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Transcrição: Ayelén Medail no podcast 451 MHz
A tradutora e pesquisadora conversa com a colunista Bruna Beber sobre a literatura da autora uruguaia Cristina Peri Rossi
02jul2026 • Atualizado em: 06jul2026Nesta edição, a poeta Bruna Beber, colunista do podcast, conversa com a pesquisadora e tradutora Ayelén Medail sobre a grande autora uruguaia Cristina Peri Rossi, que acaba de ter sua obra poética publicada pela primeira vez no Brasil. Ouça a seguir e saiba mais aqui.
Leia a transcrição:
Paulo Werneck [PW]:
Oi! Está começando o episódio 165 do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Toda sexta-feira a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.
Ayelén Medail [AM]:
Nesse livro, especificamente nesta antologia que a gente trouxe, a gente quis também mostrar essa Cristina do amor, né? Essa Cristina que é irônica, essa Cristina que é afiada, mas essa Cristina que sente muito o amor também. E amor pela própria vida, amor pela história, amor por existir, né? Por viver. Que não deixa de ser um desejo, né?
PW:
Essa voz que você acabou de ouvir é da Ayelén Medail. Eu já vou te falar mais sobre ela, mas antes eu preciso te avisar que esse episódio é realizado com o apoio da Lei Rouanet e da Editora Record.
PW:
A Ayelén é argentina e mora no Brasil desde 2012. Ela faz doutorado em letras na USP. Além de pesquisadora, ela é professora de espanhol, editora e tradutora. Bom, no episódio de hoje aqui do 451 MHz, a Ayelén veio falar da grande autora uruguaia Cristina Peri Rossi, que é uma das principais escritoras em língua espanhola dos nossos tempos. A Cristina, que no próximo dia doze de novembro vai completar 84 anos, tem mais de quarenta livros publicados e já ganhou vários prêmios, entre eles o Cervantes, que é a principal premiação das letras hispânicas lá em 2021.
Ela já foi escritora e tradutora, foi traduzida em mais de vinte idiomas, mas só agora em 2025, finalmente os leitores brasileiros começaram a descobrir mais a obra da Cristina graças a uma nova safra de traduções. Um desses novos livros é a antologia poética Nossa vingança é o amor, que foi publicada pela Editora 34 nesse ano, com tradução justamente da nossa convidada de hoje, a Ayelén Medail, junto com o editor Cide Piquet. Cide Piquet, que é um dos responsáveis pelo prelo da Editora 34, que é uma das melhores editoras de literatura e poesia da atualidade. O Cide e a Ayelén, aliás, foram responsáveis também pela seleção desses 150 poemas que eles traduziram aqui para o português do Brasil.
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Além dessa antologia, também chegou às nossas livrarias nesse ano o romance mais recente da Cristina, chamado A insubmissa, que foi publicado originalmente em 2020 em espanhol. A versão brasileira saiu pela Bazar do Tempo com tradução da Anita Rivera Guerra. A Cristina Peri Rossi veio parar aqui no 451 MHz por sugestão da nossa colunista mensal, a poeta Bruna Beber. Ela também tem muito a falar sobre a autora uruguaia e, por isso, participa do nosso bate-papo de hoje.
Bruna Beber [BB]:
Hoje eu estou aqui com a Ayelén Medail, que é uma das tradutoras da Cristina Peri Rossi no Brasil. Ela dividiu a tradução do livro Nossa vingança é o amor com o Cide Piquet, que também é poeta, tradutor e editor da Editora 34. O livro saiu em maio desse ano. Ayelén, para começar, eu li o seu posfácio e eu sei que a poesia da Cristina Peri Rossi acompanha a sua vida desde sempre. Você é argentina, mora há algum tempo no Brasil, é pesquisadora também. Você também estuda escritoras hispano-americanas e feministas. E eu queria saber como a Cristina entrou na sua vida.
AM:
A Cristina entra pela porta principal de uma adolescente, que é a escola. Porque quando eu estava no ensino médio, a gente teve que… Eu já tinha lido os contos dela. Lemos um conto, eu lembro, quando eu tinha treze anos, também na escola, escola pública, que é o “Museo de los esfuerzos inútiles”, sensacional, um conto muito bom. E aí eu já era um pouco curiosa, gostei dela e estava numa época de curiosidade pela ditadura militar e tinha acabado de ler um livro da Las locas de la Plaza de Mayo, que minha mãe tinha me emprestado. E aí eu soube que ela tinha aquele La nave de los locos, que fala um pouco da ditadura também. Aí esse foi o meu segundo livro, romance.
E depois, quando eu já estava nos últimos anos do ensino médio, que eu me aproximei da poesia, por conta de um trabalho, que foi a mulher na literatura, especificamente na poesia, que a gente teve que fazer. E aí eu me deparei com a Cristina poeta, que eu não sabia. Essas coisas que sempre tem na literatura, a poesia fica sempre em segundo plano, que não é muito o que vende. A gente que veio reverter um pouco isso, que a Cristina agora com sua poesia, está revolucionando o Brasil. Mas foi aí, pesquisando, que eu conheci Safo, porque fui ver quem que foi a primeira mulher literata, Safo de Lesbos.
E aí, buscando Safo de Lesbos, eu era amiga do bibliotecário, um senhor, ele me falou: “você conhece a Cristina Peri Rossi? Porque ela tem um livro…” E me mostrou o primeiro livro dela. Aí eu levei para casa e comecei a ler. Porque o primeiro livro dela, Evohé, ele começa com Safo, começa com um epígrafe de Safo. “Outra vez, Eros, que desata os membros, me tortura, doce e amargo, monstro, invencível.” Ele… Bom, a Safo me pegou de alguma forma, e aí eu fui atrás da Cristina e depois eu comprei três livros. Evohé, que tirei da biblioteca, depois consegui comprar. E… Estrategias del deseo. E mais um que eu não lembro, que foram livros que eu levei para todas as viagens que fiz, todas as mudanças de países, de cidades, e tudo. E aí… Isso foi como a Cristina entrou na minha vida. Nunca saiu. Ela entrou pela porta principal, pela escola mesmo.
BB:
Nossa, é algo tão maravilhoso quando entra pela escola, quando entra pela biblioteca da escola. Você comentou sobre os contos terem chegado primeiro à sua vida. E… Em geral, a poesia, ela, de fato, entra por último, mas ela tem um poder devastadoramente transformador, né? Então, é tão difícil a gente entrar, conhecer a obra de uma escritora que a gente já gostava — e a obra poética dela, uma obra poética como a da Cristina — e não sair arrebatada. Eu entendo perfeitamente o estrago, no bom sentido, que ela está causando nas leitoras e nos leitores do Brasil. Eu mesma tinha lido coisas em espanhol, muitos esparsas, mas quando eu vi que o livro estava saindo… E uma compilação de peso, né? Que passa pela grande maioria ou por todos os livros?
