Repertório 451 MHz,
Manuel Bandeira, safado e sagrado
Nos 140 anos de nascimento do autor recifense, Elvia Bezerra e Noemi Jaffe falam da atualidade e dos mistérios da poesia bandeiriana
17abr2026 • Atualizado em: 27abr2026Está no ar o 192º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, a escritora e pesquisadora Elvia Bezerra e a também escritora e professora Noemi Jaffe conversam sobre a vida e os mistérios da poesia de Manuel Bandeira, marcada pelo jogo intrincado entre o mundano, carregado de erotismo, e o sublime, que se aproxima do religioso.
O programa celebra os 140 anos, completados em 19 de abril, de nascimento do autor de Libertinagem (1930), que reúne poemas célebres de Bandeira como “Vou-me embora pra Pasárgada” e “Evocação do Recife”. Entre histórias sobre a vida afetiva do poeta e seu olhar para as coisas simples da vida, as convidadas lembram por que Bandeira, inclusive na prosa, é atemporal. Este episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet e da Companhia das Letras.
Ensaísta conhecida por transitar entre a crítica literária, a crônica e a biografia, Elvia Bezerra coordenou ao longo de uma década o Departamento de Literatura do Instituto Moreira Salles (IMS). Este ano, publicou A trinca do Curvelo: os afetos de Manuel Bandeira, editado originalmente em 1995 pela Topbooks e agora relançado pela Todavia com dois novos ensaios e novo subtítulo.
O livro explora a relação de Bandeira com a psiquiatra Nise da Silveira e o jornalista e poeta Ribeiro Couto, outros moradores ilustres do morro do Curvelo, no bairro carioca de Santa Teresa, e também com mulheres por quem ele se apaixonou. A trinca do Curvelo foi resenhado por Paulo Roberto Pires na Quatro Cinco Um de março.
Mais Lidas
Já Noemi Jaffe é romancista, crítica literária e professora de escrita criativa. É autora, entre outros livros, de A verdadeira história do alfabeto (2012) e Escrita em movimento: sete princípios do fazer literário (2023), ambos lançados pela Companhia das Letras. Publicou em 2025, pela mesma editora, o romance Te dou minha palavra. Ela escreveu um ensaio sobre Manuel Bandeira para a edição de abril da revista dos livros.
Trincas
Na conversa, Elvia Bezerra explica que o título de A trinca do Curvelo tem mais de um sentido. Numa crônica de 1932 também chamada “A trinca do Curvelo”, Bandeira diz que a expressão se refere à “molecada do bairro”, que ele observava jogando bola e empinando pipa pelas ruas. Na primeira edição do livro, de 1995, o subtítulo era Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Nise da Silveira, evidenciando que a “trinca” era formada pelos três, que moravam na mesma rua do Curvelo.
A nova edição estende o significado para três amores pouco conhecidos do poeta, que manteve um casamento informal com a vizinha Frédy Blank por cinquenta anos. São a paraense Luci Soares, quase seis décadas mais jovem, a quem dedicou poemas; a enfermeira e poeta Dulce Ferreira Pontes; e Lourdes Heitor de Souza, com quem Bandeira traduziu o quinto volume do clássico Em busca do tempo perdido, de Proust, e que foi sua cuidadora até sua morte, aos 82 anos, em 1968.
Bezerra descreve a influência que a região do Curvelo teve em Manuel Bandeira. Ela diz que, embora seja caracterizada por casas simples, a rua do Curvelo (atualmente chamada Dias Barros) oferece uma vista espetacular da baía da Guanabara, que Bandeira adorava observar. “A baía para ele parecia uma ‘mesa posta’”, conta. “É uma imagem que traduz exatamente a impressão de uma natureza morta naquela placidez da baía.”
A pesquisadora também lembra que foi Ribeiro Couto quem apresentou a rua do Curvelo a Bandeira, que alugou uma casa perto da de Couto no início da década de 1920. “É nessa rua que ele escreve o terceiro livro, o Ritmo dissoluto, que é de 1924. Tinha publicado A cinza das horas em 1917 e Carnaval em 1919”, diz. “E ali ele faz a maioria dos poemas de Libertinagem, que é o livro de consagração dele como modernista.”
Libertino e sublime
Para Noemi Jaffe, uma das principais portas de entrada na poesia bandeiriana é o “tom menor” da escrita do autor, sempre simples e muito afeita a temas mundanos. Ela conta que é por aí que tenta despertar o interesse pelo poeta em seus alunos de escrita. Jaffe destaca que essa simplicidade converge para o lado libertino do modernista. “É uma humildade safada, uma humildade sacana. Isso era quase que um princípio ético, além de estético, do Manuel Bandeira.”
