Repertório 451 MHz,
Cristina Peri Rossi e o amor
A tradutora Ayelén Medail e a poeta Bruna Beber conversam sobre os sentimentos que movem a poesia da autora uruguaia
26set2025 • Atualizado em: 06jul2026Está no ar o 165º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, a poeta Bruna Beber, colunista do podcast, conversa com a pesquisadora e tradutora Ayelén Medail sobre a grande autora uruguaia Cristina Peri Rossi, que acaba de ter sua obra poética publicada pela primeira vez no Brasil.
Lançado pela Editora 34 em maio deste ano, Nossa vingança é o amor: antologia poética (1971-2024) reúne 150 poemas de Peri Rossi e foi traduzida por Cide Piquet e Medail, convidada do programa esta semana. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Ayelén Medail é argentina e mora no Brasil desde 2012, onde faz doutorado em letras na USP. Além de tradutora e pesquisadora, ela é professora de espanhol e editora. No episódio, ela fala da carreira multifacetada de Peri Rossi, dos bastidores da tradução de sua antologia poética e de como o amor e o desejo movem a poesia da uruguaia.
Nascida em Montevidéu em 1941, Cristina Peri Rossi completa 84 anos no próximo 12 de novembro. Com mais de quarenta livros publicados, ela tem uma carreira cada vez mais reconhecida internacionalmente, coroada em 2021 com o Prêmio Cervantes, a principal premiação das letras hispânicas.
Apesar de já ter livros traduzidos para mais de vinte idiomas, só agora, em 2025, os leitores brasileiros estão descobrindo mais da sua obra, graças a uma nova safra de traduções. Entre elas, está Nossa vingança é o amor: antologia poética (1971-2024). O livro traz uma seleção de poemas de diferentes fases da vida de Peri Rossi, desde Evoé, seu primeiro livro, publicado em 1971, até o mais recente, Fata Morgana, lançado em 2024.
Na conversa, Ayelén Medail conta como foi o processo de selecionar e traduzir 150 poemas a quatro mãos. “Eu fiz uma seleção inicial dos poemas, depois o Cide fez uma seleção em cima da minha seleção com novos poemas. E aí a gente dividiu: eu passava as minhas traduções pro Cide, ele revisava e eles voltavam com os comentários. E vice-versa, o Cide traduzia e me mandava para revisar”, explica. “A gente debatia nos comentários do Word. Às vezes, precisava de um áudio, porque as palavras escritas não eram suficientes para explicar as escolhas.”
De leitora a tradutora
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Medail diz que seu encontro com a obra de Cristina Peri Rossi aconteceu ainda na adolescência. “A Cristina entrou na minha via pela porta principal de uma adolescente, que é a escola. Quando eu tinha treze anos, lemos o conto El museo de los esfuerzos inútiles. Eu gostei dela, estava numa época de curiosidade pela ditadura militar e soube que a Cristina tinha escrito La nave de los locos, que fala um pouco disso também.”
A descoberta da poesia da autora uruguaia veio logo depois. Medail lembra que, no ensino médio, estava fazendo uma pesquisa para um trabalho na biblioteca quando recebeu uma indicação do bibliotecário para que lesse Evoé, o primeiro livro de poesia de Peri Rossi. “Foi assim que ela entrou na minha vida e nunca mais saiu.”
Insistência
Medail conta também que ela e Cide Piquet precisaram convencer Peri Rossi sobre o título em português da antologia poética. “Nós conversamos através da assessora dela. Mandamos a seleção dos 150 poemas, ela aprovou. Depois, mandamos o título e ela não gostou”, revela a tradutora.
Segundo Medail, Peri Rossi preferia que a antologia brasileira tivesse o mesmo nome de um dos poemas de seu último livro: “A nave dos desejos e das palavras”. “É um poema que sintetiza toda a carreira poética dela, é muito poderoso”, reconhece a tradutora. Ela e Piquet, no entanto, argumentaram que não funcionaria como título de um livro no Brasil. “A gente bateu o pé em Nossa vingança é o amor e ela concordou.”
“O amor, no universo poético dela, é uma força motora, assim como o desejo. Eu sinto que amor e desejo para ela estão atrelados. O amor que desperta a curiosidade é motivado pelo desejo de saber. Amor, desejo, curiosidade e imaginação fazem essa força dela”, diz Medail. “Nesta antologia a gente quis também mostrar essa Cristina do amor, que é irônica, que é afiada. Mas essa Cristina que sente muito o amor também. Amor pela própria vida, amor pela história, por existir, por viver.”
Livros do episódio
Veja abaixo a lista de livros e outras referências que aparecem nesta edição do 451 MHz:
- Nossa vingança é o amor: antologia poética (1971-2024), de Cristina Peri Rossi (Editora 34, 2025, tradução de Ayelén Medail e Cide Piquet)
- A insubmissa, de Cristina Peri Rossi (Bazar do Tempo, 2025, tradução de Anita Rivera Guerra)
- Evoé, de Cristina Peri Rossi (1971, não publicado no Brasil)
- El museo de los esfuerzos inútiles, de Cristina Peri Rossi (1983, não publicado no Brasil)
- La nave de los locos, de Cristina Peri Rossi (1984, não publicado no Brasil)
- Estrategias del deseo, de Cristina Peri Rossi (2004, não publicado no Brasil)
- Detente, instante, eres tan bello: poesía reunida, de Cristina Peri Rossi (2016, não publicado no Brasil)
- História do leite, de Mónica Ojeda (Jabuticaba, 2022, tradução de Ayelén Medail)
- Playstation, de Cristina Peri Rossi (2009, não publicado no Brasil)
- A educação pela pedra (Alfaguara, 2008), de João Cabral de Melo Neto
- “As babas do diabo”, publicado no livro As armas secretas, Julio Cortázar (José Olympio, 2009)
- Lazos de família, de Clarice Lispector (Montesinos, 1988, tradução de Cristina Peri Rossi)
- Angústia, de Gracilianos Ramos (Páramo, 2008, tradução de Cristina Peri Rossi)
- ¡A por otra, compañero!, de Fernando Gabeira (Editorial Anagrama, 1981, tradução de Cristina Peri Rossi)
- Avalovara, de Osman Lins (Barral, 1975, tradução de Cristina Peri Rossi)
O melhor da literatura LGBTQIA+
Este episódio do podcast dos livros traz ainda uma dica literária da chef, apresentadora de televisão e escritora Bela Gil, que lançou em 2024 o infantil Florisbela: receitas de amizade (WMF Martins Fontes).
Ela indica Mudar: método, do escritor francês Édouard Louis, que saiu no Brasil em 2024 pela Todavia em tradução de Marília Scalzo.
“Eu acho que [o livro] é fundamental para a gente enxergar toda a violência relacionada à temática LGBT. A escrita é maravilhosa e ele é uma pessoa muito inteligente, muito culto, muito sensível, vale a pena a leitura”, recomendou.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Para falar com a equipe: [email protected]
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