Literatura brasileira, Trechos,
Crônicas sobre amor e literatura
Autora de A cabeça do santo, Socorro Acioli lança antologia de textos que passeiam por histórias de afeto, escrita e cotidiano; leia um trecho
03ago2026 • Atualizado em: 30jul2026Amar é inadiável, primeira coletânea de crônicas da escritora cearense Socorro Acioli, chega às livrarias pela Planeta. Reunindo textos publicados originalmente nos jornais O Povo e Diário do Nordeste, o livro apresenta reflexões sobre o amor, a literatura, a escrita e a vida.
Vencedora do prêmio Jabuti em 2013, por Ela tem olhos de céu (Gaivota, 2012), Acioli é autora de A cabeça do santo (Companhia das Letras, 2014), romance best-seller idealizado durante uma oficina de criação literária realizada por Gabriel García Márquez.
No episódio 104 do podcast 451 MHz, a escritora conversou com Stênio Gardel, autor de A palavra que resta (Companhia das Letras, 2021), sobre o processo de escrita de ambos e a amizade que os aproxima. “O que eu peço que as pessoas façam é: escreva a história que só você pode contar, seja ela qual for. Não tem como se prever uma fórmula que vá funcionar para um grupo de trinta, vinte pessoas”, disse Acioli.
Para a Quatro Cinco Um, a autora resenhou o romance distópico A polícia da memória, de Yoko Ogawa (trad. Andrei Cunha, Estação Liberdade, 2021) e Memórias de porco-espinho (trad. Paula Souza Dias Nogueira, Malê, 2017), do franco-congolês Alain Mabanckou, que remete ao realismo fantástico latino-americano.
Trecho de Amar é inadiável
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Inúmeras vezes alguém chegou no momento exato para acender a luz quando eu não enxergava nada. Alguém que dedicou o seu tempo a me levantar do chão, parou os relógios, abandonou a própria dor e cuidou da minha. Cada um à sua maneira e usando seus instrumentos de predileção. Fogo, vaga-lume, lamparina, vela: a luz veio por amor.
A vida vai passando rápido demais porque, logo depois de levantar, o desejo é correr para a frente, recuperar o tempo perdido. Aquela pessoa que deu a mão, por amor, apenas sorri da nossa pressa. Lá adiante vem outra queda, pois a vida é impermanência, erro, engano, ninguém escapa das armadilhas da nossa frágil condição.
Sorte é saber que as quedas são distintas e que a força vem depois, redobrada. Sorte é saber que nas quedas grandes alguém vai aparecer para nos salvar, essa é uma das verdades da vida. Talvez isso só aconteça com quem já abandonou a ilusão infantil de ser um super-herói. Somos superfrágeis, isso sim, comandados por forças que desconhecemos. O inconsciente, o destino, o além; bastam cinco minutos de pensamentos para entender que não controlamos absolutamente nada dessa confusão de erros que chamamos de vida. Nada está sob controle e isso é muito bom.
Na noite escura da alma você veio por mim e eu nunca vou esquecer. Um gesto assim fica guardado como cena de filme, os segundos de alívio no meio da dor valem por milênios de alegria. A alma grava e nunca apaga, acredite.
Depois de levantar da queda, a lição é deixar ali mesmo, no chão, o que não serve mais. É para isso que caímos, para abandonar as inutilidades e a fonte do sofrimento. A estrada vai ficando melhor, pouco a pouco, as flores precisam de espaço para florescer. Melhor levar a vida sem sofrer — mas, quando for inevitável, que venha para arrancar a dor pela raiz.
Sabedoria é deixar ir embora o que não é bom, foi o que me disseram tantas vezes. E me ensinaram um truque para o fazer de olhos fechados. Imagine um barco sem remos e com vontade própria, na beirinha do mar. É nele que depositamos a dor que precisa partir. Um impulso sincero e a correnteza vai levar para longe o que precisa ir. Vai ficar a brisa boa, o cheiro de praia, o gosto necessário do sal. De olhos fechados tudo clareia. Lágrimas e palavras também são forças de clarear.
Na noite escura da alma você veio por mim e me salvou. Agora que o dia raiou, meu sorriso é seu. Minha irmã, meu irmão, guardo no meu peito uma vela acesa. Se escurecer na sua alma, estarei aqui. Sempre escurece, graças a Deus. Só depois da escuridão é que chega a verdade.