Literatura brasileira,
Na vertigem do voo livre
Claudia Cavalcanti combina a experiência vivida e a imaginação numa viagem a caminho de um duplo destino, territorial e emocional
16set2026A epígrafe de Espaço aéreo, de Claudia Cavalcanti, é extraída da obra de W.G. Sebald e é eloquente: “Legamos nosso retrato mesmo sem querer”. Na breve frase está o fundamento da história de Suzana, protagonista do romance. Coerentemente, a narradora constata, já perto do final do livro: “Para quem nunca desejou herdeiros, legados chegam sem pedir licença”.
Suzana não quis mesmo obter qualquer herança nem legar nada a ninguém. Tampouco imaginou percorrer os dias difíceis que lhe couberam. Mesmo assim, recebe do passado um fardo que a envolve, espalha-se pelo presente, irradia no futuro, inscreve-se nas três dimensões do tempo.
Quem conta sua história é uma vizinha, narradora intrigante, cuja voz emula a da personagem principal. O leitor não sabe por que ela decidiu narrar as desventuras de Suzana, mas logo repara na facilidade com que penetra na consciência da amiga, acompanha seus passos, busca entender seus dilemas e suas decisões. Apesar de descrever seu papel como o de uma “estátua” ao lado de Suzana, a narradora recusa a fixidez e a neutralidade. Em parte do relato, seu estilo é informativo e sóbrio, recheado de dados técnicos e científicos sobre aeronaves, pássaros ou avanços da ciência, mas ela transita com facilidade para um tom mais informal e não hesita em opinar, questionar, julgar: aproxima-se e se distancia da protagonista, num movimento que rapidamente capta a atenção do leitor e o faz participante da trama e da vida de Suzana.
Uma narradora, enfim, com estilo e forte personalidade — evidentes, inclusive, no recurso reiterado de empregar expressões em outras línguas e sinais gráficos (sobretudo parênteses e travessões). Uma narradora que recolhe a experiência alheia e a combina com registros da memória individual e coletiva, que reconhece a diversidade das histórias que se escondem sob cada história particular — pluralidade que também caracteriza, no romance, a representação do espaço, palavra e dimensão presentes desde o título e que podem iludir o leitor.
‘Para quem nunca desejou herdeiros, legados chegam sem pedir licença’, constata a narradora
“Espaço aéreo”, afinal, é um conceito aeronáutico que define a grandeza da porção atmosférica acima de um território. Suzana desfruta, porém, de espaço bem mais restrito: o assento 9f dentro do avião em que embarca, a caminho de um duplo destino, territorial e emocional. Acomodada nessa poltrona, atravessa o romance e o espaço aéreo. No contraste entre amplidão e confinamento (confinamento que permite à protagonista buscar a amplidão), lê uma matéria de revista sobre um acidente aéreo de anos antes. Suzana tem obsessão por acidentes aéreos, e a revista é uma das heranças que lhe chegaram sem pedir licença: andava esquecida em sua casa, e, ao sair para o aeroporto, ela a vislumbra e a recolhe para ler no voo.
A leitura em pleno ar revolve a vida da personagem, leva-a de volta ao passado e a ajuda a decifrar o enigma dos dramas e das angústias que enfrenta. Ali estão pistas para compreender sua vida. Não por acaso, a belíssima imagem da capa, de Alex Cerveny, mostra um corpo feminino retorcido, solto no espaço e em movimento — ação própria, mas sempre associada ao que a rodeia. Em mais de um sentido, e sem anunciar o desfecho desse movimento, a imagem expressa os itinerários imprecisos que Suzana percorre, e talvez sua libertação.
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O romance recupera os percursos formativos da protagonista. Fala de seu passado para mapear as opções que fez e os obstáculos que encontrou, das metamorfoses pelas quais passou no casamento, da relação intensa com o trabalho. Fala de seu amadurecimento como mulher e da relação problemática com os resíduos do passado com que é forçada a lidar — sempre o fardo mais pesado nos é legado sem que tenhamos requisitado. Fala das muitas Suzanas que se acomodam juntas no assento do avião e se mantêm em suspensão, como a figura da capa, ao cruzar o espaço aéreo, numa metáfora também das viagens pelas intermitências do tempo e agruras da memória.
Território instável
Não é de hoje que Cavalcanti sonda as interseções entre temporalidades e a integração da memória individual com a coletiva. Já havia explorado essas relações perigosas nos dois livros anteriores: o provocador A vida dos outros e a minha (Cultura e Barbárie, 2021), que mistura o relato do período que morou na Alemanha Oriental com a recuperação e a divulgação dos registros antes sigilosos da Stasi, e o merecidamente celebrado Avenida Beberibe (Fósforo, 2024), que revisita a infância, investiga o território instável do passado familiar e entrelaça memórias íntimas e coletivas.
Agora, no novo romance, ela lança Suzana na espiral das temporalidades. Suzana destrói e reconstrói as próprias lembranças e o passado de Didier — o marido morto, biólogo e estrangeiro —, até finalmente tecer uma memória capaz de reunir as presenças desagregadas do casal, de parentes e amigos.

Espaço aéreo, como na canção “A linha e o linho”, de Gilberto Gil, borda com a agulha do real nas mãos da fantasia e mostra que, para contar uma história, é preciso combinar a experiência vivida e a imaginação, falar a verdade por meio de mentiras. Com imaginação, preenchemos as brechas deixadas pela realidade, aproveitamos a mistura de acasos e intencionalidades, produzimos significados. É assim que a ficção constrói a experiência. É assim que Suzana, por meio da leitura do artigo da revista, compreende o que antes parecia inconcebível e ultrapassa o zigue-zague do tormento para chegar à curva generosa da compreensão dela por si mesma, das heranças não autorizadas que recebeu.
Para o bem ou para o mal, legados independem de consentimento. Basta lembrar o verso-aforismo de René Char: “Nossa herança não é precedida de nenhum testamento”. Poeta preferido de Michel Foucault, certamente a leitura da poesia de Char colaborou para que Foucault esmiuçasse a forma insidiosa com que as tradições se imiscuem na vida e como é difícil desvendar os códigos adequados para enfrentar a persistência do passado e a opressão das experiências nossas e alheias — limitações e desconfortos que se disseminam pelas páginas do romance.
Não conhecemos o futuro de Suzana em terra firme, após cruzar o espaço aéreo e desembarcar. Dela sabemos o que a narradora quis contar a partir do recorte temporal e espacial quase unitário que elegeu. Personagens de ficção, de resto, só existem no texto que as engendra. Nada impede, no entanto, que o leitor fabule, dê continuidade ao livro, imagine libertações, redenções ou novas incursões pelo ar. Até para acreditar, num ato talvez piedoso, que as heranças inadvertidas podem orientar ou desorientar nossa vida, mas não determinam nossas ações nem impedem o florescimento da nossa consciência.
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