Coluna

Juliana Borges

Perspectiva amefricana

‘Pra entender o Erê’

O racismo na vida de crianças negras pode ser fatal, já que o sistema impacta a forma como se reconhecem no mundo

27set2023 - 18h35 | Edição #74

“Por que parece que as pessoas têm medo da polícia? A polícia não protege todo mundo?”; “Se a lei fosse respeitada, a polícia deveria mesmo cuidar da segurança de todas as pessoas. Infelizmente, em um país racista como o nosso não é assim.”

Quando pensamos em infância, dificilmente imaginaríamos um diálogo como esse. Mas quando falamos de Brasil, essa é uma conversa bastante corriqueira. Nos Estados Unidos, o movimento negro até cunhou uma expressão para falar sobre um momento fundamental na vida de uma criança negra: “The talk” ou “A conversa”. Não é fácil, mas é necessária para garantir vidas negras. No Brasil, podemos não ter uma “conversa”, mas temos várias no decorrer da vida.


“A conversa” é o diálogo presente no mais novo livro de Bianca Santana, Diálogos feministas e antirracistas (nada fáceis) com as crianças

“A conversa” que abre esse texto é o diálogo presente no mais novo livro de Bianca Santana, Diálogos feministas e antirracistas (nada fáceis) com as crianças, lançado pela Camaleão, selo infantil da editora Alta Books, com ilustrações de Tainan Rocha. Nele, a doutora em ciência da informação e mestre em comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) nos conduz por conversas desafiadoras mas incontornáveis.

Desde a infância, temos que nos preocupar com ações que pensamos ser necessárias só na fase adulta. Se vestir bem para sair de casa, nunca andar na rua sem rg. Não tirar as mãos do volante sem ser ordenado pelo agente da lei, caso seja parado. Coopere. Mantenha a calma. Fale baixo. Sim, senhor. Pois não, senhor. Sou trabalhador, senhor.

No livro, a escritora Bianca Santana nos conduz por conversas desafiadoras mas incontornáveis

Santana também trata da dimensão de gênero, se quisermos ensinar as crianças a serem adultos cooperativos, solidários e que respeitam mulheres. Não é fácil nadar contra a maré hétero-patriarcal normatizada pela escola e pelas relações sociais do dia a dia, já que ambos determinam nossos comportamentos e não apresentam o mundo de modo crítico. A gente se torna a chata que fala de machismo todo dia e que vê racismo em tudo.

Precisamos ser vigilantes porque essas estruturas operam e se reinventam incansavelmente. Um “não, senhor” atravessado pode se tornar um “eu não consigo respirar” em segundos; um lapso na educação pode fazer com que seu filho relegue às mulheres as atividades cotidianas. Por isso, o antirracismo e o feminismo são movimentos que demandam ação e postura ética ativa.

O racismo na vida de crianças negras pode ser fatal, posto que um sistema econômico, político, social, cultural e psicológico impacta a forma como se reconhecem no mundo. Segundo a Unicef, cerca de 26 milhões de crianças e adolescentes vivem em famílias pobres. Desse contingente, 17 milhões são crianças negras. Como reflexo do racismo estrutural e institucional, estas, entre sete e catorze anos, têm 30% mais chances de estar fora da escola se comparadas às brancas.

O racismo na infância causa efeitos que vão de estresse frequente e prolongado — que, sem apoio adequado, pode gerar transtorno do sono — até irritabilidade, piora na imunidade e frequente sensação de medo e alerta. Essas consequências impactam pessoas negras por toda a vida, ocasionando atraso no desenvolvimento, transtorno de ansiedade, depressão e queda no rendimento escolar.

Já os adolescentes negros correm 2,6 vezes mais risco de serem assassinados do que os brancos em médias e grandes cidades. A violência, o abuso e a exploração sexual infantil no Brasil atinge índices alarmantes — 75% das vítimas são meninas negras. Quando pensamos na divisão de responsabilidades domésticas, elas realizam o dobro desse trabalhos em relação aos meninos, segundo dados da pesquisa “Por ser menina no Brasil”, realizada pela Plan International Brasil.

Responsabilidade coletiva

Santana sabe que a dimensão dessa luta não se dá apenas no espaço doméstico. A autora nos convida para a nossa responsabilidade coletiva e social na construção de uma sociedade antirracista e feminista.

Dados divulgados em 2023 pelo Geledés — Instituto da Mulher Negra e pelo Instituto Alana mostram que ainda temos muito a fazer quando se trata de antirracismo, equidade de gênero e infância. Uma pesquisa demonstrou que 71% das redes municipais de ensino do país não praticam o que determina a lei de ensino de história e cultura afro-brasileira. Apenas 29% dos municípios mantêm ações consistentes, com projetos perenes, em relação ao tema. A maioria é formada por ações pontuais, realizadas apenas nas comemorações do Vinte de Novembro e garantidas, na maior parte das vezes, por um membro da comunidade escolar; e 18% não realizam qualquer ação. Esses dados sustentam as preocupações de Santana presentes no livro.

Ao lê-la, fui transportada para as coisas que aprendi com minha mãe na tenra idade. Voltei para um 13 de maio de 1988, quando minha mãe me levou ao ato de cem anos de denúncia da abolição inacabada, em que me orientava a cerrar os punhos e empunhá-los firmes. Ali percebi que minha mãe não problematizava demais, ela estava me preparando.

O que aproxima Bianca Santana e minha mãe é a experiência de serem mulheres negras e mães que realizam lutas e projetam futuros imaginados com justiça, equidade, direitos e liberdade. Nesse exercício de maternidade “nada fácil”, visam futuros nos quais não seja mais necessário preparar crianças para enfrentar o mundo, mas que os erês possam ser criados em plenitude pueril. Até lá, “as conversas” precisam ser travadas e os punhos, cerrados e erguidos.

O que o racismo não contava era com a imaginação assertivamente estratégica e radical de mulheres negras como minha mãe e Bianca, que não esperam o amanhã e sabem que, se quisermos um futuro baseado na vida, precisamos construí-lo hoje, todo dia. O que me lembra a letra da música “O Erê”, do grupo Cidade Negra:

Pra entender o Erê
Tem que tá moleque
Uh! Erê, eh!
Tem que conquistar alguém
Que a consciência leve…

Quem escreveu esse texto

Juliana Borges

Escritora e livreira

Matéria publicada na edição impressa #74 em setembro de 2023.