A escritora e editora Toni Morrison. Nova York, 2009 (Timothy Fadek/Corbis via Getty Images)

Literatura, Literatura Negra,

Toni, polivalente

Lançamentos trazem a última entrevista e a faceta de editora da primeira mulher negra a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura

01nov2026 • Atualizado em: 29out2026 | Edição #111

É o seu primeiro dia em um programa de pós-graduação. Ao seu lado, colegas que estudam os sentidos políticos da literatura, investigam os novos cenários da área, debruçam-se sobre a crítica e a teoria. Eis que a professora da única disciplina obrigatória entra em sala. Era esperado que ela falasse de Benjamin, Foucault e Barthes. Contudo, ela oferece Diop, Fanon e Oyěwùmí. Não é a base teórica que a turma esperava. Você resmunga que não há nada de universal na ementa — nisso, as duas partes concordam. É fácil imaginar Toni Morrison fazendo experimentos parecidos ao lecionar.

Primeira mulher negra a ganhar o Nobel de literatura, em 1993, Morrison foi uma das poucas pessoas capazes de exercer, de forma igualmente competente, a docência universitária, a escrita literária e a edição de livros. E assim o fazia por não ter medo de se arriscar. Em sala de aula, a escritora parecia rejeitar métodos que partiam única e exclusivamente de sistemas de valores brancos e concebiam os valores negros como um reflexo deles. Ela se desafiava então a descentralizar o olhar ao “começar com um sistema negro e ver como os textos se conectam com ele ou o rejeitam”, contou, em 1986, numa das conversas que integram o volume Toni Morrison: a última entrevista e outras conversas.

Da mesma forma, sua escrita recusava o endereçamento ao público branco estadunidense e não se dobrava à pressão, por parte do movimento negro, de criar representações negras positivas. Ela buscava o específico, o imperfeito, a inteireza do ser. Como editora da Random House, os livros que contratava tampouco respondiam às demandas do mercado editorial, mas às de autenticidade estética. “Muitas das obras que ajudou a publicar tornaram-se um espelho da época — captando as nuances de suas complexidades e respondendo às suas exigências”, escreve Dana A. Williams em Toni Morrison, editora.

As conversas oferecem um voo sobre a vida e a obra de Morrison a partir de sua própria voz

Os dois livros centrados na escritora afro-estadunidense chegam de forma quase simultânea ao público brasileiro. São obras complementares, que podem se repetir em algumas partes, mas não se anulam.

A última entrevista oferece um voo sobre a vida e a obra de Morrison a partir de sua própria voz. O compilado reúne desde a primeira conversa, publicada em 1973, até a derradeira, em 2018. Surpreendentemente, não é a ficção de Morrison que motiva a Publishers Weekly a procurá-la, mas sua atuação como editora. Já no título, a reportagem salienta que o recém-lançado The Black Book, ambicioso projeto editorial sobre história afro-estadunidense, era fruto de um compromisso pessoal de Morrison.

Se A última entrevista oferece a textura do pensamento e da criação artística da escritora — evidenciando suas inquietações e influências —, Toni Morrison, editora revela a tessitura de sua carreira profissional, entrecruzando­-se os eixos acadêmico, literário e editorial. Dana A. Williams compõe o retrato de uma mulher obstinada, de sensibilidade e insolência raras, a um só tempo incapturável e profundamente comprometida.

Gênio próprio

Nascida Chloe Ardelia Wofford em 1931, Toni Morrison é fruto de convergências da Era Jim Crow e da Grande Depressão. Seus pais, George Wofford e Ramah Willis Wofford, estavam entre os milhões de pessoas que, para fugir da violência racial, deixaram o Sul dos Estados Unidos — o pai veio da Geórgia, e a mãe, do Alabama. Em Ohio, onde Morrison nasceu, George trabalhava como soldador e Ramah, como dona de casa, fazendo pequenos serviços para fora quando a situação exigia, o que ocorria com frequência.

Segunda dos quatro filhos do casal, Toni Morrison tinha gênio próprio e a família permitia a ela certas liberdades. Ninguém se opôs à decisão dela de se converter ao catolicismo e a adotar Anthony (em homenagem a santo Antônio) como nome de batismo, embora a mãe fosse membro fiel da Igreja Episcopal Metodista Africana do bairro. Mas foi a performance excepcional na escola que acendeu um alerta na família: seria preciso cultivar um pequeno fundo universitário. George conseguiu um segundo emprego, Ramah passou a fazer mais serviços para fora, e até a jovem, que fazia bicos desde os doze anos, arranjou um emprego na biblioteca pública da cidade.

Morrison foi aluna da Universidade Howard de 1949 a 1953, período em que assumiu o apelido de Toni, supostamente em resposta a repetidas pronúncias equivocadas de seu nome de registro. Graduou-se em língua inglesa e escolheu como área principal a literatura estadunidense. “Talvez você não saiba, mas nos anos 1950 a literatura nos EUA era nova. Era renegada”, rememorou em 2012. “A literatura inglesa era inglesa.”

