A escritora Carla Madeira (Marcia Charnizon/Divulgação)

Literatura brasileira,

Ferir e punir

Ao centrar romance em mãe que denuncia o próprio filho, Carla Madeira reflete sobre violência, trauma e punitivismo

09set2026

Do sudeste de Minas Gerais, vieram Rubem Fonseca, Carlos Drummond de Andrade e Edimilson de Almeida Pereira. Do oeste, Adélia Prado. O interior nos deu Carolina Maria de Jesus, Ziraldo, Ana Maria Gonçalves e Adão Ventura. Da região central, Guimarães Rosa e Conceição Evaristo. Estado com vocação paradigmática, Minas também é berço da autora mais lida do país: Carla Madeira.

Após Tudo é rio (2014), A natureza da mordida (2018) e Véspera (2021), a escritora de Belo Horizonte publica seu quarto romance, em que, por meio de diferentes narradores e entrelaçando um par de décadas entre a nostalgia, a ruptura e a tensão, acompanha Viridiana, uma mãe que denuncia o próprio filho à polícia.

Viridiana nos é apresentada como uma viúva resoluta e mãe amorosa. O anúncio da denúncia, presente na quarta capa do livro, nos leva a vasculhar o texto em busca de uma personagem cruel, vaidosa, talvez narcisista. Ela, ao contrário, mostra-se humana, imperfeita, repleta de feridas que também ferem os outros. Já na primeira cena, quando Tito, o suposto criminoso, é ainda bebê, somos levados a pensar que o erro desse homem será confiar demais na própria mãe — aquela que, com olhos amorosos, autoriza os enfermeiros a perfurarem sucessivas vezes as pernas de um bebê. Ora, as mães traem os filhos o tempo todo; os filhos, por sua vez, não cessam de iludir as mães.

Tito logo se mostrará um homem não apenas devoto, mas dependente do afeto materno. Ele, que perdeu o pai quando ainda era menino e que parece não ter construído grandes afetos com outros homens, terá aí o seu calcanhar de aquiles. Aliás, pouco sabemos sobre o interior dos personagens de Quando em sua própria voz. É a relação com os outros que nos revela essa interioridade, o que evidencia também as relações de poder entre membros de uma mesma família.

Ao ser entregue à polícia, Tito ensaia desaparecer da narrativa. As finas fronteiras temporais são intercaladas pela aflita contagem regressiva para o reencontro que, vinte anos após a denúncia, gera abalos sísmicos no corpo de Viridiana. A mulher, agora idosa, geme e se contorce de dor. O trauma feriu irreversivelmente o corpo da mãe. O que ela guardou para si, nos mais profundos cantos de sua memória, afetou profundamente seu sistema nervoso.

Tito foi cruel, inconsequente e violento. O que acontece não nos deixa dúvidas. Parece-me, contudo, que o motivo de sua ação é a crença de não ter nenhuma responsabilidade pela forma como reage aos próprios sentimentos. Ele se comporta como um menino mimado, como um homem branco dentro do padrão. A diferença é que, dessa vez, será punido de forma torpe.

Não sei se foi desatenção minha, mas demorei a entender a gravidade do que havia ocorrido com Tito. Não compreendi de primeira. Pensei ser figura de linguagem a frase dita pelo policial, a forma exasperada como reprimia o ajudante. Páginas depois, quando o assunto era outro e as cenas já haviam se misturado, pude ver o que sempre esteve lá. E talvez esta seja uma das grandes verossimilhanças de Quando: o trauma se mostra sem se revelar.

Ao sabermos o que Tito fez e o que ele sofreu de volta, somos instados a opinar sobre a medida ideal de punição que cabe àquele adolescente branco de classe média.

Quando foi apanhado pela polícia, em 1986, vivia-se o primeiro ano após o fim da ditadura militar. O jovem foi posto na cela de uma delegacia de Belo Horizonte junto a figurantes que se mostrarão imorais. O que lá ocorre é incapaz de remediar a violência praticada por Tito, tampouco responsabiliza o personagem e entorno que o ensinou a ser um homem que briga pela própria honra. E a honra, para os homens héteros, é nunca perder a sensação de posse, de domínio sobre o outro.

A honra, para os homens héteros, é nunca perder a sensação de posse, de domínio sobre o outro

Se algumas horas em uma delegacia foram o suficiente para traumatizar Tito, imagine o que seria adentrar um presídio ou, como Angela Davis prefere chamar, um complexo industrial penal. Muitos estudos mostram que as prisões não eliminam o crime; apenas produzem reincidência e estigmatização. Já nos anos 70, Michel Foucault nos alertava que o sistema penitenciário servia para catalogar e gerenciar os ilegalismos de maneira lucrativa.

O Brasil tem, em números absolutos, a terceira maior população carcerária do mundo, e quase 70% dela é composta de pessoas negras. Entre 2000 e 2025, o número de pessoas privadas de liberdade aumentou 314,5%, taxa que não se converteu na tão idealizada “sociedade melhor”. Para os que têm boa vontade, a leitura de Quando pode ser o ponto de partida de uma reflexão sobre o punitivismo que perpassa cada instância de nosso país.

Suspensão

O romance cumpre a promessa de nos manter em constante estado de apreensão. Compromisso anunciado pela pintura Apprehensive, da canadense Rebecca Aldernet, que estampa a capa do livro: de pés descalços, uma mulher branca parece estar se despindo no banheiro quando o gesto é interrompido; não sabemos pelo quê ou quem, talvez nem ela o saiba. A senhora posiciona um dos braços na frente do corpo, de forma a segurar o vestido que insiste em cair. Ela espera. O tempo está em suspensão.

Na única nota de rodapé do livro, um direcionamento, uma chave de leitura:

Engrama — traço deixado no tecido nervoso por um estímulo marcante. Diz respeito não apenas a um acontecimento memorável, mas a uma experiência capaz de alterar para sempre a matéria senciente.

O termo poderia ter gerado estranhamento caso seu significado não fosse apresentado. Mas não há espaço para dúvidas. Há atalho. Uma escolha quase imperceptível que subestima o leitor e a leitura — ou teríamos nos tornado o tipo de leitor que exige ser subestimado? Talvez a escrita seja menos um gesto de se fazer entender do que de diálogo. Lemos para nos perder.

No romance, o eixo destinado ao estado de espera é atravessado pelo que a autora tem chamado de “baixo contínuo”: um som que anuncia uma espera que não pode ser pausada. Nesses trechos, não há pontos-finais, apenas vírgulas, e os parágrafos se iniciam em minúsculas. Quando o reencontro entre mãe e filho finalmente ocorre, o silêncio toma o texto, pincelando de vazio as páginas do livro.

As inquietações de Quando soam reais porque são imperfeitamente humanas. Reflete-se sobre o exercício da maternidade como uma via de mão dupla: aquela que é vivida pelos filhos em diálogo com aquela que é vivida pela mãe. E assim se expõe tudo que se pode dizer aos filhos e tudo que se pode dizer a uma mãe. Talvez estejamos diante do mais íntimo e honesto romance de Carla Madeira.     

Quem escreveu esse texto

Yasmin Santos

Jornalista e editora, é autora de Conceição Evaristo: voz insubmissa (Rosa dos Tempos).