AM:
Todos os livros.
BB:
Por todos os livros, né? Começa no Evohé, de 1971, e no Fata Morgana, que é do ano passado, 2024. E como que foi a ideia, então, depois de conviver tanto, de ter essa companheira de vida e de viagem que agora vocês trazem para a gente, como foi, então, que surgiu a ideia de lançar a poesia da Cristina no Brasil?
AM:
Então, eu já vinha traduzindo, me tornei tradutora, nunca foi o meu primeiro projeto de vida, talvez, mas quando eu me tornei tradutora, eu comecei a traduzir coisas da minha vida, coisas que faziam parte de mim. Aí foi que eu traduzi a Alfonsina Storni, que tem algumas coisas publicadas, a Gabriela [Mistral], agora estou trabalhando na Juana de Ibarbourou, que é a poeta uruguaia que a Cristina mais gosta, né? E aí eu comecei com essa tradução, a fazer traduções para mim e apostar depois de fazer um curso formativo na Casa Guilherme da Almeida. E eu já tinha uns poemas dela, que eu tinha soltado, acho que tinha saído na Mallarmargens, se não me engano, mas depois caiu o site. E aí o Cide me chamou para fazer um sarau, um sarau político, foi no Instituto Goethe, aqui em São Paulo, isso foi em 2022, se não me engano.
Aí, eu li o que eu considero meu hit, e o hit da Cristina, que é Onze de setembro, que é um poema que não tem como você sair ileso. Eu li esse poema, porque era um sarau político, e o Cide pirou, né? Aí ele veio me falar que ele já conhecia por uma matéria que tinha saído na Piauí, se não estiver enganada,da Anita, que falava sobre uma antologia da Cristina, aquela que saiu Detente, instante, eres tan bello, uma antologia que saiu depois de muito tempo… Isso é muito interessante, né? Não dava para encontrar os livros [da Cristina], assim, simplesmente, facilmente. Eu viajo bastante, tanto para a Argentina como para o Uruguai, e sempre buscava, buscava, buscava, e não era fácil. Eu encontrava em alguns sebos, né? Edições antigas. E aí, é com essa antologia de Detente, instante, eres tan bello, e depois do Prêmio Cervantes, que ela volta a ser reeditada. Aí o Cide me falou que tinha conhecido por conta dessa antologia, e fui atrás, buscou alguns livros que encontrou na internet, e me disse, depois desse sarau: “bora tocar essa tradução?” “Bora, claro.” E aí ficou. Depois a gente não conversou muito mais, sabe aquelas coisas? No ano seguinte…
BB:
Sim, vai ficando.
AM:
Vai ficando, né? É tipo aqui em São Paulo, “bora marcar?” “Bora.” E nunca ninguém marca, né? E aí, eu fiquei sempre assim… “Eu não vou atrás.” Eu fiquei… “Ah, sei lá se era realmente a verdade isso,ou foi a emoção do momento.” Aí me encontrei com o Cide novamente, num outro rolê de poesia. E aí foi que ele me falou: “não, borra mesmo. Eu que dormi, vamos, me propõe uma seleção inicial.” Aí, eu fiz a proposta da seleção inicial. Aí depois que a Cristina aprovou essa seleção, que a gente foi saber — porque eu estava me baseando na obra completa dela, que saiu pela Visora em 2022 —, depois a gente foi saber que ela tinha mais dois livros, né?
BB:
Nossa!
AM:
Aí foi que… É, imagina, gente, depois de uma obra completa como essa. Eu lembro quando eu comecei a traduzir, eu sonhei com esse livro. Que ele… Eu não conseguia levantar o livro de tão pesado que era.
BB:
E ele é tão pesado assim?
AM:
Ele é pesado, gata. Ele é pesado. Deve ter um quilinho, um quilinho e meio.
BB:
[Risadas] Um quilinho.
AM:
É, um quilinho e meio, eu acho, viu? Porque um quilo é pouco.
BB:
E subjetivamente, uns quantos arrobas?
AM:
Nossa senhora! Toneladas, mulher. Toneladas. Porque é uma responsa, né? Depois de uma análise, foi isso que a gente conversou. É uma responsa traduzir, não só a Cristina Peri Rossi, mas traduzir é uma coisa tão íntima também, que eu considero tão íntima para mim. É muito difícil por conta da responsabilidade. E aí, foi que o Cide depois acabou me propondo uma parceria para fazer a quatro mãos, e eu topei. Aí a gente fez esse trabalho de tradução a quatro mãos, que é bem interessante. Um traduzia, o outro revisava. E vem os diálogos.
BB:
Sim, eu tenho curiosidade sobre isso. Porque concordo com você, que traduzir as coisas que nos são mais caras, as leituras mais íntimas, tão longevas, são mais difíceis mesmo. Porque é traduzir uma coisa que a gente ama, e possibilitar que outras pessoas leiam. Então, existe aí não só uma generosidade muito grande, mas é também um ato replicado de amor, né? Ainda mais você que começou a traduzir para o português autoras que você gostava, como a Gabriela Mistral, como a Alfonsina Storni… Também para ler em português, né? Então, ouvir essas poetas também na sua língua e traduzir para ouvi-las em português também é um ato… Não sei, aí acho que a gente vai triplicando a generosidade e a convivência com as poetas, né? E aí vocês traduziram a quatro mãos, vocês traduziram o Nossa vingança é o amor a quatro mãos. E eu tenho muita curiosidade de saber como é que se traduz a quatro mãos. Depois dessa reunião inicial que vocês fizeram e dividiram, escolheram a amostragem, como é traduzir, assim, o dia a dia, o cotidiano, de traduzir a quatro mãos?
AM:
Então, depende muito das parcerias, né? Eu já traduzi a quatro mãos com outras pessoas, dois ou três livros com o meu companheiro, com quem eu moro. Então, é outra dinâmica, né? Porque a gente fica aí submerso nos textos. Mas com o Cide, a gente não tinha essa coisa de convivência. Então, era uma coisa mais mecânica, talvez. Foi uma estratégia mais mecânica… Como que eu posso falar? Uma linha de produção. Organização da linha de produção, sabe?
BB:
Sim, um cronograma.
