Literatura,

Prosa a pino

Livro de estreia de Geovani Martins é mosaico de imagens cintilantes e sombrias

20nov2018 - 11h43 | Edição #11 mai.2018

O sol na cabeça anuncia desde o título as condições meteorológicas da estreia de Geovani Martins. Ao longo de treze contos, a caxanga derrete, alguém pega uma cor na carcaça, geral suado, tudo escaldado, o sol espalha o cheiro forte, estala e machuca, o cérebro frita, alguém queima um baseado na praia ou no beco, a boca é quente, a brisa, lisérgica. Nas favelas cariocas, no deslocamento entre a pista e o morro, o clima é tenso — e não é de calor, afinal, que se morre. 

A sensação térmica e a incidência luminosa de repente variam. Depois do barulho dos tiros vem a escuridão, as luzes se apagam, o menino arde no banheiro da escola, o suor escorre frio, o corpo inteiro gela. “A noite tinha acabado de cair, e quando o consumo era liberado era esse o horário de pico”, conta o narrador de “Estação Padre Miguel”. “Tem dias que faz sol até de noite”, constata um outro.

Sem ser o título de nenhum dos contos, O sol na cabeça, como imagem que cobre o conjunto, ressalta uma de suas características centrais: lançar luz sobre o que vai dentro da cabeça dos protagonistas. Com construções e desfechos-chave que ficam por conta da imaginação do leitor.

O ritmo acelerado presentifica a narrativa, em geral marcada pelo tempo de um passado recente, porque visto pelo ângulo de meninos e jovens. Uma personagem mais velha, como dona Iara, é evocada pelas reminiscências infantis. “Vem de lá o cheiro de macumba”, lá da casa de uma das senhoras mais antigas da rua, onde as crianças “tremem de medo sincero, e aproveitam juntas cada segundo desse terror de primeira infância”. 

O infante, etimologicamente o que não fala, ganha voz no conto, mas precisa guardar entre amigos o segredo de que pais evangélicos e testemunhas de Jeová já recorreram ao terreiro. “O mistério da vila” retrata ainda o que restou, recalcado, de uma experiência religiosa sincrética, anterior ao predomínio das igrejas pentecostais.

As histórias com começo, meio e fim abrupto, sem tempo para a duração, paradoxalmente dizem de uma construção — toda ela ruína, como canta Caetano — que se estende às bases e ao desenrolar de nossa história como país, ainda que se passem nas primeiras décadas do século 21. Sua brevidade ganha espessura na memória de quem sobreviveu à própria infância, tem no máximo vinte anos de idade e transmite ao “menó”, interlocutor-ouvinte, saberes que não estão escritos em lugar nenhum. Não à toa, a oralidade é a marca e a espinha dorsal de “Rolézim”.

O livro é repleto de órfãos e desaparecidos. O pai do velho Matias desapareceu quando ele tinha seis anos

Há uma dinâmica bifocal entre os planos narrativos. O foco na movimentação das interioridades é paralelo ao da ação no plano exterior. Pelos olhos de meninos mais velhos, questionadores de infernos, ou mais novos, as trevas são varadas de claridades.

Nessa sondagem de subjetividades que o contista realiza a partir de situações concretas, apreende-se certa perspectiva solar dos personagens, o que não se confunde com um olhar romântico sobre a própria condição. Trata-se de uma lucidez sobre si que é anterior aos estereótipos e se expande para além deles.

Os lugares-comuns desses meninos e jovens são os de quaisquer outros: sonham em ser piloto, jogador de futebol, técnico de informática, fazer sucesso com a turma, experimentar as possibilidades ao alcance de seus corpos. O lugar que os diferencia é o endereço onde moram, conhecido por suas mazelas. Onde os sonhos soam vãos, imensos vãos entre a plataforma e o trem lotado em que tentam embarcar (“Sextou”); onde o moleque com um punhado de maconha é forçado por um tenente de UPP a pular numa vala (“A história do periquito e do macaco”). 

Mães e pais

São meninos, não importa se menores de idade ou não, às voltas com a onipresença das mães. Impera o temor de decepcioná-las, de fazê-las sofrer mais do que já sofrem. Os filhos carregam as palavras de repreensão materna como oração para livrá-los do mal. Nem sempre funciona. 

Há também a presença do pai, tantas vezes a presença de uma ausência. O livro é repleto de órfãos e desaparecidos. É o caso do velho Matias. Seu pai desapareceu quando ele tinha apenas seis anos. Teria “caído na vacilação”. Os passageiros pensam que o menino a seu lado é filho dele, o que faz aumentar as esmolas (“O cego”).

O desaparecimento também marca a sina do primo de quem Mingau herdou uma revista pornô em “Roleta-russa”. Paulo, o protagonista, não se interessa. Seu “mundo girava de maneira diferente”, nas voltas que dá o tambor do revólver que o pai, segurança noturno, leva para o quarto com banheiro em que moram. Enquanto Almir dorme pela manhã, o filho brinca com a arma, sem que ele suspeite. Interrogado sobre o desafio de criá-lo sem mãe, diz não confiar “em relações orquestradas pelo medo”. No conto, a onipresença da arma esboça um paralelismo com a falta materna.

Em “Travessia”, ao cruzar uma área de milícia para chegar ao lixão e se livrar de um corpo, Beto se pergunta: “Será que tem família um cara desses?”. O narrador completa: “E com isso logo se lembrou da própria mãe”. 

Por sua vez, o pichador de “O rabisco” pensa em largar o pixo por causa do filho, mas insiste na ânsia de marcar a cidade com suas letras e tintas, evocando uma autoria incômoda sobre a propriedade. No alto de um prédio, confundido com um ladrão, recorda o vício do pai morto. Deseja exercer outro tipo de paternidade. Encurralado pela polícia, está ciente de que porrada mata. “Impossível esquecer o tanto de amigo que se foi depois de apanhar na pista.” 

A tortura e a perseguição correm soltas, impregnadas da “poeira de outras épocas” — imagem com a qual topamos em “Espiral”. Nele, um garoto que caminha pela Gávea nota que causa medo aos transeuntes. Justo ele, que na escola não assusta ninguém. Inicia uma investigação. O resultado vale uma aula de antropologia urbana ou de história em versão não oficial, sendo, sobretudo, literatura. Conto-nocaute que, como sugere o título, gira em torno de um eixo decisivo ao qual sempre se retorna, sendo ao mesmo tempo apenas o começo de tudo. Assim como este baita livro de estreia.

Quem escreveu esse texto

Luciana Araujo Marques

É doutoranda em teoria e história literária na Unicamp.

Matéria publicada na edição impressa #11 mai.2018 em junho de 2018.