O escritor Geovani Martins (Ana Alexandrino/Divulgação)

Literatura brasileira,

Livro ‘O sol na cabeça’ é alvo de censura silenciosa, diz Geovani Martins

Escritor relata casos de banimento em escolas e bibliotecas como as da rede Sesi de ensino no Rio; instituição nega que a obra tenha sido retirada

24set2026

O escritor Geovani Martins, autor de O sol na cabeça e Via Ápia, ambos publicados pela Companhia das Letras, fez um alerta nas redes sociais para casos de retirada de seus livros de bibliotecas e programas de leitura da rede pública de ensino.

Em postagem publicada em 11 de setembro no Instagram, o autor compartilhou uma mensagem que recebeu de um professor da rede Sesi, vinculada à Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), relatando a censura da coletânea de contos O sol na cabeça. Na mensagem, Martins é informado de que todos os exemplares do livro teriam sido retirados de dezessete bibliotecas de escolas da rede após reclamações de pais de alunos. 

Lançado em 2018, O sol na cabeça aborda de forma original e direta o cotidiano de jovens que vivem em periferias, a partir de experiências de violência policial, tráfico de drogas e racismo. A publicação, que está na 17ª reimpressão e ganhou traduções em dez países, foi uma das cinco finalistas do Prêmio Jabuti de 2019 e venceu o Prêmio Rio de Literatura daquele ano na categoria Prosa de Ficção.

Leia também
Livro de estreia de Geovani Martins é mosaico de imagens cintilantes e sombrias

(Ana Alexandrino/Divulgação)

Segundo o autor de 35 anos, o recente caso de exclusão da obra não é novidade.“Não foi a primeira vez que isso aconteceu”, diz o escritor, que começou a falar do assunto publicamente em uma postagem de 3 de setembro, apontando uma “censura silenciosa” a seu trabalho. 

“Isso abriu uma porta enorme para outras pessoas da educação me procurarem e contarem suas histórias em relação a tentar trabalhar O sol na cabeça ou Via Ápia em sala de aula”, relata Martins.

‘Denúncia’ ao MEC

Em 10 de fevereiro de 2025, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) solicitou explicações ao Ministério da Educação a respeito da inclusão de O sol na cabeça na lista de leituras do 1º ano do Ensino Médio do Colégio de Aplicação João XXIII, vinculado à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

De acordo com o requerimento protocolado na Câmara dos Deputados, o parlamentar recebeu uma denúncia com relatos de que a publicação adotada como material didático para adolescentes “contém trechos manifestamente inadequados para menores de idade, incluindo linguagem vulgar, referências explícitas a pornografia e diálogos sexualizados”, diz o documento.

A Firjan, responsável pelo sistema Sesi de ensino, tem cerca de oito mil alunos matriculados em quinze unidades do estado. Em nota, a instituição informou que “o livro O sol na cabeça não foi retirado das bibliotecas das escolas Firjan Sesi”.

A Companhia das Letras, responsável pela publicação das obras de Martins, repudiou as ações de censura. Em comunicado enviado à Quatro Cinco Um, a editora manifestou “indignação diante das tentativas de censura que o livro O sol na cabeça, de Geovani Martins, vem sofrendo”. 

A casa editorial também afirmou que está acompanhando os casos relatados e prestou “apoio ao autor para atuar contra qualquer ato de limitação à leitura de seus textos”. A nota da editora também ressalta que “a censura a livros em contexto escolar é um movimento que afronta o direito à educação dos estudantes, sobretudo em anos eleitorais. O direito à literatura dentro da escola deve ser preservado e é imprescindível para a formação de cidadãos plenos”.

Ficção e política

Os casos de censura, ressalta Martins, são uma afronta ao pensamento crítico e à reflexão sobre o impacto da ficção no cotidiano dos estudantes. Para o autor, a tentativa mais recente de banimento evidencia que as treze narrativas que compõem O sol na cabeça sobreviveram à passagem do tempo e acompanharam as transformações políticas.

Ele defende que isso as credencia para formar jovens críticos. Histórias como “Rolézim”, “Estação Padre Miguel” e “Travessia”, presentes no livro, já integraram a lista de leitura obrigatória de diversos vestibulares — atualmente, O sol na cabeça é uma das obras exigidas pelo vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR) de 2027.

“Quando o professor leva o meu trabalho ou o trabalho de qualquer outro autor, ele está respaldado por uma história que ele tem com mediação de leitura, ele está respaldado por críticas literárias, ele está respaldado muitas vezes por vestibulares, como é o caso de O sol na cabeça”, diz Martins. “É uma obra que tem uma relevância em diversos contextos, tanto na educação quanto no estudo mesmo da linguagem, acho que envolve isso tudo.”

As narrativas do livro são baseadas em experiências vividas e observadas pelo autor, nascido em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro — atualmente, ele vive na favela do Vidigal, na Zona Sul da cidade. Os contrastes entre regiões do Rio e a infância e a adolescência em escolas públicas fazem Martins considerar a influência das políticas públicas de inclusão social e a lei de cotas como fundamentais para a abertura das perspectivas de ensino. 

Ele acredita que muitos professores e professoras de hoje viveram um processo de ascensão social proporcionado pela educação e isso alterou a abordagem das leituras para um repertório mais amplo.

“Isso claramente tem a ver com política de rodas, claramente tem a ver com Prouni, claramente tem a ver com professores que foram formados pela escola pública e agora estão retornando para a escola pública. Então, quer dizer, existe outro tipo de atenção a esses jovens [estudantes] e uma vontade muito genuína de abrir novas perspectivas.”

Leia também
Via Ápia causa indignação no leitor ao relatar o cotidiano da Rocinha sob controle das UPPs

Martins ainda observa como consequência uma oferta maior de textos que utilizam gírias ou retratam modos de vida de diferentes classes sociais — o que, segundo ele, é motivo de disputa. 

O autor chama atenção para a importância da literatura como território político. “Se está difícil hoje discutir política, imagina daqui a quinze, vinte anos, com uma turma de jovens formada com esse currículo atacado pela censura”, diz. “Se a gente quiser ter uma discussão política decente, as pessoas têm que sair da escola com a mínima noção do que é o Brasil, do que é um texto literário, do que é a nossa língua e de como tudo isso se articula no aspecto político.”

Quem escreveu esse texto

Mariana Moreira

É jornalista e roteirista carioca. Atua nas coberturas de cultura, gênero e direitos humanos.