AM:
Assim, eu nunca tinha traduzido… Eu tinha traduzido, sim, poesia, sim, mas não um livro editado e com uma editora de peso, como a 34, que tem toda a sua equipe editorial, né? O Cide é editor também. Porque, sei lá, o outro livro que eu publiquei de tradução, foi a Mónica Ojeda, né? História do leite.
BB:
Pela Jabuticaba, né?
AM:
Isso. E a Jabuticaba é outra proposta, é uma editora independente. Foi muito mais livre. Claro que teve as trocas e tudo. Mas, com o Cide, essas quatro mãos, o que a gente fez foi… Foi a minha seleção inicial, depois, o Cide fez uma seleção em cima da minha seleção inicial, com novos poemas. E aí, a gente dividiu. Eu ia traduzindo, entregando por lotes, a seleção inicial. Então… Eu me propunha de traduzir um poema por dia. Uma primeira versão. Claro que nunca está pronto. Jamais.
BB:
Difícil.
AM:
Muito difícil, né? Mas é isso. Um poema por dia, você vai entrando. Depois, senta um dia e revisa. Outro dia, revisa. Deixa o poema. Eu gosto de traduzir poesia, porque eu acho que o poema é um universo, né? Ele está fechado, de alguma forma. Então, você deixa ele lá, né? De molho com as suas primeiras escolhas, você se afasta, e quando você retorna no poema, é um outro olhar. O texto, a prosa, é mais difícil de fazer isso, né? Porque você pode fazer isso com um conto, mas, dependendo do conto, são 35, 40, 50 páginas, né? E o poema, não. Ele se define, né? É isso, é um universo fechado. E aí, o que que acontecia? Eu passava para o Cide as minhas traduções. Ele revisava. Voltava com os comentários, a gente debatia nos comentários do Word. Às vezes, um áudio, porque não davam as palavras escritas para explicar o porquê das escolhas. E vice-versa, né? O Cide traduzia, me mandava para revisar. E aí que a gente fazia essas trocas. Eu não tenho mais esses arquivos, mas é um verdadeiro laboratório de tradução. Quando depois você vai ver os comentários, acho bem interessante.
BB:
E como a obra vai crescendo pouco a pouco, né? Eu imagino que existam aqueles momentos, isso que você falou dos áudios, que é assim, empacaram numa palavra ou empacaram num verso. E aquilo vai virando um rolo.
AM:
Total, total. E da Cristina… Porque todo poeta… Isso eu escutei da Beth Brait — não sei se você conhece, é uma poeta daqui de São Paulo —, uma senhora poeta que tem vários livros publicados, e ela comentando no lançamento, que eu fiz uma tradução para o espanhol de um dos poemas dela. Ela falava: “todo poeta tem as metáforas obsessivas e os mitos recorrentes.” E eu achei isso fantástico. E foi o que eu busquei inconscientemente na Cristina, sabe? Quais são essas metáforas obsessivas dela? E aí foram as maiores tretas para mim de tradução, sabe? Porque ela tem todo esse universo feminino, lésbico, né? Então, tem todo o corpo da mulher, como ela… É uma metáfora obsessiva o corpo da mulher, com a palavra.
BB:
Sem dúvida.
AM:
A questão da masculinidade, o corpo masculino é um outro, é alheio. Então, por exemplo, quando ela vai se referir, essa foi uma das maiores tretas, ao pênis, né? Ela chama de pênis, porque é uma coisa externa. Ela não tem intimidade com o pênis, né? E aí, claro, vem os olhares: “ah, não, porque aqui no Brasil, não sei o quê, pau, fica melhor.” Sabe? Esse tipo de coisa. E não é assim, porque é a metáfora e a obsessão dela. É o olhar dela. Então, essas trocas aí são bem interessantes, porque não é que um conheça mais que o outro, mas às vezes as objetividades delas estão em jogo.
BB:
Claro. É, os termos que são alheios à ela, de certa forma. Em significação mesmo, né?
AM:
Exato. Biológico, né? Porque é o pênis. Eu sei que isso existe, é biológico, está na outra pessoa de um gênero que é outro, que não meu, né? Então, eu só vou chamar isso pelo seu termo específico biológico. Agora, os seios, ela não vai usar “tetas” em nenhum momento, sabe? Em nenhum momento, nem “peitos”. Geralmente é “seio”. E o seio tem aquilo também, do seio materno, do aconchego. Sei lá. Eu penso muito nessas metáforas dela, realmente. E são obsessivas, porque elas estão desde o primeiro livro até o último.
BB:
Sim. E ela era bióloga, ela estudou a biologia também, né? Tem umas aparições, assim, de termos biológicos, anatômicos até, em relação ao corpo, que é algo que predomina mesmo a obra inteira.
AM:
Sim. Eu não sei se ela chegou a se formar, mas eu sei que estudou biologia. Porque depois ela se formou em letras, tanto que ela deu aula no IPA, que é o Instituto de Professores Artigas, é uma espécie de universidade para as licenciaturas no Uruguai. Eu fiz uns anos lá também. E aí ela dava aula de literatura, que foi quando começaram a censura com ela. Um instituto público, uma universidade pública. E aquele livro, imagina, o que causou na época, né? Falando de Evohé, especificamente.
BB:
E ela, quando começou a ditadura no Uruguai, que foi em 72, né? Que rolou o golpe. E aí ela vai se exilar em Barcelona, onde ela ainda vive. E ela ficou… Ela se exilou porque ela foi demitida do Instituto. As coisas que ela escrevia nos jornais e revistas, o nome dela passou a ser uma ameaça, né? A própria cidadania dela, passou… Ficou em xeque. Então, aí tem . essa ida para a Espanha, já com alguns livros. E eu li que ela foi de barco para a Espanha com alguns livros embaixo do braço, para recomeçar uma vida. Mas também chega lá no final do franquismo também, né? E aí para recomeçar e se reinventar. Você percebeu, assim… Vocês perceberam? Conversaram sobre isso? Se houve… Perceberam algumas diferenças na poesia? Acho que na matéria poética, não. Mas, assim… Nos poemas, para além dos poemas de exílio, como é a chegada da Cristina em outro país? É muito forte tudo.
