Repertório 451 MHz,
Escrever para lembrar
A portuguesa Lídia Jorge, vencedora do Prêmio Camões 2026, fala sobre seus romances Misericórdia e Diante da manta do soldado e sobre a escrita que celebra a memória
17jul2026Está no ar o 204º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição traz uma conversa com a escritora portuguesa Lídia Jorge, que acaba de vencer o Prêmio Camões 2026, sobre seus romances Misericórdia (2024)e Diante da manta do soldado (2025), publicados pela Autêntica Contemporânea. Ela conta como transformou o primeiro — que define como “um triunfo sobre a morte” — em uma celebração da memória da mãe, morta durante a pandemia de Covid-19.
A autora também fala sobre sua rotina de escrita “sem disciplina” e dá conselhos a jovens escritores. O encontro aconteceu durante A Feira do Livro 2025, com mediação da escritora e professora Luana Chnaiderman. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.
Uma das principais escritoras portuguesas da atualidade, Lídia Jorge nasceu em 1946 no Algarve, no sul de Portugal, e partiu em 1970 para Angola e Moçambique, onde viveu os mais conturbados anos da Guerra Colonial Portuguesa. No regresso a Lisboa, publicou em 1980 o seu primeiro romance, O dia dos prodígios. Desde então, sua obra, composta por mais de vinte livros, inclusive de contos e ensaios, acumulou reconhecimentos e prêmios.
Além de Misericórdia — resenhado por Silvana Tavano na edição #85 da Quatro Cinco Um — e de Diante da manta do soldado, Jorge lançou no país A costa dos murmúrios (2004) e O vento assobiando nas gruas (2007), ambos pela editora Record, e A instrumentalina (Peirópolis, 2016).
Pedido da mãe
Mais Lidas
No episódio, a autora conta que o título Misericórdia surgiu três anos antes de ela sequer imaginar o romance: foi um pedido da mãe, Maria dos Remédios, que vivia num lar para idosos. Segundo Lídia Jorge, ela queria que a filha escrevesse um livro assim chamado “para que as pessoas tenham compaixão daqueles que, a certa altura, perdem a autonomia”.
A explicação foi dada na última conversa entre as duas, em 2020. No dia seguinte, o lar para idosos fechou por causa da pandemia de Covid-19 e Lídia Jorge nunca mais viu a mãe, que morreu cerca de quarenta dias depois. Dela restaram apenas brincos, um colar, um anel e um saquinho com papéis em que anotava o que lhe acontecia.
“Ao olhar para aqueles únicos objetos, pensei que o acaso trazia dela aquilo que eram os elementos fundamentais que a representavam, que era a luta pela beleza — que ela teve até o fim da vida — e o desejo de guardar memória a partir dos seus escritos”, diz a escritora.
Triunfo sobre a morte
Misericórdia surgiu, segundo Jorge, com a intenção de celebrar as pessoas que, como sua mãe, deixam como legado as lembranças do que viveram ao longo dos séculos 20 e 21. Para a autora, a escrita dessas memórias foi uma forma de manter viva Maria dos Remédios, que inspirou a protagonista Maria Alberta.
“O meu luto foi feito como uma espécie de triunfo sobre a morte. A ideia de que, haja o que houver além de nós, enquanto alguém falar por nós, nós existimos”, reflete. “Isso foi alguma coisa que me deu força para escrever em muito pouco tempo este livro, era como se ela ainda não tivesse desaparecido.”
Jorge, no entanto, diz não considerar a obra uma autoficção pelo olhar da mãe, que deixou gravações em áudio utilizadas por ela na escrita. “Recuso-me a dizer onde começa a realidade e onde começa a história”, afirma, situando o romance num território intermediário e citando como referências o escritor tcheco Milan Kundera (1929-2023) e o brasileiro Ignácio de Loyola Brandão.

Outro autor que Lídia Jorge menciona na conversa é o poeta e ficcionista galês Dylan Thomas (1914-1953), de quem ela lembra o poema “Do Not Go Gentle Into That Good Night”, traduzido pela escritora como “Não entres tão depressa nessa noite tranquila”. Segundo Jorge, foi essa metáfora para a morte que inspirou as cenas com a noite que abrem e fecham Misericórdia.
Manta da vitória
Ao falar sobre seu romance Diante da manta do soldado, que narra a decadência de uma família portuguesa ao longo do século 20 com ecos da Guerra Colonial Portuguesa, a escritora lembra que ele foi originalmente publicado em Portugal em 1998 como O vale da paixão. Na época, o título pretendido por Jorge não foi aceito por seu editor. A edição brasileira, ela conta, é a primeira que traz o romance exatamente como a autora concebeu. “Para mim, é uma vitória”, diz.
Na conversa, Lídia Jorge ainda dá conselhos a quem busca se aventurar na escrita: encontrar “a sua alegria, o seu triunfo”, a exemplo do que fez a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). “Para quem quer escrever, procure o triunfo que tem a dar sobre o mundo”, recomenda.
Livro Marcador
O episódio ainda tem a escritora Natalia Timerman no novo quadro do 451 Mhz, o Livro Marcador. Nele, os ouvintes podem descobrir quais livros marcaram a vida de autores e outras personalidades da cultura e das artes. Timerman lembra do impacto que foi ler Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, que completa em 2029 setenta anos de publicação.
“Eu lembro do momento em que eu acabei o livro. Eu chorava de soluçar, não conseguia parar de chorar. Bem nessa hora meu pai me ligou. Eu não conseguia falar. Aí ele, preocupado: ‘Nat, o que aconteceu? Tá tudo bem?’. Quando eu consegui falar, eu expliquei que eu terminei de ler Grande sertão: veredas”, diz.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
Porque você leu Repertório 451 MHz
Zen, tá ligado?
Emicida e o pesquisador Arthur Dantas conversam sobre literatura, rap e espiritualidade no episódio comemorativo dos sete anos do 451 MHz
JULHO, 2026
