Repertório 451 MHz,
Espelho da memória
Às vésperas de completar oitenta anos, Conceição Evaristo fala sobre literatura, a circulação de sua obra por novos espaços e o futuro
06nov2026Está no ar o 220º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Neste programa, a escritora mineira Conceição Evaristo, que faz oitenta anos em 29 de novembro, conversa com a jornalista Adriana Ferreira Silva sobre sua trajetória literária e os caminhos da sua obra. O episódio traz a íntegra da entrevista publicada na Quatro Cinco Um deste mês. Evaristo fala da circulação de seus livros em diferentes espaços e da relação entre literatura, memória e as experiências da diáspora negra.
Ela ainda reflete sobre as mudanças em sua escrita e sua relação com outros autores negros, e revela novos projetos. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.
Também professora e pesquisadora, Conceição Evaristo é uma das principais vozes da literatura brasileira. Autora de romances como Ponciá Vicêncio (2003) e Canção para ninar menino grande (2018), a escritora desenvolveu o conceito de escrevivência, que articula escrita, memória e experiência coletiva, especialmente de mulheres negras.
Ela acaba de lançar o Box Conceição Evaristo, que reúne sua obra completa e foi publicado em coedição pelas editoras Malê e Pallas. O volume traz os romances Ponciá Vicêncio, Canção para ninar menino grande e Becos da memória (2006); os livros de contos Insubmissas lágrimas de mulheres (2011), Olhos d’água (2014) e Histórias de leves enganos e parecenças (2016); além de Poemas da recordação e outros movimentos (2008) e da coletânea Quando eu morder a palavra: entrevistas com Conceição Evaristo e guia de leitura das suas obras (2023), de Henrique Marques Samyn e Vagner Amaro.
‘Evaristoverso’
Prestes a completar oitenta anos, Evaristo tem recebido uma série de homenagens. Uma delas é a coletânea A gente combinamos de escrever (Malê), que reúne dez contos de escritores brasileiros contemporâneos com histórias inspiradas no universo criado pela mineira. No episódio, ela conta que os autores convidados — como Calila das Mercês, Cuti, Itamar Vieira Junior, Jeferson Tenório, Eliana Alves Cruz e Estevão Ribeiro, estes dois também organizadores do livro — já eram velhos conhecidos, o que tornou a obra mais significativa.
Para a autora, a escrita de outros autores negros vem criando “uma vertente ou uma tradição dentro da literatura brasileira”, na qual as obras não fazem parte apenas de projetos individuais, mas de uma literatura coletiva.
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Ao comentar as releituras de seu universo feitas em A gente combinamos de escrever, Evaristo afirma que a literatura deve permitir caminhos para novas ficcionalizações. “O texto literário, para mim, faz sentido se o final for aberto.” A abertura, explica, pode estar tanto na interpretação quanto na possibilidade de continuar uma história.

Também homenageada no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro em 2026, pelo Império Serrano, a mineira reflete sobre a repercussão da sua obra além do meio literário. “É um local muito característico das classes populares, onde as classes populares podem exercer uma liberdade — uma liberdade da festa, uma liberdade do poder dizer, uma liberdade de construção do discurso.” Ela associa esse sentimento à sua própria obra: “a minha literatura é um louvor à liberdade, é a luta pela liberdade”, define.
Literatura negra
Questionada sobre rótulos que acompanham a literatura negra contemporânea, como afrofuturismo e feminismo negro, Evaristo ressalta que não é possível pensar em um único termo capaz de abarcar a diversidade. Ela lembra que as experiências de autores negros se relacionam aos contextos históricos e culturais em que as obras são produzidas e que, apesar das origens africanas em comum, o continente de onde vieram os povos escravizados é hoje bastante diferente do que existia na época da diáspora.
Isso não impede, porém, aproximações. Para Evaristo, a memória da escravização e as experiências compartilhadas por povos negros criam pontos de contato entre autores de diferentes países — ela cita, por exemplo, a americana Toni Morrison, a cubana Teresa Cárdenas e o martinicano Édouard Glissant.

“Gosto muito de pensar que a África foi a nossa Pasárgada”, comenta, citando o poema de Manuel Bandeira. A comparação ganha um sentido ainda mais afetivo quando a escritora relata uma viagem ao continente. Em São Tomé e Príncipe, conta, uma vendedora de peixe a abraçou ao vê-la, dizendo que ela andava sumida. Evaristo diz que teve a sensação de reencontrar uma tia. “Passaram-se séculos, mas África e diáspora têm alguma coisa, um liame ainda, cujo nome eu não saberia dizer.”
Escrevivência
A escritora também fala sobre o diálogo do conceito de escrevivência com outros que buscam refletir sobre a autoria negra. É o caso da ideia de tempo espiralar, explicitada pela mineira Leda Maria Martins em Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela (Cobogó, 2021).

Evaristo observa que ambos os conceitos se estruturam a partir da memória e da ancestralidade, mas, enquanto a escrevivência se volta mais para a ficcionalização de experiências compartilhadas — o que, ela ressalta, se distancia de “escritas narcísicas”, como alguns exemplos de autoficção —, o tempo espiralar faz pensar em um “tempo contínuo” no qual “nosso futuro já foi sonhado por nossos ancestrais”.
Sobre os efeitos do tempo na própria escrita, Evaristo diz que adquiriu mais confiança em sua capacidade. A mineira conta que costuma ser questionada sobre quando decidiu se tornar escritora, ao que responde: “não escolhi ser escritora; eu escolhi escrever”. Para ela, é o público quem confere o título.
Futuro
A escritora ainda fala sobre novos projetos. Ela revela que prepara o livro de poemas O gozo e seus movimentos, em que pretende abordar o sexo e o desejo sem recorrer a uma linguagem direta.

Com a rotina cheia de compromissos nos últimos tempos, a mineira diz que pretende reservar 2027 para terminar seu romance Flores de mulungu, já iniciado, e se dedicar também a O silencioso pranto dos homens e Em nome di mãe, em que vai usar cartas e outros registros deixados pela mãe, vítima da Covid-19, morta a três dias de completar 99 anos.
A figura materna, diz Evaristo, é sua maior referência. “Minha mãe só fez a passagem quando perdeu o tesão pela vida. Como eu gosto de viver, quero seguir o exemplo.”
Livro Marcador
No quadro sobre livros marcantes na vida de escritores e personalidades das artes e da cultura, o episódio traz a sugestão de Alberto Mussa, autor de A extraordinária Zona Norte (Todavia, 2024) e coautor, com o Luiz Antonio Simas, de Samba de enredo: história e arte (Civilização Brasileira, 2023), entre outros.

“Meu pai tinha uma biblioteca enorme dentro de casa e, de certa maneira, me obrigava a ler os clássicos. Machado de Assis, Eça de Queiroz, os grandes poetas, Castro Alves, Fernando Pessoa, Luís de Camões. Mas a minha mãe me deu O caso dos dez negrinhos — o título da época —, que hoje se chama E não sobrou nenhum, da Agatha Christie”, diz.
“Eu descobri a beleza da literatura policial, que passou a ser o gênero que cultivo até hoje, e também a literatura contemporânea, porque eu estava acostumado aos clássicos. A minha forma de enxergar a literatura mudou. Não que tenha desprezado os clássicos, muito pelo contrário, mas incorporei uma nova forma de sentir a literatura, de perceber a grandeza e o potencial que ela tem para atingir mundos que estão distantes da gente.”
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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