Repertório 451 MHz,

Guiné-Bissau, Bahia, travessia

Bianca Santana e Ernesto Mané conversam sobre seus novos livros, que narram a busca pela identidade, ancestralidade e o sentimento de pertencimento

22ago2025 • Atualizado em: 27ago2025

Está no ar o 160º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Este programa reúne os escritores Bianca Santana e Ernesto Mané, autores de dois lançamentos que narram a busca pela identidade, ancestralidade e o sentimento de pertencimento a partir de histórias de familiares que deixaram a terra natal. 

Santana está lançando o romance Apolinária, que mistura memória e ficção para resgatar a trajetória de sua avó materna, enquanto Mané publicou Antes do início, misto de ensaio e relato de viagem em que conta sua ida à Guiné-Bissau para conhecer a família paterna. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

Reconhecida como uma das principais vozes do feminismo negro brasileiro, a paulistana Bianca Santana é, além de escritora, colunista da Folha de S.Paulo e professora. Ela é autora de títulos como Quando me descobri negra, publicado originalmente em 2015 pela editora Sesi-SP e reeditado em 2023 pela Fósforo, e Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro, biografia que saiu em 2021 pela Companhia das Letras. Apolinária, seu recém-lançado primeiro romance, chega às livrarias pela Fósforo. 

Já Ernesto Mané, paraibano de João Pessoa, é físico e diplomata de carreira, e atualmente vive em Buenos Aires, onde serve na Embaixada do Brasil. Antes do início, publicado pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, é sua estreia na literatura.

O escritor e diplomata Ernesto Mané (Valeria Fiorini)

No episódio, os dois falam sobre as semelhanças entre seus livros e compartilham detalhes sobre suas jornadas pessoais para escrevê-los. Apolinária, por exemplo, é inspirado na vida da avó materna de Santana, que deixou o interior da Bahia rumo a São Paulo em meados do século passado. “Essa personagem é muito inspirada na minha avó, que nasceu no começo do século 20, no rio São Francisco, na Bahia, e migrou para São Paulo nos anos 50. A Apolinária personagem chegou em 1946 e vai contando, a partir do seu ponto de vista, a própria história, que é permeada pela história do Brasil no olhar de uma mulher negra”, explica. 

Misturando lembranças da avó e criação literária, a autora costura a narrativa da personagem com a própria voz. “Além da Apolinária em primeira pessoa, tem a voz da Bianca, neta dela, que vai contando a história da avó com um olhar mais crítico, mas também de forma muito saudosa e respeitosa. É um diálogo entre gerações”, conta.

No caso de Mané, a história contada é protagonizada por ele mesmo, mas sob a sombra da ausência paterna. O escritor estreante narra em Antes do início a viagem transformadora que fez à Guiné-Bissau em 2010, para conhecer a família do pai, que se mudou do país africano para o Brasil cerca de cinquenta anos atrás. No livro, escrito a partir de anotações feitas durante a jornada, ele reflete sobre identidade, pertencimento e as marcas deixadas pelo pouco contato que teve com o pai durante a infância e a adolescência. 

“Meu pai migrou para o Brasil nos anos 70, recebeu uma bolsa do governo brasileiro. No Brasil, conheceu minha mãe, casaram, tiveram dois filhos e depois se separaram. E aí, ele abandonou a família quando a gente era ainda muito pequeno”, conta. 

“Eu só retomei contato com ele aos vinte anos de idade e eu conhecia muito pouco sobre a história dele. Em 2010, viajei para a Guiné-Bissau e levei comigo um caderninho de anotações. No calor do momento, fui registrando tudo que aconteceu: as conversas, o que senti, e isso destravou algumas memórias de infância. Fui escrevendo mesclando o que ia vendo com essas memórias autobiográficas.” 

Em busca da ancestralidade

Ao longo da conversa, Santana e Mané comentam as semelhanças entre suas obras: ambos partem de figuras marcantes da família para elaborar narrativas que atravessam o tempo e refletem sobre a experiência de ser brasileiro. 

Santana compara o Brasil das mulheres negras da época de sua avó com o de agora. “Em 2025, eu conheço mulheres negras vindo da Bahia para São Paulo trabalhar. Mas não como empregada doméstica, e sim como gerente de agência de publicidade, como psicóloga, pra estudar. Esse é um fluxo migrante muito diferente de quando veio minha avó, mas eles coexistem”, reflete. 