“Ele fez poesia simbolista, ele fez poesia modernista, mas ele fez poesia erótica”, resume, mencionando em seguida o poema “Água-forte”, em que Bandeira usa expressões como “pente” para se referir aos pelos pubianos — a palavra deu origem a “pentelho” — e “concha bivalve” para falar da vulva.
“Não é por outro motivo que ele usa expressões religiosas nos poemas mais eróticos”, completa Elvia Bezerra, lembrando ainda de frases de Bandeira que revelam a associação entre o erotismo e o êxtase espiritual: “o espasmo sexual é para mim um arroubo religioso”, disse o poeta em carta a Mário de Andrade; ou, em outra declaração semelhante: “sempre encontrei Deus no fundo das minhas volúpias”. Para Jaffe, a poesia de Bandeira pode ser qualificada como sublime até quando fala de sexo, pois “não precisa de rebuscamento para atingir o cerne das coisas”.
Mesa de cabeceira
Ainda no episódio, as convidadas falam da atualidade da poesia de Manuel Bandeira e recomendam a jovens e velhos leitores que tenham sempre o poeta em suas mesinhas de cabeceira.
Para Jaffe, Bandeira é uma influência notável na obra de nomes da nova geração da poesia brasileira. “Uma poeta, por exemplo, como a Angélica Freitas, acho que ela é extremamente bandeiriana. Fabrício Corsaletti, também acho, é bastante bandeiriano no tratamento, na temática, nessa menoridade do Bandeira”, cita como exemplos.
Bezerra concorda e recomenda que toda pessoa que estude letras ande com o Itinerário de Pasárgada no bolso. Publicado originalmente em 1954, o livro é uma narrativa confessional do poeta que a pesquisadora define como “uma autobiografia literária escrita com muita clareza e [que] mostra todo o conhecimento de Bandeira, sempre exposto de uma maneira simples e clara, como era o estilo dele”.
Livros e afins
Confira os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas durante a conversa:
- Libertinagem (1930), de Manuel Bandeira (Global)
- Itinerário de Pasárgada (1966), de Manuel Bandeira (Global)
- A cinza das horas (1917), de Manuel Bandeira (Global)
- Carnaval (1919), de Manuel Bandeira (Global)
- Humildade, paixão e morte: a poesia de Manuel Bandeira, de Davi Arrigucci Jr. (Companhia das Letras, 2024)
- A trinca do Curvelo: os afetos de Manuel Bandeira, de Elvia Bezerra (Todavia, 2026)
- O céu da língua, peça de Gregorio Duvivier com direção de Luciana Paes
Mais na Quatro Cinco Um
Em 2020, o 451 MHz recebeu o crítico literário Davi Arrigucci Jr. para falar sobre morte e vida segundo Manuel Bandeira. Arrigucci diz que algumas das páginas mais impressionantes sobre esse assunto foram escritas pelo poeta, que sofria de tuberculose. Essa condição o obrigou a renunciar a seus planos e a levar uma “longa vida provisória” em seu quarto de doente e em sanatórios, onde ficou internado. Ouça aqui.
Em sua 2ª edição, em junho de 2017, a revista dos livros publicou um texto de José Mario Pereira, autor de José Olympio: o editor e sua casa (Sextante), sobre as cartas trocadas entre Manuel Bandeira e Gilberto Freyre. Leia aqui.
Já o colunista da Quatro Cinco Um Fernando Luna escreveu sobre Bandeira em sua coluna Autobibliografia, onde todo mês fala de seu relacionamento íntimo com um livro. Antologia poética, de Manuel Bandeira, foi o escolhido em março de 2025. Leia na íntegra.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio traz uma dica literária do editor, produtor cultural e ator Jean Cândido Brasileiro. Ele indica o romance Um beijo de Dick, do escritor colombiano Fernando Molano Vargas (Pinard, 2026), traduzido por be rgb.
“O grande trunfo do Molano Vargas aqui é a normalização do afeto. A homossexualidade não é o problema da trama, mas o cenário onde eles exploram as possibilidades cotidianas de amar. Ao escolher a narrativa em primeira pessoa, o autor afasta qualquer olhar moralizante ou sociológico. Ele cria um espaço de afirmação íntima onde o que importa é a subjetividade dos personagens”, diz Jean Cândido Brasileiro.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
Porque você leu Repertório 451 MHz
Escrever para lembrar
A portuguesa Lídia Jorge, vencedora do Prêmio Camões 2026, fala sobre seus romances Misericórdia e Diante da manta do soldado e sobre a escrita que celebra a memória
JULHO, 2026
Chegou a hora de
fazer a sua assinatura
Já é assinante? Acesse sua conta.
Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.
Há nove anos nutrindo leitores onívoros!
Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil
Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.
Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.
Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.