Deu continuidade aos estudos na Universidade Cornell, tornando-se mestre em inglês. Sua dissertação, apresentada em 1955, versava sobre o suicídio na obra de William Faulkner e na de Virginia Woolf. Morrison lembra ter tentado desenvolver um trabalho em torno de personagens negros em Shakespeare, mas tudo que remetesse a questões étnico-raciais dentro da literatura parecia um assunto menor para a academia da época, inclusive em universidades negras como a Howard.

Com o diploma de mestre, iniciou a carreira como professora. Lecionou na Universidade do Sul do Texas entre 1955 e 1957, até retornar à sua alma mater, dessa vez como docente. Casou-se com o arquiteto jamaicano Harold Morrison, com quem teve dois filhos. Enquanto se esforçava para não ser dominada pelo casamento decadente (o divórcio viria em 1964), começou a escrever o que se tornaria a sua estreia literária: O olho mais azul.

Efervescência

Reza a lenda que, em 1965, Morrison recebeu três exemplares da mesma edição da New York Review of Books com um anúncio da L. W. Singer procurando um editor-executivo. O erro do departamento de assinaturas da revista não podia ser coincidência, insistia Ramah. Toni devia se candidatar. Ao conseguir o emprego, cuidou de livros didáticos até pelo menos 1967, quando a editora foi incorporada pela Random House e Morrison se mudou para Nova York. O contexto social era de efervescência nos Estados Unidos: os anos 50 e 60 foram marcados pelo movimento por direitos civis — em 1964 foi promulgada a lei que proíbe a discriminação racial. Era preciso registrar essa agitação. E Morrison tomou para si a responsabilidade de publicar as vozes, os livros e as ideias dos estadunidenses negros.

Contemporary African Literature foi o primeiro título que ela editou. O interesse em publicar uma antologia africana surgiu durante visitas à Africa House. O centro cultural nova­-iorquino a introduziu na literatura que, a seu ver, era “livre da necessidade de responder ao racismo”: embora o fardo do colonialismo persistisse, os escritores africanos pareciam falar a outras pessoas negras, e não a colonialistas brancos. Isso a encantou.

Morrison convidou os pesquisadores Edris Makward e Leslie Alexander Lacy para organizar a coletânea que se tornaria um dos primeiros materiais didáticos sobre o tema. A antologia era tão voltada para impulsos filosóficos quanto para o caráter artístico, com o objetivo de se descolar da romantização da África, reduzir a ignorância sobre o continente e sobre sua literatura e eliminar o medo que os estadunidenses associavam às coisas remotas. O livro foi lançado em 1972, reunindo a produção de artistas de países como Angola, Congo, Gâmbia, Gana, Madagascar, Malawi, Mali, Nigéria, Senegal e Serra Leoa.

A biografia compõe o retrato de uma mulher obstinada, de sensibilidade e insolência raras

Delineava-se, assim, o projeto de publicar, sempre que possível, livros que pudessem enriquecer a paisagem cultural enquanto abordavam questões sociais importantes. Ela assumiu o risco de publicar vozes consideradas marginais à época, ao passo que desafiava a Random House a permanecer fiel ao legado de priorizar o caráter artístico e a qualidade literária em detrimento de tendências de mercado. Os motivos puramente financeiros podiam estar na programação da empresa, mas não estariam na de Morrison. Anos depois, em 1975, ela ajudaria a publicar uma segunda antologia internacional que impactou o mercado, Giant Talk, com mais de 150 escritores não brancos do então chamado Terceiro Mundo.

O mais audacioso de seus projetos certamente foi The Black Book. A espécie de memorabilia do povo afro­-estadunidense foi capaz de mostrar por que ser negro naquele país representava “a existência mais explosiva possível”. É um livro de recortes coletivo que reúne todo tipo de artigo colecionável, desde fotografias antigas até patentes de invenções, de material cinematográfico a cartazes publicitários, de receitas a remédios. Nas palavras de Morrison, é “o tipo de registro que alguém poderia guardar em um baú, se tivesse vivido desde os dias anteriores à Passagem do Meio até pouco antes da Segunda Guerra Mundial”.

Não havia nada parecido no mercado que respaldasse seu ímpeto. Fora isso, vender um título sem um autor claramente identificável representava um desafio enorme. O livro foi adiado por meses até chegar finalmente ao público leitor em 1974, meses após o lançamento de Sula, o segundo romance de Morrison. Felizmente, Sula estava recebendo considerável atenção, o que a motivou a promover The Black Book em seus próprios eventos.

Toni Morrison em 1993 (Sueddeutsche Zeitung/Alamy Stock/Divulgação)

“Grande parte da historia norte­-americana é a história dos negros”, escreveu Morrison em artigo sobre o livro no New York Times. A escritora-editora argumentava que a história econômica do país era indissociável do trabalho escravizado e até a história jurídica estava ligada, em grande parte, aos esforços para restringir os negros.

