A escritora portuguesa Lídia Jorge (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

Prêmios literários,

Lídia Jorge vence o Prêmio Camões 2026

Escritora portuguesa, que esteve n’A Feira do Livro em 2025, foi reconhecida por enriquecer o patrimônio literário e cívico-cultural da língua portuguesa

03jul2026

A escritora portuguesa Lídia Jorge venceu a edição de 2026 do Prêmio Camões, a mais importante premiação literária do mundo lusófono. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (2), após decisão dos jurados. Conhecida por romances poéticos e densos, a autora, que completou 80 anos em 18 de junho, explora em sua obra o passado ditatorial do país, as transformações na sociedade e os conflitos entre gerações, com foco na condição das mulheres e na memória coletiva.

Nascida em 1946 no Algarve, no sul de Portugal, Lídia Jorge partiu em 1970 para Angola e Moçambique, onde viveu os mais conturbados anos da guerra colonial. No regresso a Lisboa, publicou em 1979 o seu primeiro romance, O dia dos prodígios. Desde então, sua obra composta por romances, contos e ensaios acumulou reconhecimentos e prêmios. 

No Brasil, publicou pela Autêntica Contemporânea os romances Misericórdia (2024), narrado a partir da perspectiva da mãe da autora, morta em decorrência da covid-19, e Diante da manta do soldado (2025), lançado durante sua participação n’A Feira do Livro 2025. No festival literário, a escritora emocionou o público ao lembrar da perda da mãe e definir Misericórdia como “uma espécie de triunfo sobre a morte”. Ela também participou de um debate sobre a emergência da extrema direita e o passado colonial de Portugal, ao lado do compositor e poeta cabo-verdiano Mário Lucio Sousa e do historiador português Fernando Rosas. 

Lídia Jorge n’A Feira do Livro 2025 (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

“O diversificado conjunto da obra de Lídia Jorge contribui para enriquecer o patrimônio literário e cívico-cultural da língua portuguesa, trazendo experiências do último período da guerra colonial”, diz trecho do comunicado divulgado pelo júri do prêmio, que ainda destaca o romance A costa dos murmúrios (1988) como “um marco importante na sua obra, uma vez que destaca a sua experiência de vida em Moçambique e desconstrói as versões da guerra colonial sob a perspectiva de uma mulher”.

Criado em 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil, o Camões é dado anualmente a um autor que tenha contribuído para o enriquecimento cultural da língua portuguesa. O prêmio é concedido pela Fundação Biblioteca Nacional, vinculada ao Ministério da Cultura, e pelo governo português, com uma premiação de 100 mil euros.

Na edição de 2026, os jurados foram o professor José Carlos Seabra Pereira, da Universidade de Coimbra; a poeta e ensaísta Ana Mafalda Leite, professora da Universidade de Lisboa; a pesquisadora e professora da PUC-SP Lucia Santaella; o jornalista e historiador José Ribamar Bessa Freire, professor aposentado da UNIRIO e da Uerj; o escritor e crítico literário angolano Lopito Feijó e a escritora, poeta e pesquisadora guineense Odete Semedo.

Obra literária

Dedicado à mãe, Maria dos Remédios, que inspirou a protagonista Maria Alberta, Misericórdia colecionou prêmios desde sua publicação original, em 2022, pela editora portuguesa Dom Quixote. O romance foi resenhado pela escritora Silvana Tavano na edição #85 da Quatro Cinco Um, de setembro de 2024.

(Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

“Entremeando o riquíssimo universo interior da narradora aos acontecimentos de um mundo pré-pandemia, Jorge retrata a velhice de forma surpreendente, com personagens complexas que convivem com os limites do corpo e a proximidade da morte sem ceder ao desencanto e à amargura”, escreveu Tavano. Leia na íntegra.

Antes de Misericórdia, a autora também publicou os romances Cais das merendas (1982), Notícia da cidade silvestre (1884), A última dona (1992), O jardim sem limites (1995) e O vento assobiando nas gruas (2002), entre outros.

A Feira do Livro

N’A Feira do Livro de 2025, Lídia Jorge também falou de seu romance Diante da manta do soldado. Ela disse que o livro, publicado em Portugal em 1998 como O vale da paixão, chegou ao Brasil com o título originalmente pretendido pela autora, que narra a decadência de uma família portuguesa ao longo do século 20, com ecos da guerra colonial na África.

A conversa ainda rendeu conselhos para quem busca se aventurar na escrita. “Para quem quer escrever, procure o triunfo que tem a dar sobre o mundo”, declarou Jorge. “Será que estão de acordo comigo?”, perguntou a portuguesa em meio às palmas efusivas do público.

Mesa 50 anos de liberdade (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

Já no encontro sobre o passado colonial de Portugal, a escritora defendeu que se deve olhar de forma crítica para esse período do país, ainda que isso possa causar incômodos no presente. “Os dias atuais mostram que vale a pena mexer nessa ferida que dói, voltar na história e perceber que há elementos de continuidade, que a história é ondulatória”, disse.

“Tudo que está acontecendo hoje [em relação à ascensão da extrema direita] não é uma interpretação subjetiva, é resultado concreto da realidade dos fatos. Várias regiões do globo querem de novo ser donos do mundo e até Portugal quer voltar a ser grande, inclusive voltar a esse passado colonial.”