Flip, Literatura Negra,

A África dentro de mim

Convidada da Flip deste ano, a escritora cubana Teresa Cárdenas fala sobre ancestralidade e escrita como ato político

01nov2022 - 04h51 | Edição #63

“Eu sou a cor da primeira terra do mundo
o mais fértil
o mais profundo
Eu fui amado desde o início
e no meu ventre foi coroado
a vida
Aqui estão meus seios abundantes
minha boca cheia de histórias e músicas
Eu tenho constelações entre meus dedos
A África nasceu de mim.”

O poema acima, intitulado “Eu, Eva”, de autoria da escritora cubana Teresa Cárdenas (em tradução livre) sintetiza bem o que ela pretende com sua obra completa: um resgate do legado dos povos africanos por meio das suas histórias, especialmente as contadas pelas mulheres. Ganhadora de importantes prêmios literários como o Casa das Américas, o Prêmio David e o Prêmio Nacional da Crítica Literária, Cárdenas é um dos nomes mais aguardados entre os convidados internacionais da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, que acontece entre os dias 23 e 27 de novembro, quando se junta a uma mesa com a escritora pernambucana Cida Pedrosa.

Ela já era uma figura icônica em vários círculos literários no Brasil, assim como no cenário internacional, tendo suas obras traduzidas e publicadas em países como Canadá, Estados Unidos, Suécia, Coreia do Sul, Venezuela, República Dominicana e Brasil. Sua escrita carrega as marcas da ancestralidade africana que, mesmo de maneira forçada e violenta, encontrou caminhos nos territórios da América Latina e do Caribe.

Além de escritora, Cárdenas é assistente social, atriz, bailarina, ativista social e contadora de histórias. Sua obra é incontornável para todos aqueles interessados na produção literária de mulheres negras, especialmente as que focalizam o público infantojuvenil. Nessa linha, escreveu Cartas para a minha mãe, lançado pela editora Pallas em 2020 com tradução de Eliana Aguiar, um romance epistolar narrado em primeira pessoa por uma menina que está em uma jornada de autodescoberta e empoderamento negro e que escreve cartas para a mãe já falecida.

Inspirados nas mitologias africanas, seus livros são marcados pelo universo religioso da santeria

Também lançado no Brasil pela Pallas em 2010 e traduzido por Joana Angélica D’Avila Melo, Cachorro Velho, ganhador do Casa das Américas — a mais alta honra literária de Cuba e um dos prêmios mais importantes do mundo de fala hispânica —, narra a vida de um homem negro já idoso em sua condição de escravizado e seu árduo percurso para descobrir-se humano. Nesse livro, há uma lírica bonita de humanização de alguém que foi tratado (e que até se entende assim) como mercadoria desde o ventre. As experiências vividas por ele e sua tenaz tentativa de conectar-se com sua africanidade são apresentadas ao leitor no caminho desse homem rumo à liberdade.

Inspirados nas mitologias africanas e na experiência da escritora como mulher negra, seus livros publicados no Brasil são marcados pelo universo religioso da santeria, religião de matriz africana forte na região do Caribe, com destaque para o belíssimo Mãe Sereia, ilustrado pela argentina Vanina Starkoff e também lançado pela Pallas. Neles, somos convidados a entrar nos quartinhos com os altares de imagens, ervas e comidas dedicadas aos deuses que dançam; desse modo, somos apresentados, de forma bastante leve e até familiar para um público mais afinado com as práticas religiosas do candomblé, a uma nova cosmogonia, em que os voduns, inquices e orixás são cúmplices no mundo dos vivos.

A revista Quatro Cinco Um entrevistou Teresa Cárdenas, recém-chegada a Havana depois de uma longa turnê pela Europa. Na conversa, ela fala sobre sua obra e os projetos que promete lançar ainda neste ano no Brasil.

Quando foi que você despertou para o mundo dos livros e começou a escrever? Sempre esteve em seus planos ser escritora?
Nunca pensei em ser escritora. Não sabia o que era isso. Eu era muito próxima dos livros e das histórias, mas nunca pensei nos autores, naqueles que escreviam os textos. Acho que, na minha mente de criança, as histórias ganhavam vida e eu me via como apenas mais uma personagem. Lia e sentia dentro delas, como se as experimentasse em primeira mão. Algum tempo depois, quando percebi que havia alguém por trás, criando tamanha maravilha, fiquei fascinada. Comecei no mundo dos livros assim que aprendi a ler. Fiquei fascinada. A primeira coisa que fiz foi escrever meus próprios textos escolares.

Depois continuei lendo muitas histórias, até que a poesia me conquistou. Vallejo, Paul Éluard, Guillén, Aimé Césaire e Miguel Hernández foram meus amigos de adolescência. Mais tarde, enquanto reconhecia minha identidade afro-cubana, fui ao encontro poético de Georgina Herrera, Rogelio Martínez Furé e Nancy Morejón. Também li muitos livros de história, ensaios e biografias de grandes homens e mulheres da história cubana. Foram dias memoráveis, cheios de paixão e admiração. Eu me reconheci em cada verso e, felizmente, eles influenciaram minha forma de refletir meu universo como mulher negra na literatura.

