Literatura brasileira,

Revista portuguesa Colóquio dedica edição ao Brasil

Publicação criada em 1971 ganha especial voltado à literatura e às artes brasileiras, dialogando com a exposição Complexo Brasil, que será realizada em Lisboa

19set2025 • Atualizado em: 18set2025

Uma viagem pela cultura brasileira a partir de obras de arte, vídeos, músicas e documentos variados — essa é a proposta da exposição Complexo Brasil, que a Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, inaugura em novembro na capital portuguesa. Com curadoria dos brasileiros José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik, a mostra procura problematizar as relações históricas entre os dois países e promover o diálogo entre eles. 

Em sintonia com a exposição, a revista Colóquio (antes chamada Colóquio/Letras), publicada pela mesma fundação, preparou uma edição dedicada ao Brasil, que entra em circulação nesta sexta-feira (19). O número, concentrado nas manifestações literárias e artísticas brasileiras desde o ano 2000 até agora, traz uma boa surpresa: uma lista de 38 grandes livros brasileiros do século 21 escolhidos e resenhados por críticos, artistas e autores (não só brasileiros) especializados em nossa literatura.

A edição teve como editoras convidadas as professoras de literatura Clara Rowland e Joana Matos Frias. Elas assinam a apresentação que ocupa as primeiras páginas do especial, que começou a ser preparado em janeiro. “Tivemos de ser muito rápidas a concebê-lo e a fazer todos os convites. […] Estamos muito gratas porque o entusiasmo foi geral e toda a gente fez um enorme esforço para entregar a sua colaboração a tempo”, contou à Quatro Cinco Um Matos Frias, que em junho assumiu o posto de diretora da Colóquio

“Queríamos que esta fosse uma Colóquio em que aparecesse muito o Brasil do século 21. Um Brasil visto a partir do século 21”, apontou Rowland.

Este Brasil

O número 220 da revista — que traz na capa amarela o título “Este Brasil” e, nas primeiras páginas, uma floresta rosada com uma oca em destaque numa fotografia de Claudia Andujar, de 1976 —, reúne ensaios, resenhas de livros, documentos e ilustrações inéditas preparados por grandes nomes da cultura brasileira e também por especialistas estrangeiros. 

A edição começa com uma homenagem póstuma à escritora e crítica literária Heloisa Teixeira, com a reprodução do texto “É importante começar essa história de algum lugar, ainda que arbitrário” — prefácio feito para a coletânea As 29 poetas hoje (Companhia das Letras, 2021) quando ela ainda assinava Heloisa Buarque de Hollanda, “nome de casada” abandonado aos 83 anos. Em seguida, há sete ensaios de nomes conhecidos ou conhecedores da nossa literatura: entre eles, José Miguel Wisnik, Alexandre Nodari, Ilana Feldman e Veronica Stigger.

Esse primeiro bloco ocupa quase metade das 350 páginas da revista, que reservou para o final as resenhas dos 38 grandes livros brasileiros do século 21. “Não é um ranking, não é um ‘Melhores do século’. É uma leitura que um crítico ou um escritor faz da literatura brasileira dos últimos vinte e cinco anos”, explicou Joana Matos Frias

Os títulos da lista pertencem a diferentes gêneros, do romance à poesia, passando pelo ensaio, a literatura infantojuvenil e até o roteiro cinematográfico. Pós Poemas, de Augusto de Campos; Asma, de Adelaide Ivánova; O homem não existe, de Ligia Gonçalves Diniz; O que é meu, de José Henrique Bortoluci; Performances do tempo espiralar, de Leda Maria Martins; O avesso da pele, Jeferson Tenório; Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves; Budapeste, de Chico Buarque; e Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles — esses são alguns dos selecionados.

Os especialistas foram convidados a escolher três títulos sobre os quais gostariam de escrever, embora só fossem escrever sobre um. A ideia era ter alternativas no caso de coincidências. Mas, de acordo com as editoras, houve pouquíssima sobreposição — na verdade, apenas uma na escolha inicial de dois críticos. Assim, praticamente todos os convidados escreveram sobre o livro inicialmente escolhido, disseram as organizadoras.

“A ideia era ser uma revista dedicada a como a crítica pensa o Brasil de hoje”, afirmou Rowland. “Escolher os livros sobre os quais os críticos querem escrever. Ensaios curtos mas representativos do que mais interessa a cada um.”

Clássicos

O número dedicado ao país não ignora, entretanto, nomes há muito tempo consagrados. Esta Colóquio traz ainda ensaios do crítico português Óscar Lopes sobre João Guimarães Rosa, artigos de Bia Lessa e Luiz Fernando Carvalho sobre o processo criativo da escrita, e textos sobre como a literatura brasileira tem sido publicada em Portugal, sobre a tradução no Brasil e sobre discos e fotobiografias, além de outras análises.

A edição 220 também resgata, do arquivo da revista, preciosidades de outros escritores e artistas brasileiros considerados clássicos — Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Cicero Dias, Di Cavalcanti, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector e João Guimarães Rosa — que foram publicadas ao longo das décadas.

Colóquio

Fundada em 1971 — a partir da cisão da Colóquio, Revista de Artes e Letras, que circulou entre 1959 e 1970 e deu ainda origem à Colóquio/Artes (hoje extinta) —, a revista Colóquio era até sua última edição, de maio deste ano, chamada Colóquio/Letras

“A preparação desse número dedicado ao Brasil tornou muito evidente uma realidade que já se vinha impondo, isto é, que não poderíamos manter um sentido restritivo de ‘literatura’ na revista, por conta da amplitude daquilo que queremos que seja o pensamento crítico em todos os números”, explicou Matos Frias. “Daí a decisão de recuperar esse título único, Colóquio, um pouco na linha do que foram os anos iniciais [da revista].”

Trata-se de uma publicação impressa periódica editada pela Fundação Calouste Gulbenkian dedicada às literaturas, artes e culturas de língua portuguesa que circula em Portugal, principalmente na academia, em bibliotecas e instituições culturais. 

As edições publicadas até 2017 podem ser visualizadas no acervo on-line. Os exemplares impressos estão à venda no site da Fundação Calouste Gulbenkian, por 16 euros.