Literatura brasileira,
Combinamos de celebrar
Em homenagem aos oitenta anos de Conceição Evaristo, dez autores recriam o ‘Evaristoverso’
05out2026Um dos mais aclamados livros de Conceição Evaristo, Olhos d’água (Pallas, 2014), apresenta, em quinze contos, personagens que se tornaram íntimos das pessoas leitoras: Ana Davenga, Maria, Duzu-Querença, Luamanda, Di Lixão, Lumbiá, Natalina, Cida, Zaíta, Kimbá…
O livro também ficou conhecido por trazer a célebre frase: “A gente combinamos de não morrer”. Em A gente combinamos de escrever: contos inspirados no universo literário de Conceição Evaristo, dez escritores acordaram de comemorar os oitenta anos da escritora por meio de textos inéditos que evocam personagens não apenas de Olhos d’água, mas de todo o “Evaristoverso”. É bonito ver, ler e (re)conhecer histórias e narrativas que, imaginadas por Evaristo, agora ganham continuidade na fabulação desses autores.
Os escritores consideram os elementos da obra evaristiana documentos que podem ser atualizados
Calila das Mercês nos dá notícias dos filhos de Maria; Cuti conta o que foi feito de Di Lixão; Eliana Alves Cruz ousa e traz um narrador inesperado para o território de Becos da memória (Pallas, 2017); Elisa Lucinda, por meio do encontro com um Deus preto, promove uma (quase) reparação histórica na vida de Fio Jasmim, de Canções para ninar menino grande (Pallas, 2022); Estevão Ribeiro narra o que aconteceu com a irmã de Zaíta e sua mãe; Itamar Vieira Junior traz uma Duzu-Querença que questiona os limites da ficção e da “vida-real”.
Jeferson Tenório, por sua vez, desloca a água do olhar e nos incentiva a pensar sobre a finitude de quem amamos; Marcelino Freire, homenageando Natalina Soledad, discute machismo; Miriam Alves, com narrativa que traz outra perspectiva sobre a vida de Aramides Florença, fala da misoginia nossa de cada dia; Verenilde Pereira, por meio de um conto um tanto autoficcional, invoca Lumbiá para (re)afirmar que “só temos a literatura”.
O início do livro anuncia que se trata de uma celebração por ocasião do aniversário de Evaristo. Porém, assim como vemos que “as astúcias da enunciação” da homenageada nos enredam em suas palavras-feitiço, aqui o resultado vai muito além de uma comemoração.
Vejamos: Saidiya Hartman, autora de Perder a mãe: uma jornada pela rota atlântica da escravidão (Bazar do Tempo, 2021), nos convoca a questionar os limites do documento histórico por meio da história oral e da (ora, ora, ora) literatura ao fabular criticamente sobre aqueles que são/somos a “sobrevida da escravidão”. Bem, o que cada um desses autores faz em A gente combinamos de escrever é justamente considerar personagens e elementos da obra de Evaristo documentos legítimos que podem ser atualizados, tensionados, fabulados a fim de legitimar (um)a história de quem é descendente da diáspora atlântica. A travessia é refeita pela e na palavra.
Tempo espiralar
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Se uma das justificativas que a obra traz é pautada nas diversas possibilidades de interpretação do número 80 (8 como encruzilhada infinita e 0 como círculo), vemos que cada uma das pessoas escritoras, em suas espirais, retorna àquelas nas quais vivem as personagens de Evaristo, bem como ascende às futuras-presente, onde elas e nós também orbitamos. É bonito demais ver como conseguiram explicar de forma tão poética, em seus corpos-tela, o conceito de tempo espiralar de Leda Maria Martins, explicitado em Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela (Cobogó, 2021).
Vida longa e linda para Conceição Evaristo e suas personagens. Vida longa e linda para a palavra que sangra, constrói, significa e acolhe.
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