AM:
É muito forte essa questão do exílio, que passa também pelo migrar, por habitar um outro lugar que não é seu. Por falar uma língua que… Tem até um poema que fala do bingo [?], né? O sotaque no espanhol. “Você tem o sotaque no espanhol mais bonito do mundo.” Porque na Espanha se fala espanhol, mas não é o espanhol uruguaio, sabe? Então, você sempre vai ser uma outra pessoa, você sempre é um outro. Eu, aqui, uma argentina no Brasil. Eu moro aqui há… Vamos fazer quatorze anos, se eu não estiver errada, e é constante, a gente sempre vai se sentir diferente, a gente sempre vai se sentir que não é daqui, embora a gente faça a nossa vida aqui. É um não lugar. Porque a diferença sempre está marcada, seja pelo sotaque, seja pela cultura, né? E pensemos, o Uruguai tem uma cultura muito particular, uma sociologia… A sociologia do povo uruguaio é muito particular. É um povo combativo, mas não um povo raivoso como o argentino, sabe? É um povo mais tranquilo. Mas com uma tradição de esquerda, anarquista muito forte.
A família da Cristina era de tradição politizada. O tio, o pai trabalhava em fábricas, a mãe era professora — era mais católica. Mas essa questão sempre se conversou. Então, a gente percebeu, sim, claro, que há uma mudança no tom. Inclusive, eu diria, o jeito de encarar o poema, sabe? Que os poemas acabam se tornando menos lúdicos, como no início, um pouco mais narrativos, afinando muito mais a ironia. Aí, para mim, o auge dessa fineza da ironia é o Playstation, por exemplo, que é um livro que faz essa virada, que dá para ver uma Cristina madura, sabe? Uma Cristina já consciente da sua auto expressão poética. E a gente conversou bastante sobre isso. Inclusive, entendendo isso, quando a gente pensou na seleção dos poemas, bom, a gente tem que mostrar qual é a diversidade poética dessa autora, né? Porque 18 livros… Então, assim, eu tinha feito… O meu recorte era muito mais para a minha pesquisa, uma coisa mais feminista, inclusive. E o Cide: “não, vamos mostrar…” Ótimo, achei maravilhoso, né? Isso que é interessante a quatro mãos, muitas vezes, ou com o editor, essa troca, porque a gente vai se alimentando e refletindo muito mais sobre a obra. Então, a gente foi buscando justamente mostrar esse caminho, eu acho que conseguimos.
BB:
Conseguiram plenamente.
AM:
É, né? Com muito sucesso. Mas foi um trabalhinho entender isso, entender e delimitar. Teve muito poema que caiu, porque também a gente não podia trazer tantos. São 150 poemas, que o número… O Cide queria um número redondo, essas coisas da numerologia. Aí foram 150 poemas. Mas justamente nessa seleção, a gente foi pensando isso. “Não, espera aí.” Porque tem muitos, por exemplo, poemas em série que ela faz. Aí, na primeira seleção, tinha poucos poemas em série. “Vamos mostrar outras séries de poemas, né? Como ela está trabalhando a questão em série. Vamos mostrar muitos poemas no final da vida, dos últimos livros dela, do hospital, da questão da saúde, do deterioro do corpo” Então, trazer isso, essa mudança e, de alguma forma, é a dinâmica poética dela, né?
BB:
Sim. É, e você falou… Eu vou voltar um pouco para o Playstation, né? Assim, da chegada, da transição. Você falou da poesia, que era um pouco mais lúdica e tal. Ali, a gente tem os livros de formação, né? Quando a gente chega nos livros já da Espanha, a gente consegue perceber que é um eu lírico mais frontal, e você destacou isso da narração. E eu acho que isso tem a ver com uma reformação, né? E tem a ver com o fato de que ela, ela precisa, por algum aspecto, narrar a própria vida, inventar a própria vida. Então, ali a gente percebe uma ironia mais afiada e a gente vai percebendo também uma vontade de… Ou talvez o início de começar a relaxar dentro do poema, mas não relaxar politicamente, mas, assim, buscar e alcançar novos procedimentos de escrita, né? Desenvolver novas técnicas, abrir um pouco o leque de temas. E eu queria que a gente falasse um pouco mais, assim, a partir do Playstation.
AM:
Eu acho que por isso que eu falava que é um livro muito forte. E se a gente vai ver depois do Playstation, ela fica um tempo, cinco anos sem publicar, né? É bastante tempo. Então, o Playstation foi escrito naquele estado de suspensão dela, que é quando ela tem aquele acidente e ela se vê obrigada a ficar na cama.
BB:
Jogando Playstation!
AM:
Jogando Playstation, o que eu acho maravilhoso. Eu sou péssima para jogar Playstation, gente. Eu achei tão maravilhosa ela trazer o Playstation. Nossa, mas…
BB:
Esse humor, né?
AM:
Esse humor, é o humor dela. E você falou uma coisa interessante. Não é “relaxar”, mas ela assume a questão política em um outro viés, que é um viés mais leve, sabe? O político, a crueldade, a violência que sempre estão presentes de uma forma ou outra, são mais leves.
BB:
E também mais tragicômicos, de certa forma, né?
AM:
Sem dúvida. É pelo humor.
BB:
É algo que eu falo sempre nessa coluna. Estou sempre me repetindo, mas… É o que é mais difícil de alcançar, né? O tragicômico. E ela ali, ela dispara.
AM:
Aí ela dispara, realmente. E eu acho que esses cinco anos sem publicar falam muito também. Porque ela se encontrou… Não sei. Claro, não conversei com ela pessoalmente, nem nada. Mas eu sinto isso. Que ela, nesses cinco anos, ela com Playstation se encontrou, se encontrou numa madurez poética, né? E depois, esses cinco anos são de entendimento também. “O que que eu fiz? Espera aí. Foi isso. O que que é o Playstation? Qual que é a minha fortaleza nos poemas e [no] Playstation?” E está no tragicômico, está no humor, e no falar das coisas pesadas, mas com humor. Justamente com essa leveza, né? E os outros livros, eu acho que já assumem um [tom um] pouco mais parecido ao do Playstation, né? Os dois últimos, principalmente, os mais atuais, de 2023 e 2024 — são mais realmente trabalhando a questão da velhice dela, do corpo. Que isso também [acontece] com Playstation. Porque um acidente desses que deixa ela com a perna suspensa, você começa a refletir sobre o seu corpo, é lógico, né? Seu corpo está em estado, assim, quieto, em repouso total.
Então, tem toda uma reflexão que passa também pelo corpo. A gente, no espanhol, tem uma frase que é… Hacer lo cuerpo, hacer algo cuerpo, né? Fazer aquela poesia corpo dela, interiorizar inclusive. E esses cinco anos são justamente de reflexão, de fazer corpo essa poesia que ela encontrou, né? Esse tom, essa expressão. E depois, nos outros livros, La noche y su artificio, se não estiver errada, Las replicantes vão um pouco por essa linha. Não é a mesma coisa, né? Mas ela entendeu que aí estava… Aí recidia uma força poética dela, que vai nessa leveza, nessa tragicômica, né? Nessa sensação de que eu posso rir do trágico, porque a gente sobrevive quando a gente ri, né?
