A FEIRA DO LIVRO 2026,
‘O corpo de quem sofre pertence a quem sofre’, diz Ana Claudia Quintana Arantes
Médica e escritora defende cuidado paliativo e incentiva conversas sobre a morte e o luto
07jun2026Quando é a hora de conversar sobre a morte? Para Ana Claudia Quintana Arantes, médica geriátrica especializada em dor e responsável pela estrutura de cuidados paliativos do Hospital Albert Einstein, o assunto deveria ser encarado com responsabilidade, sensibilidade e amor aos que sofrem.
No último encontro d’A Feira do Livro em parceria com a Folha de S.Paulo, mediadopelo jornalista Uirá Machado, a autora de A morte éum dia que vale a pena viver (Sextante, 2019) conversou a respeito da ética da finitude, contou casos comoventes de pacientes e disse que o luto não tem fim, mas há maneiras de lidar com a dor da ausência.
A marca de mais de um milhão de livros vendidos, somando os números desse livro aos de Histórias lindas de morrer (Sextante, 2020) e outros títulos, confirma a existência de um público cada vez mais interessado em compreender situações graves de saúde e a encarar perdas repentinas e fragilidades que acompanham o envelhecimento.
De acordo com o IBGE, o número de idosos cresceu 57% em uma década e, apesar de enfermidades não atingirem somente pessoas acima de 60 anos, Arantes afirma que a fragilidade do corpo surpreende em qualquer idade.
“A morte é um assunto dos vivos, e a gente colocou isso de uma maneira muito asséptica, aprisionada na UTI com horário de visita”, disse a geriatra. “Quem tirou isso das pessoas foi a medicina, em troca de uma promessa que nunca será cumprida, que é a vida eterna. Não falar não adia a morte.”
Morte assistida
Em Histórias lindas de morrer, Arantes detalha casos de pacientes que viveram esse processo por meio da abordagem do cuidado paliativo e conseguiram lidar com o sofrimento em situações fatais ou de cura.
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A autora explica que é comum a falta de compreensão da prática, mesmo entre os profissionais da área da saúde, e que o cuidado é um meio de alívio e também de prevenção. Arantes afirma que o método paliativo faz com que o paciente, os familiares e os cuidadores tenham experiências mais dignas diante da inevitabilidade da dor.
“O que a gente consegue no cuidado paliativo é o alívio do sofrimento. Mas a tristeza que está envolvida nisso, a emoção, a mudança física e o processo de dependência são condições humanas. E a gente vai poder viver isso de um lugar um pouco mais consciente. O corpo de quem sofre pertence a quem sofre”, defendeu.
Uma das histórias mais tocantes do livro, segundo a autora, é a de uma leitora que se tornou paciente e a procurou após descobrir um tumor, em 2021. O choque com o diagnóstico fez que ela fosse em busca de uma morte assistida.
“Era um quadro avançado e ela queria a morte assistida. Ia começar o tratamento de quimioterapia, mas não queria prolongar o sofrimento. Ela aceitou fazer o tratamento porque tinha a expectativa de ter qualidade de vida por mais algum tempo. Está viva e com a recidiva do câncer”, relatou Arantes. A médica explicou que a morte assistida é um procedimento proibido no Brasil e autorizado em apenas em dezesseis países, restrito aos cidadãos locais, com exceção da Suíça.
Ausência
Para a autora, todas essas preocupações e escolhas passam pelo desejo de uma morte com menos angústia, mas privilegiam uma vida mais amorosa. Ela acredita que o luto não tem fim e é preciso expressá-lo com afeto.
“Pensar na morte, na sua e das pessoas que você ama, faz com que você tenha a decência de expressar afeto com mais segurança, veemência, certeza e com menos medo e constrangimento. Porque depois que alguém morre, não adianta dizer que ama. O luto não acaba, o que melhora é a forma de lidar com a saudade e a dor da ausência.”
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.