Literatura brasileira,
Uma neblina constante
De donzela-guerreira a não binariedade, Diadorim tensiona as fronteiras entre gênero, desejo e identidade há setenta anos
01ago2026 | Edição #108
“Pois então: o meu nome, verdadeiro, é Diadorim… Guarda este meu segredo.”
A esta altura, setenta anos após a publicação de Grande sertão: veredas, é difícil encontrar quem, mesmo não tendo lido o livro, não conheça o segredo de Diadorim, personagem que mobiliza grande parte da odisseia sertaneja criada por João Guimarães Rosa. Ainda assim, a revelação catártica que encaminha o desfecho da história não representa um fim em si mesmo. Diadorim segue provocando interpretações diversas em quem se dedica a vencer as mais de quinhentas páginas do monólogo de Riobaldo, o narrador que nos apresenta ao universo dos jagunços, a Deus e ao Diabo na rua, no meio do redemunho.
Já no início da sua contação, Riobaldo antecipa que alcançar os contornos da personagem seria uma das partes mais difíceis da travessia pelo sertão rosiano, e afirma: “Diadorim é a minha neblina”. Malgrado o nevoeiro que envolve suas lembranças, ele também a nomeia de O Menino e Reinaldo — por fim, depois de morta, conhecemos Maria Deodorina, a “que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor”.
Ao longo das décadas, a personagem de Rosa foi interpretada de diferentes formas pela crítica
Ao longo das décadas que sucederam a publicação do romance, a personagem de Rosa foi interpretada de diferentes formas pela crítica: a donzela-guerreira, a mulher travestida que estimula o amor homoerótico de Riobaldo — mais recentemente, algumas leituras situam Diadorim na transgeneridade, conferindo a ela desde uma identidade transmasculina até a identificação de uma pessoa não binária, que foge às classificações hegemônicas de gênero. Ao mesmo tempo, nenhuma delas parece fechar uma conta exata sobre quem é a personagem.
Palas Atena
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Palas Atena, na mitologia grega, é a filha que nasce do pai sem participação efetiva de uma mulher. É a partir dessa alegoria que muitos entendem a criação de Diadorim enquanto personagem que corporifica o mito da donzela-guerreira: filha de Joca Ramiro, o grande chefe dos jagunços, ela abdica da sua condição feminina para estar ao lado do pai, presumindo-se sua sucessora na falta de um filho homem. Daí se tornar Reinaldo, o guerreiro bravo e destemido, encouraçado e escondido em suas armaduras de jagunço.
Foi Walnice Nogueira Galvão, crítica literária e professora emérita da USP, que, na década de 1990, lançou pela primeira vez um olhar que acolhesse as questões de gênero na obra de Guimarães Rosa. No sertão do norte de Minas Gerais e do sul da Bahia, em meio às normas da jagunçagem, que transformam as mulheres em espólio e corpo a ser violado, Diadorim se acha impedida de exercer sua feminidade e encarna a guerra, passando a se alimentar de vingança depois que o pai é assassinado em uma emboscada tramada pelos próprios aliados.
O que se vê é que Riobaldo queria amar, mas “Diadorim só falava nos extremos do assunto. Matar, matar, sangue manda sangue”. Então, enredado pela paixão que sentia pelo companheiro de armas, ele se vê impelido a aplicar a sentença contra Hermógenes e Ricardão, os dois judas da história. A pressa para chegar ao fim da guerra e viver em paz com seu amor é o que leva Riobaldo ao encontro do Diabo, tornando viável o pacto que movimenta suas inquietações metafísicas e morais no romance.
Mas é Diadorim quem protagoniza o duelo final com Hermógenes, no qual mata e morre. Só aí sua verdadeira identidade é revelada e Riobaldo descobre que amou uma mulher durante todo o tempo. Essa leitura, orientada pela figura da donzela-guerreira, é interpretada pela chave da tradição literária, algo que é reconhecível em vários aspectos do romance, segundo Danielle Corpas, professora de teoria literária da ufrj.