BB:
Claro. E tem nos livros finais também, nos livros publicados recentemente, por último, também tem essa… Ali, você vê a Cristina bem mais velha, doente, é uma solidão mais pungente. Que também é algo que percorre a obra dela toda, né? Mas a gente percebe, sim, essa incorporação do… Muitas vezes do poema, né? Porque são muitos amores, são muitas paixões e existe sempre o corpo da outra, né? E aos poucos a gente vai ganhando o corpo da Cristina dentro dos poemas.
AM:
Sem dúvida.
BB:
E é muito interessante… Como leitora também, você vai absorvendo a matériavital também. A matéria vital passa a ser um tema total na poesia dela. Então, muitas vezes eu tava lendo e eu tinha uma noção de completude, sabe? Que eu não acho que era o intuito dela. Porque é uma poesia tão vasta, que deixa muitas brechas pra muitas coisas. E eu acredito que ela não… Não era um intento estético dela promover essa completude, mas eu acho que ela escreve tanto, ao longo de tanto tempo e acerca dos mesmos temas — que é o que a gente faz mesmo quando a gente escreve — que gera essa sensação de completude, assim. Não sei se você teve essa sensação como leitora, ou se você teve essa sensação traduzindo.
AM:
Sim, sem dúvida. E é uma sensação que justamente me surpreendeu. Saber que ela estava escrevendo esses últimos dois livros, em 2023… A gente chegou no [livro] de 2023, e a gente conversou com ela. “Ah, soubemos que a Cristina publicou um livro em 23.” “Ah, não.” A Lil falou que a companheira é agente [literária] dela, Falou: “não, mas a Cristina publicou um outro livro em 24 também.” Gente… É uma sensação… Porque quando você lê, você fala: “o que mais essa mulher pode escrever?” E ela pode escrever mais, parece que está completo, realmente, que está redondinho. Isso daqui está redondinho. Mas aí vem mais dois.
BB:
Impressionante.
AM:
É impressionante. E você vê que ela consegue realmente ir ampliando, né? Não só o repertório, mas também a busca poética dela. Porque justamente nesses últimos dois livros em que ela vai para aquele viés que você colocou muito bem, ela apresenta o corpo dela, apresenta para o leitor o corpo dela, e nós chegamos lá. Agora, daí para frente, não sei, dá a sensação de que está completa a obra. Mas eu duvido que ela não vá publicar outro livro. Enquanto ela viver, gente, ela vai continuar escrevendo, e provavelmente publicando, né?
BB:
Que bom.
BB:
Eu queria falar um pouco, Ayelén, sobre o amor. Porque ele, claro, está sempre muito aliado ao erotismo, ao desejo — claro não, porque nem sempre o amor está ali conversando com esses temas. Então, numa primeira leitura, a gente percebe de cara o erotismo, o desejo, que é algo de que a Cristina parece fazer muita questão, é um intento mesmo. Mas o amor, ele percorre toda a obra dela e eu percebo, e eu tenho para mim, que isso talvez tenha agradado muito as pessoas que entraram em contato com a poesia dela, porque é mais que uma liberdade para lidar com os temas do prazer, do desejo e do erotismo, mas é uma liberdade e até uma certa desfaçatez para lidar com o amor. Porque muitas vezes a gente tem vergonha de falar sobre o amor, ou acha que tudo sobre o amor já foi dito, mas nos poemas da Cristina a gente percebe que sempre tem espaço para falar mais do amor. E por um outro lado, isso está muito ligado ao cultivo da própria imaginação dela. Isso aparece nos poemas, o cultivo da imaginação. Então, eu queria que você falasse um pouco sobre essa bandeira, que é o amor, muito ligada à imaginação e à liberdade.
AM:
Então, é bem curioso, porque a questão da imaginação, ela fala até muito bem sobre isso em A insubmissa, que agora saiu pela Bazar.
BB:
Traduzido pela Anitta.
AM:
Uhum. Eu não li ainda em português, mas no espanhol, achei maravilhoso, gostei muito. E ela falando da curiosidade dela, aquela curiosidade voraz, que, por ter nascido em Uruguai — que Uruguai é pequenininho, Montevideo é uma cidade capital, mas é pequenininha —, essa curiosidade era maior do que as possibilidades. Então, a imaginação entra aí como um disparador para novos caminhos, para outras perspectivas de vida, justamente para construir o que ela não tinha acesso, por situações dadas, como o contexto no qual ela nasceu e se criou. Então, a imaginação, ela vai surgir aí, na verdade, como um disparador também do amor. Que esse amor também, n’A insubmissa, ele surge… Ou a primeira ideia de amor que ela tem é a mãe. Aquela coisa bem… Freud explica isso, né? Mas o amor e a imaginação, eles se complementam de tal forma que ela consegue sobreviver à vida dela. E o amor passa por vários aspectos. Esse amor pela mãe, o amor até pela própria poesia, o amor pela outra, o amor pelas colegas. Porque tem isso, não é só um amor romântico, não é só um amor sexual. Tem a parceria, tem a cumplicidade, que fala muito do amor também, né?
Então, eu acho que o amor na Cristina Peri Rossi é muito grande, porque tem muitos amores aí. Muitos amores para a gente ir pensando isso, como funciona esse amor no universo poético dela. E é uma força motora, assim como o desejo, sem dúvida. Mas eu sinto que amor e desejo para ela estão atrelados, porque, nesse sentido, o amor que desperta a curiosidade é motivado pelo desejo de saber também, né? Então, amor, desejo, curiosidade e imaginação como produto desse resultado de somatórias, fazem essa força dela. Então, o amor é mais um dos elementos, né? Mas eu sinto que nesse livro, especificamente nesta antologia que a gente trouxe, a gente quis também mostrar essa Cristina do amor, essa Cristina que é irônica, essa Cristina que é afiada, mas essa Cristina que sente muito o amor também. E amor pela própria vida, amor pela história, amor por existir, por viver. Que não deixa de ser um desejo, né? Não sei se eu respondi essa pergunta.
BB:
Respondeu, claro. Tem um poema, que é o do… Que ela fala que sonha que transa com a mãe, né?
AM:
Maravilhosa.
BB:
E pergunta para as outras pessoas se as outras pessoas transam também. E aí as pessoas sempre constrangidas dizem: “não, não, nunca. Nunca, de forma alguma.”
