A cobertura especial d’A Feira do Livro, que acontece de 14 a 22 de junho, é apresentada pelo Ministério da Cultura e pela Petrobras
MINISTÉRIO DA CULTURA E PETROBRAS APRESENTAM
A FEIRA DO LIVRO 2025, Repertório 451 MHz,
Memórias negras importam
Luciana da Cruz Brito e Bianca Santana conversam sobre como lidar com as desigualdades produzidas pela escravidão e qual o papel da literatura nessa discussão
30jul2025Está no ar o 156º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Este programa traz uma conversa entre a historiadora Luciana da Cruz Brito e a escritora Bianca Santana sobre a urgência de reparar as violências históricas desencadeadas pelo tráfico de pessoas escravizadas e pela escravidão no Brasil, com destaque para o papel da literatura na valorização da memória coletiva negra.
A conversa aconteceu em junho durante A Feira do Livro 2025, na mesa Reparação: memória e reconhecimento, e teve a mediação da tradutora e editora Fernanda Sousa. Transformada em podcast, faz parte da temporada especial do 451 MHz com encontros da quarta edição do festival literário paulistano. O episódio foi realizado com apoio do Ministério da Cultura e tem apresentação exclusiva da Petrobras.
O ponto de partida da discussão foi o lançamento do livro Reparação: memória e reconhecimento, publicado pela editora Fósforo. O volume registra os debates de um seminário do Instituto Ibirapitanga, realizado em 2023, que reuniu lideranças e pensadores do movimento negro e tratou da reparação dos danos causados pela escravidão no Brasil.
Organizadora do livro, Luciana Brito destaca no episódio que a escravização é “irreparável”, mas é preciso falar de reparação olhando para suas consequências no presente. “Novas formas de desigualdade, de violência, foram sendo produzidas”, ela lembra, acrescentando que a sociedade brasileira deve não só “pensar como reparar aquilo que historicamente foi deixado a partir dos quase quatrocentos anos de escravidão, mas lidar também com o que é produzido cotidianamente em termos de desigualdade”.
Mais Lidas
Bianca Santana, que participou do seminário do Ibirapitanga e é uma das autoras de Reparação: memória e reconhecimento, concorda. “Falar sobre reparação é assumir a urgência daquilo que precisa ser transformado nesse país com muita seriedade”, diz.
Escrita e memória
No episódio, as convidadas chamam atenção também para o papel da literatura na valorização da memória negra coletiva. Santana destaca iniciativas como a série literária Cadernos Negros, organizada pelo coletivo Quilombhoje a partir de 1978. “A primeira vez que Conceição Evaristo publicou foi nos Cadernos Negros”, diz Santana, lembrando da estreia literária de Evaristo nos anos 90.
A autora de Quando me descobri negra, lançado originalmente em 2015 e reeditado em 2023 pela Fósforo, lembra ainda que Becos da memória — segundo romance publicado por Evaristo, em 2006 — foi escrito ainda na década de 80, mas ficou guardado porque “não tinha espaço para ele ser publicado no Brasil naquele momento”, conta. “A literatura há muito tempo tem tratado das nossas questões sem perder a magia do que faz a literatura ser literatura”, observa Santana.
Também no programa, ela e Brito compartilham histórias que ainda gostariam de ver publicadas dentro da ótica da reparação. “As histórias que eu tenho vontade de ler, de ver registradas nas prateleiras, nas casas, nas bibliotecas comunitárias são as das pessoas comuns que fizeram e fazem coisas grandiosas na experiência negra brasileira popular”, diz Brito.
“Eu tenho cada vez mais a sensação de que minha principal contribuição não é escrever, é estimular as pessoas a escrever”, afirma Santana.“E tenho vontade de ler muitas coisas, essas histórias do cotidiano, as histórias do terreiro, mas também tenho vontade de ler histórias fantásticas do nosso cotidiano.”
Livros do episódio
Veja abaixo a lista de livros que aparecem nesta edição do 451 MHz, incluindo os títulos lançados pelas convidadas e outras leituras recomendadas:
Reparação: memória e reconhecimento. Vários autores. Org. Luciana da Cruz Brito (Fósforo, 2025).
Quem limpa?, de Bianca Santana (Companhia das Letrinhas, 2025).
Apolinária, de Bianca Santana (Fósforo, 2025).
O avesso da raça: escravidão, abolicionismo e racismo entre os Estados Unidos e o Brasil, de Luciana da Cruz Brito (Bazar do Tempo, 2023).
Quando me descobri negra, de Bianca Santana (Fósforo, 2023).
Diálogos feministas antirracistas (e nada fáceis) com as crianças, de Bianca Santana (Camaleão, 2022).
Arruda e Guiné: resistência negra no Brasil contemporâneo, de Bianca Santana (Fósforo, 2022).
Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro, de Bianca Santana (Companhia das Letras, 2021).
Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista, de Luciana da Cruz Brito (Edufba, 2016).
Silenciando o passado: poder e a produção da história, de Michael-Rolph Trouillot, traduzido por Sebastião Nascimento (Cobogó, 2024).
Por um feminismo afro-latino-americano, de Lélia Gonzalez (Zahar, 2020).
O avesso da pele, de Jefferson Tenório (Companhia das Letras, 2020).
A vida e a época de Frederick Douglass, de Frederick Douglass, traduzido por Rogerio Galindo (Carambaia, 2022).
O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista, de Abdias do Nascimento (Perspectiva, 2019).
Torto arado, de Itamar Vieira Júnior (Todavia, 2019).
Becos da memória, de Conceição Evaristo (Pallas, 2017).
Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo (Pallas, 2017).
O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, de Abdias do Nascimento (Perspectiva, 2016).
Olhos d’água, de Conceição Evaristo (Pallas, 2014).
Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves (Record, 2006).
Úrsula, de Maria Firmina dos Reis (várias editoras).
Mais sobre as convidadas
Luciana da Cruz Brito é historiadora, pesquisadora, escritora e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Publicou, entre outros, O avesso da raça (2023) e Temores da África (2016), pelo qual ganhou o prêmio Thomas Skidmore da Biblioteca Nacional. Em 2023, foi cocuradora da Flica (Festa Literária Internacional de Cachoeira), na Bahia.
Bianca Santana é escritora, jornalista, doutora em ciência da informação e mestra em educação pela Universidade de São Paulo. Ela é diretora da Casa Sueli Carneiro, em São Paulo, e autora de Quando me descobri negra (2015, reeditado em 2023), Arruda e Guiné (2022), Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro (2021) e dos infantis Quem limpa? (2025) e Diálogos feministas antirracistas (e nada fáceis) com as crianças (2021). Seu primeiro romance, Apolinária, sai em agosto pela Fósforo.
Temporada especial
Em julho, mês em que completa seis anos no ar, o 451 MHz publica uma temporada especial de quinze episódios com mesas que fizeram sucesso n’A Feira do Livro 2025. Ou seja, a cada dois dias, até 1º de agosto, um episódio novo do podcast dos livros vai ao ar. Saiba mais aqui.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Apresentação exclusiva: Petrobras
Para falar com a equipe: [email protected]
A Feira do Livro 2025 · 14 — 22 jun. Praça Charles Miller, Pacaembu
A Feira do Livro é uma realização do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais, Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos dedicada à difusão do livro e da leitura no Brasil, Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais, e em parceria com a Prefeitura de São Paulo.


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