Repertório 451 MHz,

Liberdade crítica

Beatriz Resende, autora de Crítica insubmissa, diz que o debate literário deve levar a conversas e não a cancelamentos

10abr2026 • Atualizado em: 13abr2026

Está no ar o 191º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, a escritora Beatriz Resende, professora emérita da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fala sobre o estado atual da crítica literária no Brasil. Autora de Crítica insubmissa, coletânea de ensaios e artigos de crítica literária publicada no fim de 2025 pela MapaLab, ela defende que criticar não é agredir, mas conversar a partir de experiências de vida.

No programa, Resende rebate declarações recentes do autor francês Édouard Louis sobre a escritora italiana Elena Ferrante e ainda lembra do convívio com a crítica Heloisa Teixeira, que exerceu grande influência em discussões sobre o feminismo e a literatura brasileira contemporânea. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.

Crítica literária e pesquisadora de literatura na UFRJ, Beatriz Resende é autora de estudos e coletâneas de ensaios como Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos (Autêntica, 2016), Poéticas do contemporâneo (e-galáxia, 2017) e Apontamentos de crítica cultural (Aeroplano, 2002).

Crítica insubmissa, seu novo livro, traz textos escritos ao longo dos últimos vinte anos que discutem desde a função da crítica até a leitura de autoras que escrevem em primeira pessoa, como a francesa Annie Ernaux. O volume foi organizado por Adriana Madeira Coutinho e Lucas Bandeira, ex-alunos e parceiros de pesquisa de Resende.

Crítica e conversa

Para a pesquisadora, todas as formas de crítica hoje, incluindo a literária, enfrentam enorme dificuldade de ser aceitas. “Isso me parece a questão principal”, aponta. “Nas conversas, nas discussões — não é só na literatura: é na política, é no comportamento —, a crítica em geral foi muito substituída pelo combate, pela agressão, pelo cancelamento, pela negação, pela surdez.” 

Resende relembra o alvoroço que a professora de literatura da USP Aurora Bernardini provocou nas redes sociais e no mundo editorial ao afirmar, em entrevista à Folha de S.Paulo ano passado, que não via a obra de Elena Ferrante, Annie Ernaux e do brasileiro Itamar Vieira Júnior como literatura. A declaração, diz Resende, deveria provocar uma boa conversa em vez de ser simplesmente repudiada.

Na visão da convidada do 451 MHz, a questão envolve entender que uma crítica como Bernardini — que Resende diz admirar — tem uma experiência de vida que não deve ser desprezada. Para exemplificar, questiona: “O que a Aurora, com a sua competência, com a sua vivência, entende por crítica?”. Ainda sobre o tema, Resende e o apresentador Paulo Werneck lembram da intervenção do escritor gaúcho José Falero, em artigo para a Piauí e no episódio “Pé na crítica”, do 451 MHz

A professora ainda comenta outra declaração polêmica envolvendo Ferrante: a do escritor francês Édouard Louis, que recentemente classificou a dona do pseudônimo mais célebre da ficção como autora de “romance para adolescentes”. Beatriz Resende discorda.

Ela ressalta que A amiga genial (2011), primeiro volume da Tetralogia Napolitana, até pode se enquadrar na definição, mas isso não se estende a toda a produção literária da italiana, que Resende considera “uma literatura especial para atingir muito leitores.”

Lembranças de Helô

No episódio, Beatriz Resende fala também sobre a amiga Heloisa Teixeira, uma das maiores intelectuais dos estudos de cultura, produção marginal e relações de gênero do país, morta em março de 2025. “Falar da Helô sempre me comove”, diz. “Ela foi minha professora na Faculdade de Letras [da UFRJ] e sua trajetória foi muito interessante, porque depois ela ajudou a criar a Escola de Comunicação da UFRJ.”

Heloisa Teixeira (Chico Cerchiaro/Divulgação)

Ela lembra ainda da Universidade das Quebradas, projeto de troca de saberes entre a academia e as periferias em que Helô se engajou, e de entrevistas dela à jornalista e escritora Adriana Ferreira Silva publicadas pela Quatro Cinco Um: na edição impressa de março de 2024 e no 107º episódio do 451 MHz. 

Nova crítica, nova crônica

Questionada sobre o que vê de novidade no cenário da crítica literária brasileira hoje, a professora elogia a diversidade atual. Ela diz que não restringir os estudos às disciplinas universitárias tradicionais ajuda a sair “de uma mordaça, um limite, que é a disciplinaridade”.

Ela destaca o surgimento de “novos sujeitos literários” no meio: a literatura de mulheres, que segundo Resende “dominou a cena”, a literatura indígena com suas peculiaridades, e a de “autores negros que se afirmam como negros”. E menciona entre os críticos que acompanha o colunista da Quatro Cinco Um Paulo Roberto Pires, autor da coluna Crítica Cultural.

A conversa vai parar na crônica, cuja escrita Resende compara com a de críticas literárias que buscam dar conta da produção de novos autores e autoras a quente. “A crônica é esse esforço que me persegue, que me atormenta, de buscar o imediato”, diz.

A escritora e professora Beatriz Resende (Acervo pessoal)

“É esse interesse que a crítica não pode perder.” Ela ainda menciona alguns dos cronistas que mais acompanha atualmente: Joaquim Ferreira dos Santos, Cora Rónai, Martha Batalha e Leo Aversa, também fotógrafo.

Livros e afins

Confira os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas durante a conversa:

  • A amiga genial, de Elena Ferrante(Biblioteca Azul, 2011)

  • Crítica insubmissa, de Beatriz Resende (MapaLab, 2025)

  • 200 crônicas escolhidas, de Rubem Braga (Global, 2024)

  • 26 poetas hoje, organizado por Heloisa Teixeira (sob o nome Heloisa Buarque de Hollanda) (Companhia das Letras, 2021)

  • Hamlet, de William Shakespeare (Penguin-Companhia, 2015). Tradução de Lawrence Flores Pereira

  • Encontros: Heloisa Buarque de Hollanda [Heloisa Teixeira]. Organização de Teresa Arijón e Renato Resende (Azougue Editorial, 2019)

  • Ensaios seletos, Virginia Woolf (Editora 34). Organização,  apresentação e tradução Leonardo Fróes

Mais na Quatro Cinco Um

A coletânea Crítica insubmissa, de Beatriz Resende, foi resenhada na revista dos livros por Adriana Ferreira Silva, que também entrevistou a autora. “Além de mapear a produção contemporânea e pensar o presente, Crítica insubmissa une a erudição acadêmica à agilidade do jornalismo literário, pelo qual Beatriz transita com a mesma sensibilidade e elegância”, escreve. Leia na íntegra

O melhor da literatura LGBTQIA+

O episódio traz uma dica do jornalista, escritor e podcaster Renan Marinho Sukevicius. Autor do livro de contos Quase verão (Diadorim, 2023), ele recomenda ao 451 MHz Pernalonga: uma sinfonia inacabada (Cepe, 2023), de Márcio Bastos.

“O livro tem a figura de Antônio Roberto Lira de França, o Pernalonga, como uma via central para entender as artérias do teatro de Pernambuco durante a ditadura. Por vezes ele era tratado como homem, outras vezes como mulher, e foi diagnosticado no fim dos anos 80 com HIV e morreu de forma trágica com um misterioso ferimento na perna. O texto do talentoso Márcio Bastos chega para a nossa comunidade como um lembrete, que a gente não seja esquecido. Ainda que saia de cena.”, diz.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]

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