A referência tem inscrição na literatura medieval, na tradição greco-romana, na literatura oral e em personagens como Joana d’Arc. “É um motivo literário com um lastro histórico muito extenso”, afirma Corpas. E a vida de Rosa por si só justificaria essa escolha: curioso até o último fio de cabelo, o escritor mineiro manteve uma vasta biblioteca, com mais de 2 mil livros e periódicos em diversos idiomas, os quais alimentaram suas ideias e a disposição para criar os neologismos, que se tornaram sua marca.
“O que considero importante na discussão de gênero, nos termos em que ela se coloca hoje, é não perder de vista o acúmulo crítico que temos em relação ao solo histórico de que o romance se alimenta. Esse contexto está presente, é constitutivo da obra e é muito decisivo para compreender essa exposição pública de Diadorim como homem”, explica a professora.
Corpo oprimido
“Diadorim, uma mulher? Só depois de morta.” Essa é a leitura da filósofa e professora Marcia Tiburi. Em suas pesquisas sobre as representações femininas na literatura, há uma constatação um tanto mórbida: muitos escritores, incluindo Guimarães Rosa, colocaram em prática o que Edgar Allan Poe disse, no século 19, sobre o motivo mais poético do mundo ser uma bela mulher morta.
A façanha de matar Hermógenes, vingar o pai e pôr termo à guerra enquanto se apresentava como Reinaldo pode até fazer jus ao arquétipo da donzela-guerreira, mas não alça Diadorim à condição de heroína. Sua valentia desaparece frente ao deslumbramento com o seu cadáver no momento em que se revela “o corpo de uma mulher, moça perfeita”.
Para Tiburi, trata-se de colocar em tela um sentimento que se organiza como uma fórmula de sucesso para a contemplação masculina e, mais do que isso, devolvê-la à sua “natureza de mulher” — esse é o ponto que abre a possibilidade de uma leitura biopolítica de Grande sertão: veredas. “Toda a história de Diadorim é a de um corpo oprimido, envergonhado e ameaçado, de um corpo que não tem lugar”, afirma.
‘Diadorim, uma mulher? Só depois de morta’ — essa é a leitura da filósofa Marcia Tiburi
Dialogar com a ideia dos papéis de gênero, mesmo no Brasil de 1956, ano de publicação do romance, não é nada fortuito em se tratando de Rosa. Nas andanças pelos arquivos do escritor, no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, o professor e pesquisador Leandro Bessa encontrou dois exemplares da revista francesa Les Temps Modernes, de 1949, nos quais Simone de Beauvoir publicou um texto que hoje integra O segundo sexo, que inaugurou um novo momento nos estudos feministas.
Na época em que se debruçou sobre os escritos da teórica francesa, Rosa morava em Paris, trabalhando como diplomata, e já articulava a ideia do livro. O escritor mineiro leu Beauvoir com visível interesse, deixando marcações e trechos sublinhados. Um deles destaca a observação: “Há em seu ato sexual um sabor de heroísmo”, em que a filósofa analisa a sexualidade masculina como um campo marcado pela ideia de conquista e por certo vocabulário militar, no qual o homem assume o papel de conquistador e a mulher, o de objeto conquistado.
Para Bessa, não é anacrônico perceber que Guimarães Rosa, para além da tradição, também estava operando temas contemporâneos no romance, sobretudo as questões relacionadas à dimensão social de paridade entre Riobaldo e Reinaldo no contexto da jagunçagem.
“O que estava sendo proposto ali era justamente a transcendência desse espaço doméstico. Diadorim mantém-se consciente da sua condição, que é exatamente a impossibilidade de viver plenamente esse feminino em um sertão violento, patriarcal e conservador”, afirma.
Gênero travessia
No Brasil de 1980, Bruna Lombardi era o referencial mais próximo do que seria a mulher perfeita em termos de beleza. A profundidade do seu olhar turquesa parecia a moldura exata para os olhos verdes de Diadorim, tão esmerados no retrato que Riobaldo faz da personagem. Então, a atriz e escritora foi a escolhida para interpretar o jagunço na minissérie adaptada pela Globo, em 1985. Travestir-se de homem no contexto da obra impactou-a de tal forma que até o seu ciclo menstrual ficou em suspenso, disse a atriz em uma entrevista — a experiência foi relatada no seu Diário do Grande Sertão, reeditado este ano pela Autêntica.
