Repertório 451 MHz,
Pé na crítica
O escritor José Falero aprofunda a discussão envolvendo forma e conteúdo que tem movimentado o debate atual sobre o que é literatura
16jan2026Está no ar o 179º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição traz uma conversa com o escritor gaúcho José Falero sobre a crítica literária no Brasil de hoje e a discussão envolvendo o predomínio do conteúdo sobre a forma na literatura contemporânea, que tem movimentado o meio literário brasileiro.
Para o escritor, que entrou no debate ao publicar um ensaio na revista Piauí, a discussão a respeito do que é literatura pode envolver gosto pessoal, mas não pode abrir mão da reflexão sobre experimentações e inovações na forma. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
José Falero estreou na literatura em 2019 com o livro de contos Vila Sapo (republicado em 2022) e depois publicou o romance Os Supridores (2020), a coletânea de crônicas Mas em que mundo tu vive? (2021) e o romance Vera (2024), todos lançados pela Todavia. O último inaugura uma trilogia em que o autor explora as masculinidades tóxicas. Na conversa, ele adiantou que o segundo volume da trilogia, que deve se chamar Luzia, sai este ano pela mesma editora.
O convite do 451 MHz a Falero aconteceu depois de ele publicar o ensaio “Murro em ponta de faca” na revista Piauí em novembro de 2025. No texto, o autor gaúcho argumenta que existe “uma dificuldade generalizada em admitir que nem todo texto é literário”.
O atual debate sobre o que é ou não literatura começou em agosto, quando a professora de letras aposentada da USP Aurora Bernardini afirmou, em entrevista à Folha de S.Paulo, que a literatura contemporânea, em particular a brasileira, tem como tendência privilegiar o conteúdo em detrimento da forma. Bernardini citou como exemplos autores populares como a francesa Annie Ernaux, a italiana Elena Ferrante e o brasileiro Itamar Vieira Júnior.
No episódio, Falero aprofunda a discussão, comenta trechos da entrevista de Bernardini e apresenta sua leitura do momento literário brasileiro.
Diversidade
De maneira dissonante, o escritor aponta que o debate sobre forma e conteúdo é importante, mas coloca outra grande questão como prioritária. “O meu ensaio trata de um problema que não é o nosso principal, que ainda é aumentar a diversidade. É fazer com que mais e mais pessoas historicamente afastadas do meio literário possam entrar e produzir”, diz.
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Falero conta que ficou frustrado com algumas reações ao ensaio. Parte do público, ele relata, interpretou o texto como um endosso das declarações de Bernardini. “Não é o caso. Eu fiz todo um esforço ali para dizer o seguinte: eu não quero falar de racismo, eu não quero falar de elitismo, eu quero falar de maneira objetiva sobre as alegações das pessoas e as minhas próprias que têm a ver com o trabalho formal que é realizado nas obras literárias”.
“O meu objetivo era a gente repensar o nosso potencial de se aperfeiçoar e tentar estabelecer um meio literário mais maduro”, explica.
Apesar das divergências sobre os critérios para definir o que é literatura, Falero concorda com a alegação central de Bernardini: a forma tem perdido espaço para o conteúdo. “Não acho que a gente tem uma proporção de importância entre forma e o conteúdo que seja saudável para o meio literário”, afirma.
Ao longo da conversa, Falero ainda discute como esse desequilíbrio prejudica também os autores que vêm de grupos historicamente excluídos do circuito literário — justamente os que conquistaram, nos últimos anos, espaços para contar suas próprias histórias.
Sem medo da crítica
Para o escritor, a crítica literária é uma ferramenta para fortalecer os escritores. “Eu vejo que isso [a crítica literária] é uma maneira de nos humanizar também, e de abrir espaço para que a gente possa aperfeiçoar o nosso potencial formal, artístico”, diz.
“A gente tem que sair um pouco dessas zonas de conforto, em que essas pessoas dessas populações estão sempre de acordo em tudo. Eu sempre protejo os meus iguais: são mulheres defendendo mulheres, a população negra defendendo a população negra, e não sobra espaço para que a gente faça uma crítica sincera sobre o nosso próprio trabalho, o que eu acho nocivo para nós mesmos.”
Ele deu como exemplo seus próprios livros. “Toda vez que as pessoas vêm falar comigo sobre Os supridores, por exemplo, elas destacam o fato de serem protagonistas subalternizados, gente precarizada. Percebe que é o conteúdo que as pessoas analisam? Como todo aquele que se propõe a escrever um texto literário, eu me esforcei para construir um trabalho estético ali e isso nunca é destacado”, explica. “Se tu não tá vendo os problemas, então tu também não tá vendo as virtudes.”
Falero também comenta como o ambiente de produção e consumo de cultura hoje, marcado pela velocidade das redes sociais e pela falta de tempo, tem afetado a literatura. “A gente tá bombardeado por coisas que têm influenciado a literatura. A dinâmica das redes sociais, o fato de as pessoas não terem mais tempo pra nada, e tu vê que os livros ficam cada vez mais curtos. Tem romance de cem páginas hoje em dia”, afirma.
No fim da conversa, o convidado cobra mais sinceridade e abertura entre autores e a crítica, num diálogo que ajude a aprimorar o próprio trabalho dos autores ao longo do tempo.
Livros e afins
Veja os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas pelo convidado durante a conversa:
- Os supridores, de José Falero (Todavia, 2020)
- Mas em que mundo tu vive?, de José Falero (Todavia, 2021)
- Vila Sapo, de José Falero (Todavia, 2022)
- Vera, de José Falero (Todavia, 2024)
- O cortiço, de Aluísio Azevedo (Penguin, 2016)
Mais na Quatro Cinco Um
José Falero foi entrevistado pela editora Iara Biderman na seção Fichamento da edição de novembro de 2021. Na época, ele lançava a coletânea de crônicas Mas em que mundo tu vive?. Além do livro, Falero falou sobre a literatura como direito e a vida antes da escrita.
“Antes de escrever me meti em coisas que não têm diretamente a ver com literatura, como construção civil. Trabalhei como auxiliar de gesseiro. Quando tu acaba de colocar as placas, tem falhas, precisa passar uma massa, fazer repasse. Olha o nome. Quando comecei a escrever, pensava nisso. Escrevo dois parágrafos, faço o repasse”, conta. Leia a entrevista completa.
Em 2022, o livro de estreia de Falero, Vila Sapo, foi resenhado pela colunista Bianca Tavolari na ocasião de seu relançamento. “As histórias são duras e profundamente envolventes, ganham o leitor e a leitora de saída, com um profundo domínio da forma do conto”, ela escreve sobre a coletânea. Leia na íntegra.
A Quatro Cinco Um ainda publicou uma entrevista do autor em novembro de 2024. Falero conversou com Paula Sperb sobre o romance Vera. “Gosto de escrever sobre coisas que estão borbulhando na minha cabeça. Pensar sobre masculinidades, relações de gênero, é algo que está muito presente”, disse. Leia mais.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio traz ainda uma dica literária do diretor de cinema Felipe Cabral, autor de O diário de Aquiles (Record, 2023). Ele indica 90 dias: diário de uma recuperação, do escritor e agente literário americano Bill Clegg, publicado pela Companhia das Letras em 2013, em tradução de Pedro Maia Soares.
“É um livro espetacular. Um relato muito contundente, muito sincero e, no fundo, esperançoso também sobre a recuperação de dependentes químicos”, recomenda.
Leia mais dicas da seção O Melhor da Literatura LGBTQIA+.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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