‘Eu, adolescente negra, só lia sobre princesas de olhos azuis que moravam em castelos’

De onde tirou a inspiração para escrever Cartas para a minha mãe?
Eu me inspirei em mim mesma e em outras garotas negras como eu que nunca apareceram em livros infantis. Foi muito interessante, porque eu lia muito e, um dia, disse para mim mesma: “Bem, onde estão as personagens que se parecem comigo?”. Foi como um despertar, como desfazer um feitiço. Eu, adolescente negra, de pai ausente, mãe que trabalhava duro para colocar comida na mesa, eu que cozinhava a carvão, dividia o mesmo banheiro com oito famílias, só lia sobre princesas de olhos azuis que moravam em castelos. Percebi que isso precisava ser mudado. Não era nada justo. Mas não foi um processo rápido. Primeiro, tive que me reconhecer, lutar comigo mesma e com minha própria família e meus amigos. Cartas para a minha mãe foi o início de um processo de autorreconhecimento por meio da literatura que continua até hoje. Nesse livro, há muitas experiências pessoais; pode-se dizer que é um espelho de família.

A personagem principal de Cartas para a minha mãe é uma menina que escreve para a mãe já falecida. Essa personagem não tem nome. Por que não deu um nome a ela?
Aconteceu inconscientemente. Escrevi e escrevi, e só quando terminei percebi que não tinha nome. Fiquei apavorada, procurei por uma série de nomes e não encontrei nenhum que se encaixasse na personagem. Então, eu sabia que não precisava de um nome, a própria história me havia avisado. Aquela garota era a representação de muitas outras.

O público-alvo da maioria dos seus livros é o infantojuvenil e, em entrevistas que já deu, você enfatiza que sente um dever militante ao escrever para esse público. A sua literatura não se furta a tratar temáticas “pesadas” como estupro, racismo, violência e morte. Qual a importância dessa abordagem?
Essas questões fazem parte da história de muitas pessoas. E quase sempre são vivenciadas na infância ou na adolescência. Não deveriam acontecer, mas acontecem. São situações traumáticas, tristes e que ocorrem com mais frequência do que pensamos. Em geral, elas não têm a possibilidade de receber qualquer ajuda, ou porque são casos mantidos em silêncio ou porque não existe um ambiente familiar ativo e preocupado.

Meu dever é oferecer toda a solidariedade que puder, assim como as ferramentas para enfrentar e sobreviver a todos os obstáculos. Ao escrever histórias e lidar com personagens que são familiares, digo a esse público: “Você não está sozinho, eu me importo com você, estou ao seu lado, você pode sair dessa situação”. Jamais deixarei essas questões de lado; é um compromisso que tenho com meus leitores.

Você tem afirmado que “viver é um ato político para as mulheres negras”. Considera sua escrita política?
É claro! Todo projeto que parte de uma vivência pessoal para servir de ensinamento às novas gerações é um ato político, especialmente nestes tempos. Mas se acrescentar a isso o fato de o portador desse discurso ser uma pessoa que representa milhares de outras que durante séculos foram impedidas de ter uma voz e um espaço na sociedade, então essa posição política aumenta, se potencializa e torna-se não apenas uma responsabilidade, mas se converte em uma missão para toda a vida.

‘Todo projeto pessoal que serve de ensinamento às novas gerações é um ato político’

O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, em 25 de julho, ganhou muita força no Brasil. Tornou-se um importante marco para celebrar o que a intelectual Lélia Gonzalez chamou de “Améfrica”, uma América Negra, ligada à experiência transatlântica africana. Acha que sua escrita se aproxima da das escritoras negras brasileiras?
Tenho a sorte de conhecer algumas daquelas que, atualmente, lutam por sua literatura nesse Brasil que está se tornando mais complexo. São todas minhas irmãs e amigas. Celebro sua amizade e generosidade. São mulheres ternas, compassivas, muito inteligentes e corajosas. Daqui de Cuba, apoio suas lutas contra o racismo e a violência. São também as minhas lutas. Tenho um poema que fala da comunhão que existe em toda literatura escrita por mulheres negras, digo que “parece escrita pela mesma mão”. Não é de todo estranho que nossas literaturas se encontrem em mais de um caminho.

Para além da narrativa textual de Mãe Sereia, o projeto gráfico do livro é lindíssimo. Pensou em desenvolver um projeto parecido para uma reedição de seus outros dois livros?
Sim. Na verdade eu gostaria de realizar outro projeto de livro-álbum. Embora não com livros já impressos, mas com outros textos inéditos. Foi muito bom trabalhar com a Vanina Starkoff. Não descarto que, no futuro, possamos trabalhar juntas. Ou com o Rubem Filho, com quem trabalhei em Contos de Olófi [Editora Lê, 2017], ou outro ilustrador brasileiro.

‘De Cuba, apoio as lutas das negras brasileiras contra o racismo e a violência. São também as minhas lutas’

Quais são seus próximos projetos literários a serem lançados no Brasil?
Tenho um projeto com o qual estou muito empolgada. Um novo livro que  é intitulado Awón Baba, que em iorubá significa “ancestrais”. Sairá pela editora Pallas. É uma série de histórias cujos protagonistas eram homens e mulheres que viveram na escravidão e sobreviveram a ela. É uma mistura de realidade histórica e ficção, quase beirando a magia e o terror. Será meu sexto livro publicado no Brasil, e estou muito feliz que mais um sonho esteja se realizando.

Quem escreveu esse texto

Munah Malek

É socióloga e mestre em história.

Matéria publicada na edição impressa #63 em outubro de 2022.