e ele inaugura um momento na minha escrita — uma vontade de olhar para a minha relação com o meu pai, com a minha família”, diz o autor de Santo de casa (Record, 2025). “É um livro em que Kafka se despe e fala sobre a relação com o pai, que era uma relação autoritária, uma relação difícil, mas ao mesmo tempo com outras camadas. E eu adoro como esse pai às vezes é um vilão, mas às vezes não é.”
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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