AM:
“Imagina!” E a conclusão dela é qual? “A mãe de vocês não é linda, gente. É minha mãe que é gata.” Maravilhosa.
BB:
Sim. E eu adorei que vocês usaram “gata”.
AM:
É, sim. Essa foi a escolha do Cide, a gente bateu bastante nessa daí. Porque o “guapa” tem… É bastante polissemântico se a gente for pensar no espanhol, né? Que tem o “guapo” que é uma pessoa forte, né? Uma “mujer guapa” é uma pessoa que leva a vida muito… Com muita posição, com muita postura. E tem o “guapa” de “o cara é lindo” também. Mas tem um estado de espírito de ser “guapa”. E para mim, esses dois estão juntos. “Gata” perde essa outra questão, mas também sonoramente, o poema é sonoridade, fica bem melhor “gata” do que “linda”, né?
BB:
E aqui no Brasil, quando a gente fala que alguém é gata, a gente fala: “fulano é gata.” Então, tem uma ênfase. Significa ali… Tem um som, assim, de poder também. “Ela é gata.” Afirmando que ela é poderosa, gata, gênia, e por aí vai, né? Você estava falando do amor pela poesia. E não tem esse amor pelas palavras desdobrado em séries de poemas que são metalinguísticos. E ao longo de todos os livros… Eu fiz uma espécie de apostila para os meus alunos, porque agora eles vão ler a Cristina, a maioria já leu, mas agora a gente vai discutir com todos os poemas metalinguísticos.
Então, ao longo de toda antologia, a gente tem pelo menos uns doze poemas metalinguísticos, que são maravilhosos. E aconteceu até uma coisa, Ayélen, porque você fala, inclusive, no prefácio da citação que ela faz ao João Cabral, no poema sete do livro Linguística geral, de 1979. E aí, fazendo essa apostila para os meus alunos, no final da antologia tem um poema que ela cita, não diretamente, mas ela fala de um poema do João Cabral que é a Fábula de um arquiteto, que está no A educação pela pedra. E aí ela cita, porque o João Cabral fala na Fábula do arquiteto, “portas que se abrem em portas”. E isso aparece num outro poema, que se chama Minha casa é a escrita, e no final dele, na última estrofe, na tradução de vocês, “minha casa é a escrita, suas salas, seus patamares, seus sótãos, suas portas que se abrem para outras portas, seus corredores que conduzem a recâmaras cheias de espelhos, onde jazer com a única companhia que não falha, as palavras.” E esse “portas que se abrem para outras portas”, na Fábula do arquiteto tem “portas que se abrem em portas”.
Então foi… Eu dei aula sobre esse poema ontem, então foi um encontro muito maravilhoso perceber essa entrada do João Cabral de outras formas, né? Primeiro eu queria que a gente falasse sobre a questão metalinguística e depois a gente falasse sobre a relação dela com os escritores brasileiros como tradutor e tal. Vamos falar sobre a metalinguística.
AM:
Vamos. Olha, eu não sabia isso desse verso do João Cabral. Conheço o poema, mas não tenho ele aqui na cabeça. Já li algumas vezes e inclusive já brinquei de traduzir o João Cabral, gente… Que difícil, hein? Que difícil, caramba! Mas é legal a gente brincar de traduzir. A metalinguagem na Cristina é a forma dela encarar a poesia, assim, porque em todo poema vai ter. Começa com Evohé e é o tempo inteiro fazendo uma referência a Safo, sabe? Tem aí também referências constantes às poetas uruguaias. A Juana [de Ibarbourou] bastante, que ela gosta muito. A própria Virgínia. A questão, então, eu sinto da metalinguística dela é como um motor, de alguma forma. É a bateria, sabe? É a bateria que vai fazendo ela produzir. Porque quanto mais você lê… “Produzir” não é uma palavra legal quando a gente vai pensar em poesia. Mas “escrever”… Quanto mais você lê, mais você escreve. Isso é fato. Ou pelo menos eu sinto isso, né?
Então, essa metalinguagem, ela funciona como essa bateria, de ir colocando cada vez mais pilhas na escrita mesmo, e ir brincando com as constelações dela. Porque são… A gente tem também as nossas constelações que acompanham. Quais que são os nossos autores aqui sempre? E ela vai trazendo esses autores e repetindo em muitos momentos. João Cabral, como eu falei, a Virgínia… Tem um outro poema… Ai, não vou lembrar agora, mas que está no finalzinho, eu acho, dos últimos livros. Aqui, Estranhas relações. Que ela vai trazer — está na página 245—, ela vai trazer um monte de referências, não só linguísticas ou de escritores, mas também…
BB:
Do cinema.
AM:
Do cinema, da linguagem em seu sentido mais amplo, né? Cinema, música, arte. Ela tem um livro inteiro que são… Que [ela] faz poemas para quadros. Que… Também ela está trabalhando As musas inquietantes, de 99. Justamente essa metalinguística funciona assim como aquele… Sabe o cronômetro? Que está aí te acompanhando, de alguma forma, para você escrever. Você tem que… Ou tocar seu instrumento, alguma coisa você tem que fazer. Então, esses autores, essa constelação, eles vão estar aqui se repetindo constantemente. Não chega a ser uma obsessão poética, né? Eu acho. Mas sim a palavra desses escritores, como a linguagem entrou para ela, desses escritores. Porque há toda uma reflexão justamente trazer um verso do João Cabral de Melo Neto no meio do poema. Nossa, isso é… De uma pessoa que realmente incorporou, isso é o corpo da poesia, né?
BB:
Sim.
AM:
Tornou o corpo dela, a poesia do João Cabral. Ao ponto de que surge e sai dela. É muito curioso essa metalinguística da Cristina, eu gosto bastante, sabe? E eu acho que quando a gente lê a obra completa, poética, tem muito mais. Gostei que você fez um levantamento. Que lindo, gente, doze poemas, nossa. É muito bom, né? Porque está presente no livro inteiro, mas tem poemas que são especificamente dedicados a esse vínculo da metalinguagem. A essa estratégia até poética, que é a meta linguagem.
BB:
Sim.
AM:
Mas ele atravessou todos os poemas, de alguma forma.
