Repertório 451 MHz,
O Brasil pós-eleição
Bianca Tavolari e Conrado Hübner Mendes discutem o recado das ruas no 2º turno, o golpismo ainda atuante e o despertar das novas gerações para a defesa da democracia
30out2026Está no ar o 219º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição recebe a professora Bianca Tavolari, especialista em políticas urbanas e colunista da Quatro Cinco Um, e o professor de direito e escritor Conrado Hübner Mendes, um dos principais analistas dos abusos no Judiciário e do autoritarismo no país. Depois da eletrizante disputa eleitoral que terminou com a reeleição do presidente Lula para o quarto mandato, eles falam sobre o que podemos esperar dos próximos capítulos.
Os convidados discutem a virada, que também aconteceu nas manifestações de rua, as armadilhas do golpismo ainda atuante e o despertar dos jovens para a política e para a defesa da democracia. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.
Professora da Fundação Getulio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Bianca Tavolari é uma das principais vozes do país no debate sobre as relações sociais e culturais que envolvem as cidades brasileiras. Na Quatro Cinco Um, assina a seção A Cidade e as Coisas.

Já Conrado Hübner Mendes é professor de direito da USP e cofundador do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (LAUT), que tem uma editoria especial na revista dos livros.
Mais Lidas
Também colunista do jornal Folha de S.Paulo, é autor de O discreto charme da magistocracia: vícios e disfarces do Judiciário brasileiro (Todavia, 2023) e coautor de O caminho da autocracia: estratégias atuais de erosão democrática, publicado no mesmo ano pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um. É ainda um dos organizadores da coletânea Como desarmar o autoritarismo no Brasil: uma agenda para a desradicalização, que saiu em 2026 por esta editora.
Povo na rua
Tavolari afirma no episódio que a força das manifestações de rua a partir do segundo turno, lideradas principalmente pelos movimentos estudantis e fandoms, estimulou a atuação política nas redes sociais. “A primeira coisa que a rua mostra é que é muito importante você se sentir parte de um grupo e ver que as pessoas que pensam como você, ou querem um projeto de país próximo do seu, são muitas.” Outra dimensão apontada é o contato mais próximo para falar sobre política, não só em atos, mas no cotidiano — inclusive no transporte público, praças e calçadas.

A professora avalia que esses espaços se tornaram ainda mais simbólicos quando, no domingo (25), dia da eleição, surgiram relatos em cidades como Salvador e São Paulo de que pessoas estavam sendo impedidas de votar devido à falta de ônibus. O controle da mobilidade urbana, ela lembra, foi usado para atrapalhar o exercício de um direito. Para Tavolari, isso é mais um componente ligado à necessidade de que o quarto governo de Lula seja mais ousado na defesa de propostas progressistas, como a do passe livre nos fins de semana em todo o país.
Outras interferências
Ao comentar a influência da crise do Supremo Tribunal Federal (STF) no processo eleitoral e a turbulência causada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cujas decisões levantaram suspeitas sobre a isonomia nos julgamentos, Hübner Mendes diz que o caminho é reafirmar a importância das instituições para a democracia sem deixar de denunciar a conduta dos ministros envolvidos com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

Para o professor, o julgamento da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 é juridicamente incontestável, mas a fragilização dos tribunais é uma ameaça ao Estado democrático.
“A gente entra neste novo cenário, pós-eleições, com essas cortes absolutamente fraturadas”, afirma. “Se o Flávio [Bolsonaro] tivesse ganho, essa corte [STF] estaria, na minha opinião, absolutamente capturada e incapaz de fazer qualquer coisa.” Sobre sua expectativa em relação ao novo governo, Hübner Mendes diz esperar que Lula “jogue com mais competência com o Congresso” para contribuir na transformação do Judiciário em geral.
Encontros geracionais
Os convidados relatam que observaram entre seus alunos, de diferentes classes e círculos sociais, uma grande preocupação com o futuro do país. A atuação dos mais jovens, criando frentes de engajamento e propondo diálogo com eleitores indecisos, também incluiu a mobilização junto aos idosos — decisivos para os mais de dez milhões de votos que Lula ganhou no segundo turno.
“Teve uma coisa de polos geracionais se encontrando para dizer: ‘precisa de todo mundo!’”, diz Tavolari.

Segundo Hübner Mendes, encontros entre estudantes de diferentes posicionamentos políticos e organizações da sociedade civil também foram importantes. O professor observa que assegurar a liberdade acadêmica e repudiar ataques às universidades por, enganosamente, produzirem apenas militância política de esquerda — como disseminado nos círculos da extrema direita — é vital para a democracia.
“A censura tem um mecanismo sutil, que é incentivar o medo — e o medo silencia”, diz. Ele acrescenta que enfrentar o autoritarismo exige olhar não apenas para indivíduos radicalizados, mas também para as estruturas e instituições que favorecem práticas autoritárias.
Desafios à democracia
Se, por um lado, o autoritarismo pode enfraquecer as instituições por dentro, utilizando mecanismos formalmente legais, por outro, o golpismo ainda se manifesta de maneira explícita — pela segunda eleição seguida, o candidato derrotado não reconheceu o resultado das urnas e busca descredibilizar o processo eleitoral a partir do exterior. Tavolari e Hübner Mendes lembram que isso é mais um indicativo de que a vitória de Lula não significa o fim dos desafios à democracia brasileira.
Além de mobilizar a sociedade com pautas que enfrentam as desigualdades e permanecer vigilante diante das ameaças autoritárias, é necessário que o novo governo reconstrua o diálogo público e faça com que as instituições respondam às demandas sociais.
Livro Marcador
No quadro sobre livros marcantes na vida de escritores e personalidades das artes e da cultura, o episódio traz a sugestão da artista visual Verena Smit. Autora do recém-lançado Entre a palavra e a imagem (WMF Martins Fontes), em que revisita a sua última década de produção, ela recomenda Viva vaia, de Augusto de Campos, publicado originalmente em 1979 e reeditado pela Ateliê Editorial em 2023.

“Meu professor de teoria da comunicação e cinema na FAAP que me mostrou. Na época eu já escrevia, mas não sabia o que era poesia concreta — eu não conhecia Décio Pignatari, os irmãos Campos, nada. Foi um livro que abriu a minha cabeça, me mostrou uma possibilidade muito grande de como trabalhar a palavra, como existe um universo dentro da palavra, seja ela escrita, desconstruída, frases. Eu tenho ele, está todo capenga, porque realmente é um livro de referência e ditou um pouco o que meu trabalho é hoje”, diz.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
Porque você leu Repertório 451 MHz
Como se faz um golpe
Heloisa Starling fala sobre os ingredientes e articulações que levaram ao golpe de 1964 e os ecos do golpismo na política brasileira atual
OUTUBRO, 2026
