Cena da série Grande sertão: veredas (1985), dirigida por Walter Avancini (Arquivo de Bruna Lombardi/Divulgação)

Literatura brasileira,

Buriti: feminino/masculino

Palmeira na paisagem de Corpo de baile e Grande sertão: veredas traça um sutil paralelo entre gêneros na obra rosiana

01ago2026 | Edição #108

Publicada originalmente em Corpo de baile, de Guimarães Rosa, em 1956, a novela “Buriti” traz no título uma árvore brasileira, e nela sobressai imediatamente o elogio da virilidade. Desde o começo, em meio à conversa entre Miguel e nhô Gualberto, na jornada para a fazenda onde reside Glorinha, a atenção do leitor é despertada para a descomunal palmeira — setenta metros! — que reina sobranceira sobre as terras. O buriti é totem do clã, símbolo fálico e ícone de Iô Liodoro, o proprietário e senhor das redondezas.

À sua sombra, seo Quincôrno cata o capinzinho rasteiro, afrodisíaco que deve restaurar suas combalidas forças de macho. Volta e meia o assunto do buriti retorna ao longo do livro. Entretanto, é curioso que lentamente, mas inexoravelmente, a atenção do leitor vá sendo transferida para as mulheres, a tal ponto que Iô Liodoro passa a interessar menos.

As mulheres são, na linha de frente, Lalinha (nora, abandonada pelo marido) e Maria da Glória (filha). São lindas, inteligentes, simpáticas, boas pessoas. A amizade entre elas é instantânea, sincera e firme. A aliança logo se estabelece. Mais uma mulher mora na casa, Maria Behú, outra filha de Iô Liodoro, mulher esquisita, obscura, pouco comunicativa, que “murchara apenas antes de florir” e sempre parecia estar de luto recente. A beleza lhe faltava — ela, beata que vivia rezando. Mas era boa pessoa, não fazia nem desejava mal a ninguém — apenas fora pouco aquinhoada em graças pelo destino. Havia outro filho, Iô Ísio, que trabalhava com o pai na fazenda, mas que se subtraíra ao mando total por causa de sua mulher, que não era recebida. Diz o texto que ele “escapara por artes de amor”, contra as quais seu pai nada podia. Porque o próprio Iô Liodoro “bem conhecia um espumoso reino de feitiço e fadas, de que ele mesmo dependia”.

Aos poucos aparecem mais as mulheres da cozinha, espécie de coro feminino que vai tecendo a crônica da casa e de seus moradores. Repositório de histórias do passado, trazem a sabedoria ancestral destilada em ditados e provérbios, quando não em receitas culinárias ou pela ciência de sobreviver numa fazenda autossuficiente no sertão.

As lindas moças, após encherem o texto de feminices e faceirices, acabam por revelar sua sexualidade, até então velada, só no finalzinho do entrecho, dando ao leitor saber muitas coisas que estavam camufladas. Nesse final, a rezadeira Maria Behú, virgem e pura, morre, presumivelmente de alguma vaga moléstia do coração.

A novela é relato portentoso de uma mulher que viveu com quatro homens ao mesmo tempo

No mesmo lance, insinuando correlações, o Chefe Zequiel — uma das mais extraordinárias personagens de Guimarães Rosa, que nunca dormia, ouvindo os rumores da noite, que o avisavam de perigos indistintos mas bem reais — dorme uma noite inteira pela primeira vez, aparentemente curado de sua insônia e de seu medo da noite. No cinema, Zequiel foi vivido pelo cantor Milton Nascimento, em performance rara e inesquecível de Noites do sertão (1983).

Enquanto isso, o suposto prometido Miguel vem vindo da cidade, em demanda da mão de Maria da Glória.

Pares

A revelação da sexualidade forma dois pares, ambos regidos pela incongruência. Um dos pares é constituído por Glorinha e nhô Gualberto, separados pelo status social e pela falta de atrativos dele, para dizer o mínimo: ele é até meio repulsivo, de olhos gulosos. Mas era o único macho disponível. O outro par, Lalinha e Iô Liodoro, é pior ainda, pois viola o tabu do incesto, unindo nora e sogro. O leitor não assiste à chegada de Miguel — a novela termina antes —, mas tudo se encaminha para um final feliz, com regresso de Lalinha à cidade e núpcias no horizonte para Miguel e Glorinha. Embora fique pairando no ar a curiosa história de Dô-Nhã, carregada no excesso de sexualidade que a novela até então disfarçara: as pulsões eróticas estão contidas, sublimadas ou meramente reprimidas.