BB:
É. E eu percebo que nos poemas sobre poemas e nos poemas sobre escrever, ou a própria relação dela com a musa e com as musas. Tem algo maior que é, muitas vezes a gente encontra nos poemas metalinguísticos o simples ensaio de escrever o poema enquanto se escreve, são cenas refletidas dentro do poema. E nos poemas da Cristina eu sinto uma diferença porque me parece que ela tem um conhecimento muito grande e ao mesmo tempo uma curiosidade e uma abertura de descobrir cada vez mais sobre os tecidos dos poemas. Então, ao mesmo tempo que ela demonstra muitos domínios — e eu diria até uma sabedoria mesmo da escrita — ela tá sempre descobrindo novos tecidos. Então, eu acho que nos poemas metalinguísticos, ela transita com muita liberdade e com muita assertividade. Mas tem sempre isso, ela está descobrindo mais uma coisa enquanto ela escreve esse poema sobre o poema. E isso pra mim é uma aula de composição, né? Uma aula de escrita do poema.
Então, eu não tô diante da Cristina dentro do poema, falando que a Cristina tá dentro do poema, escrevendo um poema com dificuldade de escrever um poema. Não, ela tá lançando outras luzes mesmo sobre a composição. E isso é muito rico e até arrepiante. Eu tô falando com você agora e eu tô arrepiada de novo. Então, quando eu fiz essa seleção dos treze poemas eu pensei assim: “bom, isso aqui na aula de poesia é o que as pessoas precisam ler agora e precisam ler sempre.”
AM:
Sim. Sabe que eu te ouvindo também tem um funcionamento — pensando agora, tá gente? Essa da metalinguagem também serve como exercício de crítica, né? Porque tem muitos poemas que funcionam como crítica literária. E eu acho bem legal justamente porque quando a gente aprende ou exercita a escrita, contar com [ela] também. É mais um jogador no tabuleiro da escrita, sabe? A crítica. E como a gente lida com a crítica, o que fazer com a crítica e até criticar, né? E fazer dessa crítica um exercício poético. Eu achei assim… Tem vários poemas dela que vão nessa pegada e para mim são dos melhores.
BB:
É, tem aquele do Baudelaire com a Madame de Bovary que é maravilhoso.
AM:
Maravilhoso! Afinal, a Madame era maior, né? Acaba sendo maior que o próprio cara. Ou tem o do Lewis Carroll, que é a mesma coisa também.
BB:
Ah, sim!
AM:
Gente… Gosto muito. É verdade isso que você fala, amplia. E sabe que, quando você estava me contando, eu pensei: “ela é muito amiga de Cortázar.”
BB:
Sim. Tem até um livro que ela escreveu.
AM:
Tem até um livro. Eu tenho esse livro por aqui. Aí, o Cortázar é muito metalinguístico também na prosa dele. Pensei nas Babas del diablo, te ouvindo. Quando você foi fazendo todo esse desenho de como a Cristina escrevendo sobre ela, sobre a poesia, e você vai vendo isso no Babas del diablo. É a mesma coisa, né? Você vai vendo o escritor escrevendo e se debruçando em si mesmo que você não sabe o que é mais que coisa, né? E eu penso que essa relação entre eles dois tem muito a ver com essa reflexão dela com a linguagem também, sabe? Claro, como [influenciou a] qualquer outra pessoa. Mas a gente tem bastante conhecimento do Cortázar, então, acredito que dá pra ver também essa estratégia dela. Não sei se é estratégia… É mecanismo, né? Mecanismo dela de se auto explorar através da metalinguagem. Através da linguagem fazendo metalinguagem. Um mecanismo de exploração poética.
BB:
É, eu acho que a exploração poética, tanto na escrita como na crítica dentro da escrita, é muito nítido que ela tá lidando sempre com aproximação e a distância. Então, tem uma observadora ali que tá em movimento dentro do poema e dentro do conjunto da obra. Então, essa inquietude que você falou é muito nítida também.
AM:
Sim.
BB:
Olha, a nossa conversa tá ótima, mas a gente tá encaminhando pro final. Você falou que vocês não encontraram com a Cristina pessoalmente, mas vocês trocaram, chegaram a trocar dúvidas, impressões, mandaram o livro pra ela, mandaram a tradução pra ela?
AM:
Sim. Assim, a gente conversou com a Lil e a Cristina respondia através da Lil. Aí mandamos a seleção que ela aprovou, a inicial, e as mudanças na seleção, ela foi aprovando. Mandamos o título, ela não gostou, a gente bateu o martelo e conseguimos, né?
BB:
Mas é ótimo o título.
AM:
Ah, eu acho lindo, gostei muito. A gente tinha uma lista, e é a cara do Brasil, sabe? É a cara do povo brasileiro. E a gente argumentou isso, porque ela queria um título de um poema do último livro dela, A nave dos desejos das palavras, que tá na página 240. Que pra mim é esse poema que encerra de uma forma que sintetiza, sabe? Toda a carreira poética dela — que pra mim é muito poderosa — e ela queria esse título. E aqui não funciona, gente. Ninguém vai querer um livro de poesia que se chama A nave dos desejos das palavras, né? Aí a gente bateu, aí ela concordou, depois deu alguns argumentos, mandamos também a tradução, porque ela é tradutora também, né?
AM:
Ela conhece o português, ela foi responsável pelo boom da Clarice na Espanha, né? Porque a Clarice já tinha sido traduzida.
BB:
Sim, precisamos falar disso.
AM:
É muito louco, porque a Clarice já tinha sido traduzida por um homem na década de 1980, mas quando a Cristina traduz nos [anos] 90, é um boom. Aí realmente que a Clarice se torna conhecida na Espanha, e hoje é uma das autoras brasileiras mais pesquisadas na Espanha, né? E na América Hispânica também. E é por conta da tradução da Cristina. Como é essa generosidade da tradução, gente.
BB:
Ela traduziu Laços de família em 1988. Ela traduziu Silêncio, e ela traduziu outros brasileiros, ela traduziu Angústia, do Graciliano Ramos, que é um dos livros mais maravilhosos do mundo, ela traduziu O que é isso, companheiro do Gabeira. E ela traduziu um livro dificílimo e majestoso, que é o Avalovara, do Osman Lins.
AM:
Eu estou curiosa para ver essa tradução, gente.
BB:
Eu também fiquei ontem.
AM:
Eu vou para a Espanha mês que vem. Vou tentar conseguir esse livro, vou ver se eu consigo me encontrar com ela, né? Porque depois também teve uma troca pessoal, bem pessoal, o Cide me passou um e-mail da Lil, porque eu não estava em cópia, né? Isso era uma coisa da editora que conversava com ela, me comunicava, né? Aí me passou um e-mail da Lil para agradecer, aí eu agradeci, mandei um e-mail, aquelas coisas, a emoção pura, né, gente? Depois arrependida, pensando: “nossa, que brega que eu fui!” E a Cristina, a Cristina me respondeu pessoalmente, sabe? Particularmente. Pegou meu e-mail e do e-mail dela me mandou um e-mail. Mulher! Eu tenho esse e-mail guardadinho, assim, está até marcado para eu não esquecer que eu tenho uma amiga que se chama Cristina Peri Rossi.
