Literatura,

Milan Kundera, autor de ‘A insustentável leveza do ser’, morre aos 94 anos

Atuante na Primavera de Praga, Kundera ganhou notoriedade por romances que examinam as crenças humanas, relacionamentos, sexo e o mais íntimo do indivíduo

13jul2023 | Edição #71

O escritor tcheco Milan Kundera, autor do best-seller A insustentável leveza do ser (1984), morreu nesta terça (11), aos 94 anos, em Paris. O anúncio da morte foi feito nesta quarta (12), pela Biblioteca Milan Kundera, que acomoda a coleção pessoal do autor em Brno, sua cidade natal. Segundo Anna Mrazova, porta-voz da Biblioteca, o escritor morreu em consequência de uma longa doença.

Nascido em 1929 e filiado ao Partido Comunista tcheco desde a adolescência, Kundera foi um dos intelectuais reformistas da Primavera de Praga, tentativa de liberalização política da então Tchecoslováquia, sufocada pela URSS em 1968. Crítico da invasão soviética no país, Kundera foi condenado ao ostracismo.

Depois de ter emigrado para a França, em 1975, e reconhecido como cidadão francês em 1981, Kundera lança, em 1984, aquela que viria a ser sua obra mais conhecida, A insustentável leveza do ser. O romance narra a formação de um triângulo amoroso durante a Primavera de Praga e sua sobrevivência precária nos anos seguintes à invasão. Fenômeno literário internacional, seus livros foram proibidos na Tchecoslováquia depois da privação de sua cidadania em 1978, e só voltaram a ser publicados na língua materna do escritor na década de 90.

Mesmo depois da Revolução de Veludo, que depôs o governo comunista na Tchecoslováquia, a dissolução da URSS, a criação da República Tcheca e a recuperação da nacionalidade em 2019, Kundera não voltou a viver no país natal. Em entrevista ao semanário alemão Die Zeit, declarou que “não existe esse sonho de retorno. Levei minha Praga comigo — o cheiro, o sabor, a língua, a paisagem, a cultura.”

Escrito em 1967, seu livro de estreia, A brincadeira, foi inspirado no incidente real que o fez ser expulso do Partido Comunista em 1950. Em Risíveis amores (1969), o autor dá espaço a contos que retomam suas ilusões políticas acerca do ativismo comunista de sua geração. A partir dos romances que se debruçam sobre os mistérios do indíviduo, suas crenças, relacionamentos, sexo e o mais íntimo em cada ser, a literatura do eterno candidato ao prêmio Nobel o estabelece como um retratista provocador das condições humanas.

No célebre A insustentável, transformado em filme pelo diretor Philip Kaufman em 1988 e estrelado por Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche, Kundera afirmou que “a vida humana acontece só uma vez, e não poderemos jamais verificar qual seria a boa ou a má decisão, porque, em todas as situações, só podemos decidir uma vez. Não nos são dadas uma primeira, segunda, terceira ou quarta chance para que possamos comparar decisões diferentes.”

No Brasil, sua obra é publicada pela Companhia das Letras desde 1999.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #71 em maio de 2023.