Narrada e recebida sem espanto, a história não causa espécie a ninguém, salvo quando paramos para pensar. Pois é relato portentoso a história de uma mulher que viveu maritalmente com quatro homens ao mesmo tempo, devido a circunstâncias perfeitamente justificáveis que determinaram seu isolamento no fundo do sertão. É uma fábula de feminilidade elevada à enésima potência, um verdadeiro exagero, um correlato da masculinidade de Iô Liodoro.

O relato de Dô-Nhã, que ela fizera com toda a singeleza, como que abrira um abismo no tecido rotineiro da fazenda. Aí é que o leitor percebe que toda a aparente louvação de certa pureza, que não é bem definida, é ilusão de quem não quer ver.

“Buriti” não louva o convencional, o doméstico, a paz bucólica; muito pelo contrário, expõe com naturalidade o excesso, a desmesura, a transgressão.

A palmeira gigantesca é sem disfarce um símbolo fálico na novela. É associada ao afrodisíaco, à virilidade, a Iô Liodoro, que, em sua viuvez, sai todas as noites à cata de mulheres. Ninguém discute, nem sequer põe em dúvida, seu poder de fazendeiro, que emana simultaneamente de sua opulência (mesmo à maneira parca e frugal do sertão) e de seu sexo. E o buriti é seu ícone.

Mas o autor tinha outras armas em sua panóplia. E vamos encontrar em Grande sertão: veredas o outro lado da unidade completa. Ali, o buriti é feminino, aparecendo associado não ao homem, mas à mulher. Sempre que se fala de Diadorim ou de Otacília, essas personagens aparecem cercadas de buritis. Até a mãe de Riobaldo, raramente aludida, é associada ao buriti. Otacília mora na fazenda do pai, situada nos Buritis-Altos, e não por acaso ali há abundância de buritizais.

Insistentemente, Diadorim é pretexto para a evocação da palmeira, seja pela cor dos olhos — verdes —, seja por outras razões. À notícia de sua morte, Riobaldo reage exclamando: “Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus-buritizais levados de verdes…”, em associação aparentemente desconexa ou sem razão.

Os topônimos abundam no romance, já previstos mesmo no título, pois onde há veredas há buritis, que, segundo o texto, nelas mergulham os pés. A existência de água e portanto de abundância, pois a água atrai flora e fauna, é sinalizada pela silhueta à distância da fieira de buritis, visão que alegra os ânimos pela promessa de fartura. Os topônimos se sucedem. O nome da fazenda de Iô Liodoro é Buriti­-Bom. No romance há Bom­-Buriti, Buriti-Comprido, Buriti­–Mirim, Buriti-da-Vida, Buriti-Pintado, Vereda do Buriti Pardo, entre outros.

Mineiridade

A primeira edição de Corpo de baile traz na orelha um clássico dos mineiros, o poema em prosa “Buriti perdido”, de Afonso Arinos. É bom lembrar que essa menção direta ao tema do buriti surgiu na publicação do livro em 1956, quando Brasília estava em construção e cheia de mineiros, o que seria a nota da gestão do mineiro Juscelino Kubitschek. Foi ele quem presidiu a criação, em Brasília, da Praça do Buriti e do Palácio do Buriti, com o poema de Arinos alçado a parietal em seus muros.

Guimarães Rosa não estava sozinho nesse culto em que fiéis do mesmo credo tinham por talismã a Mauritia flexuosa, o buriti dos cerrados e chapadões. Brasília foi inaugurada em efeméride de outro mineiro, Tiradentes, em 21 de abril de 1960. E foi em 1957 que Rosa publicou em revista “Minas Gerais”, seu mais apaixonado texto sobre a mineiridade, depois recolhido em Ave, palavra (1970).

Voltando ao romance: num ponto máximo de transcendência, o buriti é associado à poesia e é ao pé de um exemplar da árvore que Riobaldo compõe seus primeiros versos. É pretexto para o surgimento de quadrinhas de loas, como esta, que, por meio de seu signo identificador — os olhos verdes —, também evoca Diadorim:

Buriti, minha palmeira,

lá na vereda de lá

casinha da banda esquerda,

olhos de onda do mar

Na insistência em associar o buriti ao feminino em Grande sertão: veredas, a palmeira aparece como nutriz, mãe, noiva, companheira, amada. Conota paz e serenidade no intervalo dos combates. Repouso e regeneração vital, com água e bons pastos, são sua promessa quando avistada ao longe. Assim, quando menos esperamos e sem qualquer insinuação da androginia tão atribuída à obra de Rosa, temos o buriti só masculino em “Buriti” e só feminino em Grande sertão: veredas, ambos publicados em 1956. Sutil tratamento paralelo de gênero: artes de grande escritor.

Quem escreveu esse texto

Walnice Nogueira Galvão

Organizou a edição crítica de Os Sertões (Ubu), de Euclides da Cunha.

Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “Buriti: feminino/masculino”

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