‘Uma personagem-encruzilhada, sobreposição de uma série de elementos’, diz Leandro Bessa
Mas a escolha pela atriz revela uma tentativa de fixação do gênero da personagem, segundo a interpretação da designer Sofia Barrozo, que decidiu enveredar-se pela cultura visual criada em torno da obra. Diadorim é mulher cis? É homem trans? É não binárie? Para responder a tantas questões, a pesquisadora apoiou-se na ideia de travessia, tão explorada pelo próprio Guimarães Rosa, e recorreu à teoria queer de Judith Butler, que define o gênero como uma construção social e não uma determinação biológica.
“Temos a figura que habita o entre. Diadorim parece existir exatamente nesse espaço intermediário. Não está em uma margem nem na outra. Está no meio do rio. Está na travessia”, afirma. Ao contrário de Reinaldo e Maria Deodorina, Diadorim é um nome que não denuncia gênero, reafirmando o caráter de indefinição. E não só isso: é o nome que a própria personagem adota para si.
Seja por artimanha do narrador para confundir ou pela incompreensão genuína, é verdade que, mesmo após a morte de Diadorim, Riobaldo parece não ter certeza sobre o pronome ideal com o qual tratar seu amor, mantendo o “ele” como escolha em grande parte do livro. “O Reinaldo era Diadorim — mas Diadorim era um sentimento meu”, diz.
Esse é o aspecto pelo qual muitas interpretações buscam explorar o caráter homoafetivo do romance. A quem Riobaldo amou? O homem que escondia uma mulher? Ou a mulher vestida de homem? Para tratar dessas indagações, Leandro Bessa recorre ao trecho no qual o próprio narrador exalta as características que o atraem no companheiro e observa a virilidade com que ele “segurava a rédea e o rifle, naquelas mãos tão finas”. Linhas depois, Riobaldo confessa que buscou aliviar-se com “dura mão” dessa atração sem medida, “ao que me veio uma ânsia” que o fez querer lavar o corpo, em um claro conflito com sua heterossexualidade.
Bessa lembra que, já no primeiro encontro entre Diadorim e Riobaldo, ainda adolescentes, no rio São Francisco, a personagem se apresentava com postura e vestimentas masculinas, não sendo apenas uma escolha para ir à guerra.
“Diadorim é uma personagem-encruzilhada, porque resulta da sobreposição de uma série de elementos”, diz. “Do ponto de vista do gênero, talvez possamos perceber Diadorim nessa dimensão da transcendência, como alguém que ultrapassa aquilo que está posto.” Para o professor, a personagem permanece na neblina, com morada fixada na ambiguidade.
A despeito das interpretações, dias antes da posse na Academia Brasileira de Letras, em 1967, o escritor decidiu pôr fim ao mistério e entregou tudo de bandeja a Afonso Arinos, episódio registrado nos diários de Josué Montello: “Uma noite, [Rosa] foi me visitar. Trazia-me uns dados novos, para ver se eu os queria aproveitar. E de repente, com o dedo em riste diante dos lábios, e depois de olhar em volta, para certificar-se de que estávamos sós, ele fez esta confidência: ‘O Diadorim do Grande sertão sou eu. Mas isto é só para você’”.
Assim como Riobaldo, o escritor mineiro gostava de provocar certa epifania em seus interlocutores. Em outra ocasião, disse a Haroldo de Campos, durante um congresso literário em Nova York, em 1966, que, para escrever Grande sertão: veredas, recorreu a um recurso diabólico: “Quando me vem o texto, eu fico nu, rolo no chão, luto com o demo de madrugada no meu escritório e, naquele impulso, eu escrevo”. Para o poeta concretista, naquele dia Rosa “estava particularmente endemoniado”. Mas o Diabo existe? “Nonada. […] Existe é homem humano. Travessia.”
Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “Uma neblina constante”
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