Se em 2019 o lançamento de 1619, podcast do jornal apresentado por Nikole Hannah-Jones, parecia revolucionário, imagine o que era ler The Black Book em 1974. O livro superou as expectativas de Morrison, alcançando o nono lugar na lista de mais vendidos do New York Times e sendo indicado ao National Book Award e ao prêmio Carey-Thomas, da Publishers Weekly. Para Dana A. Williams, a obra “tratava com habilidade a ironia de precisar atrair leitores brancos e, ao mesmo tempo, manter deles distância suficiente para preservar a privacidade negra”.

Ela já havia publicado de tudo um pouco quando contratou Uma autobiografia, de Angela Davis. Era inevitável que as editoras oferecessem propostas de livros, mas nenhuma pareceu animar mais a ativista que a de Toni Morrison: uma narrativa que desafiasse o gênero autobiográfico, que fosse a um só tempo sobre um movimento e sobre a vida de uma única pessoa. Entretanto, muitos insistiam que Davis, à época com 28 anos, deveria esmiuçar a trajetória pessoal, com muito menos política e mais cenas de sexo e drogas — exatamente o oposto do que ela estava disposta a oferecer.

Na Random House, assumiu o risco de publicar vozes consideradas marginais à época

“Acredite em mim, ela é uma pessoa quase totalmente política”, rebateu Morrison ao receber críticas sobre o manuscrito em andamento. “Não existem duas Angelas Davis. Uma política e outra humana. São uma só e a mesma coisa. Ela não guarda sua política numa gaveta.” A editora se enfurecia com a leitura equivocada que faziam de Davis e a atribuía ao fato de a ativista não corresponder aos padrões de feminilidade. “Como seria bom se Angela fosse realmente Jane Fonda e não Joana d’Arc”, ironizou.

No campo da ficção literária, Morrison reinava. Passaram por suas mãos escritores como Toni Cade Bambara, Leon Forrest, Henry Dumas, Gayl Jones e Wesley Brown. Cada capítulo dedicado a esses autores é uma verdadeira aula sobre edição e criação literária. De forma franca, com ricos conselhos e observações, a editora expunha sua opinião sobre os manuscritos: “A atividade sexual não exerce na literatura a mesma função que exerce na vida”, escreveu Morrison. “Na literatura, ela precisa revelar alguma coisa. Caso contrário, corre o risco de ser apenas excitante ou, no pior dos casos, entediante.” As coisas que os escritores mais resistiam a contar costumavam ser justamente aquelas sobre as quais precisavam escrever, disse ela a Wesley Brown. Da mesma forma, argumentava, grande parte da escrita acontecia quando os autores avançavam em direção a uma dor histórica que também era pessoal, mesmo quando isso lhes causava sofrimento.

As entrevistas que realmente indagam sobre a arte literária são igualmente recompensadoras. “Qualquer um que se propõe a escrever um romance universal não escreveu nada”, sentenciou em 1986. “Paradoxalmente, o que acontece é que quanto mais específica você é, quanto mais especificidade há na escrita, mais acessível ela é. Tolstói não estava escrevendo para meninas negras em Ohio.” Em outro momento, uma conversa de 2004, ela aconselha os escritores a mergulhar na narrativa de forma a realmente imaginar o que os personagem sentem: “No processo de escrita, simplesmente não é autêntico nem legítimo olhar para isso de fora. Sabe, eu sempre digo aos meus alunos: não é um pai negro — é o seu pai”.

Doce amargo

É, entretanto, agridoce a experiência de ler Toni Morrison, editora e A última entrevista, sobretudo no que concerne à passagem pela Random House. Muitos dos bastidores a que temos acesso na leitura tratam de obras que não estão traduzidas para o português, como They Came Before Columbus, na qual Ivan Van Sertima prova que navegadores africanos mantiveram contato com povos das Américas séculos antes da chegada do colonizador europeu. Lançado em 1976, o livro foi um chacoalhão na academia estadunidense. E mais uma vez Morrison provou que sucesso comercial e relevância cultural podiam coexistir.

Morrison retornou à Universidade Howard em 1976 para participar de uma conferência e discursar sobre os desafios do mercado editorial. A sobrevivência da escrita e da publicação negras, em sua opinião, dependeria da força vital de todo o universo afrodiaspórico: “a energia das pessoas negras — a mera energia, a inventividade e a inovação, a tenacidade, a capacidade de se aguentar e um desdém por aquelas instituições e agências monolíticas e imensas que nos obstruem”, disse à plateia. “Em outras palavras, devemos fazer nosso trabalho.”

A escritora deixou a Random House em 1983, após pedir demissão. Sentou­-se na varanda de casa e teve um sentimento estranho, algo que não sabia nomear. “Eu estava realmente feliz. O que significava que eu não estava feliz até então”, relembrou em 2018, na última entrevista que concedeu. Ao ser perguntada se ainda tinha motivos para estar feliz, a escritora, então com 87 anos, foi certeira: “Sim. Vivi uma vida longa. Isso é bom”.

Quem escreveu esse texto

Yasmin Santos

Jornalista e editora, é autora de Conceição Evaristo: voz insubmissa (Rosa dos Tempos).

Matéria publicada na edição impressa #111 em novembro de 2026. Com o título “Toni, polivalente”

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