BB:
Não vai emoldurar?
AM:
Emoldurei, tá? Estou emoldurada, baby! Está emoldurada num porta-retrato no meu escritório, né? Porque, nossa, foi um poema! E ter essa resposta para um e-mail brega que eu enviei, e ela me respondeu um poema! Nossa, não tem preço, né? Não tem preço. Agora eu quero conhecê-la, vamos ver se eu consigo.
BB:
Ai, por favor, escreva! Escreva sobre esse encontro.
AM:
Ah, sim, né? Depois que passaram a emoção, porque senão vai ficar muito brega.
BB:
Escreve e publica. Eu gostaria de ler e acho que muita gente gostaria de ler também. Ai, que legal! Ayelén, para terminar nossa conversa, nossa ótima conversa, queria que você lesse dois poemas que você escolheu.
AM:
Eu vou ler dois curtinhos, tem muitos longos dela. Esse aqui que se chama Los poetas, que está em Aquella noche de 96. Está na página 109. “Nós, poetas, não somos confiáveis para ninguém. Não somos confiáveis para os editores que preferem editar romances. Não somos confiáveis para os bancos porque não temos renda fixa. Não somos confiáveis para os jornais que preferem publicar guerras e golpes. Não somos confiáveis para os proprietários, porque atrasamos o aluguel. Não somos confiáveis nem para os leitores. Eles gostam de gastar dinheiro em linhas corridas, não em linhas partidas.”
BB:
Esse é maravilhoso, uma revanche.
AM:
É, total, né? E ela sendo uma prosadora também, é muito bom. E você viu que tem vários poemas em que ela brinca: “vou escrever minha biografia, ver se eu ganho dinheiro.” E é o que acabou fazendo.
BB:
E fez! Tá certíssima, tá certíssima.
AM:
Certíssima, gente. Com uma vida dessa, como não escrever uma biografia? Por favor! E uma pegada dessa na pena, né? E depois, A nave dos desejos e das palavras, de Fata morgana, que é o último livro, de 2024. “Os antigos imaginavam uma imensa torre onde os humanos, misturados com os peixes no mar, lutavam para impor sua língua como um falo, suas sílabas como espadas. Eu, ao contrário, imagino uma imensa nave como um útero de baleia, onde as palavras navegam sem cessar, disputam, desfrutam, se amam e pelejam, descansam em poltronas deixadas ao sol, trocam entre si sandálias e túnicas, e depois, saciadas de sal, de sol, e de lutas, amam-se para conjugar os verbos.”
BB:
Maravilhoso.
AM:
Muito bom, né? Amo esse poema.
BB:
Ayélen, queria te agradecer por essa conversa, agradecer você e o Cide por esse livro. Que mais pessoas leiam a Cristina Peri Rossi no Brasil. E a gente vai se despedindo. Você quer se despedir?
AM:
Sim, eu que agradeço o convite, foi muito bom conversar contigo, Bruna. Te admiro como poeta também, muito, gosto muito da sua poesia. E é muito gostoso quando a gente consegue conversar sobre poesia assim, levemente, trocar uma ideia. Me senti muito feliz. E realmente agradeço a Quatro Cinco Um, a Bia [Souza, produtora do 451 MHz], que foi um amor se contactando comigo, e a você por essa mediação maravilhosa. E sim, que a Peri Rossi… Ela tem um apelido que é “Peligrossi”, né?
BB:
Eu tinha pensado nisso! Eu falei: será que alguém chama ela de Cristina “Peligrossa”?
AM:
“Peligrossi”, ela é bem “Peligrossi”. Que a “Peligrossi” continue fazendo esses estragos que está fazendo no Brasil, né? Porque realmente está causando, está causando, eu gosto. O causar, no sentido amplo do causar.
BB:
É, e eu também fico mais feliz ainda porque essa coluna ela é sobretudo dedicada a poesia, né? E no livro da Cristina, ela me deu uma definição de poesia que eu não tinha pensado ainda e não tinha lido nada parecido. Ela fala que “a poesia é um vício anônimo”. Então, a gente segue aqui nessa coluna falando, abordando sempre esse vício anônimo que é a poesia. Muito obrigada Ayelén, até já.
AM:
Obrigada a você. Até já, Bruna.
PW:
E antes de me despedir, eu queria passar para o quadro do 451MHz que traz o melhor da literatura LGBTQIA+ de todos os tempos. LGBTQIA+ significa lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexuais e assexuais. Nesse quadro, a gente convida autores e grandes leitores em geral para indicar os livros que foram marcantes, as leituras recentes e outras dicas literárias LGBTQIA + imperdíveis para todos os leitores. A dica de hoje é da chefe, apresentadora de TV e escritora, Bela Gil. Ela conversou com a gente lá n’A Feira do Livro desse ano, lá no Pacaembu, em São Paulo, pouco antes de participar de uma mesa no Espaço Rebentos para falar do livro infantil que ela publicou, Florisbela: receitas de amizade, que saiu em 2024 pela WMF Martins Fontes. Aqui no nosso quadro de dicas literárias, a Bela indicou Mudar: método do escritor francês, Édouard Louis, publicado no Brasil em 2024 pela Todavia, na tradução da Marília Scalzo.
Olá! Sou a Bela Gil e minha dica de livro hoje é do Édouard Louis, um livro chamado Mudar: método e ele é um autor incrível, francês, gay e ele conta a experiência da vida dele e eu acho que é fundamental para a gente enxergar toda a violência relacionada à temática LGBT. Então, para mim, essa dica é sensacional, a escrita é maravilhosa e ele é uma pessoa muito inteligente, muito culto, muito sensível, vale a pena a leitura.
Paulo Werneck:
Então, essa foi a dica da Bela Gil, Mudar: método, do Édouard Louis, publicado em 2024 pela Todavia, com tradução de Marília Scalzo.
Siga o 451 MHz e ouça no seu aplicativo favorito: Apple Podcasts, Spotify, Deezer, Amazon Music, Castbox, YouTube. Saiba mais sobre este episódio e confira outras entrevistas sobre grandes livros e grandes autores aqui.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Para falar com a equipe: [email protected]
Porque você leu Podcast
Transcrição: especial Fernando Pessoa no podcast 451 MHz
Episódio narrativo investiga a vida e o legado do poeta português nos noventa anos da morte do autor
JULHO, 2026