“Não dá pra dizer que não mudou nada de lá pra cá, mas me parece que o principal ainda não mudou. E isso, quando a gente pensa na história do Brasil, o país contado do ponto de vista de uma mulher negra, analfabeta, empregada doméstica, esse Brasil, ele não está suficientemente contado”, diz a escritora.

A escritora Bianca Santana (Natalia Carneiro)

Ela destacou ainda a importância de grandes autoras como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves, que retratam a experiência das mulheres negras com suas personagens, mas ressalta que há muitos relatos sobre elas a serem feitos. “A gente tem muitas histórias ainda para contar. Histórias que estão no nosso imaginário, mas não estão na literatura. Ou histórias que não estão nem no nosso imaginário e precisam entrar por meio da literatura”, diz. 

Também no episódio, Mané relata o choque que teve ao ser chamado de branco na Guiné-Bissau. Nunca tive nenhuma dúvida quanto à minha identidade étnica e racial. Eu sou filho de uma mulher branca com um homem africano, mas fenotipicamente eu sou um homem negro e isso sempre esteve muito definido pra mim. Mas quando eu estava andando na rua lá, as crianças me viam e me chamavam de branco”, conta o diplomata. 

“Isso pra mim foi um choque, porque elas estavam me vendo como um estrangeiro pela forma como estava vestido, por eu não falar a língua local, eu estava segurando uma câmera digital. Então, eles associaram esses símbolos com o estrangeiro, e para eles o estrangeiro é branco”, explica. 

Livros do episódio

Veja abaixo a lista de livros que aparecem nesta edição do 451 MHz:

Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro, de Bianca Santana (Companhia das Letras, 2021)
Quando me descobri negra, de Bianca Santana (Fósforo, 2023)
Quem limpa?, de Bianca Santana (Companhia das Letrinhas, 2025)
Apolinária, de Bianca Santana (Fósforo, 2025)
Antes do início, de Ernesto Mané (Tinta-da-China Brasil, 2025)

Mais na Quatro Cinco Um

Em 2023, Bianca Santana resenhou para a edição #73 da revista dos livros a coletânea Irmãs do inhame: mulheres negras e autorrecuperação, de bell hooks (WMF Martins Fontes, 2021), que inaugurou sua produção sobre o amor. “Ao tratar da subjetividade de mulheres negras, bell hooks nos apresenta possibilidades de existência pelas frestas da violência racista e sexista — frestas alargadas pela compreensão de que o sistema de opressão em que vivemos precisa ser enfrentado coletiva e politicamente. Mas o foco do livro não está nesse sistema, está em nossa irmandade”, escreveu. Leia a resenha na íntegra.

Já em julho de 2025, no 156º episódio do 451 MHz, ela conversou a historiadora Luciana da Cruz Brito sobre a urgência de reparar as violências históricas desencadeadas pelo tráfico de pessoas escravizadas e pela escravidão no Brasil. O encontro aconteceu durante A Feira do Livro e foi transformado em podcast. Ouça aqui

Além disso, seus livros Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro e Diálogos feministas e antirracistas (nada fáceis) com as crianças (Camaleão, 2023) foram resenhados na revista dos livros, respectivamente por Jefferson Barbosa na edição #46, de junho de 2021, e por Juliana Borges na edição #74, de outubro de 2023.

O melhor da literatura LGBTQIA+

Este episódio traz ainda uma dica do escritor e pesquisador Octávio Santiago. Ele é autor de Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste (Autêntica, 2025). 

Santiago fez duas indicações: a HQ Arlindo, de Luiza de Souza, conhecida como Ilustralu (Seguinte, 2021), e o romance Madame Xanadu, do escritor e ilustrador Aureliano (Nacional, 2021). 

Arlindo é uma história que ela [Ilustralu] vinha compartilhando nas redes sociais e virou um livro de sucesso, foi indicada ao Jabuti, inclusive. E Madame Xanadu traz um Nordeste completamente não estereotipado, para mostrar que a nossa subjetividade e os lugares que a gente quer ocupar e o que a gente pode ser vai muito além daquelas narrativas já prontas que existem sobre nós”, diz.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Mariana Franco
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Apresentação exclusiva: Petrobras
Para falar com a equipe: [email protected]