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Fichamento: Tony Bellotto

Com ʽDomʼ, seu décimo livro, o romancista reflete sobre a possibilidade de tocar um coração oculto

09mar2020 - 08h00 | Edição #32 abr.2020

O escritor e integrante da banda de rock Titãs, Tony Bellotto, lança seu décimo romance, Dom (Companhia das Letras), baseado na história real de Pedro Dom, jovem de classe média que liderava uma quadrilha de assaltos a residências no Rio de Janeiro e foi morto pela polícia pouco antes de completar 24 anos, em 2005. Mesmo com um pé na realidade, a história ficcionaliza situações e personagens, procurando compreender as razões da escolha de Pedro Machado Lomba Neto de entrar para o mundo do crime. O livro ainda segue de perto o drama dos pais do jovem, Lúcia e Victor, em lidar com o vício em drogas do filho. Dom vai virar série televisiva que será transmitida pela Amazon Prime Video.

De onde surgiu o interesse para escrever sobre Pedro Dom, o protagonista de seu mais novo romance? É uma tragédia clássica, a narrativa de um personagem que é impelido pelo destino a um desfecho trágico do qual ele não consegue escapar. A luta do pai do Pedro, ex-policial que combateu o tráfico de drogas, para tirar o filho do vício e do crime é também muito tocante e reveladora.

Você fez algum tipo de pesquisa para escrever o livro? Foi um longo processo, que está completando dez anos. Em 2010, o Breno Silveira [que dirigiu 2 Filhos de Francisco] me procurou para escrever um roteiro sobre a história do Pedro Dom. Por meio do Breno conheci o Victor, pai do Pedro, e nos tornamos amigos. Ele me contou a história toda, me apresentou pessoas, me revelou cartas e segredos. O filme acabou não acontecendo, e o projeto foi engavetado. Anos depois, por insistência do Victor, retomei as anotações para o roteiro e senti que havia ali material para um romance.

O Pedro Dom é um anti-herói. Qual seu anti-herói preferido na literatura? Tom Ripley, da Patricia Highsmith, de O talentoso Ripley.

O seu livro vai se tornar uma série. Você está ajudando nessa adaptação? Eu e o Breno Silveira, diretor da série, somos parceiros nesse projeto há dez anos. O Victor nos incumbiu de contar essa história. Portanto, logo que comecei a escrever o romance, avisei o Breno. Ele se interessou em retomá-lo, agora não como filme, mas como série de TV. Os roteiros começaram a ser escritos quando o livro ainda estava sendo feito. Mandei para o Breno uma versão inacabada, e eles começaram a trabalhar em cima. À medida que os capítulos iam sendo escritos, o Breno me enviava e eu fazia algumas sugestões. A colaboração sempre foi e continua sendo muito grande.

O livro foi inspirado em alguns fatos e personagens reais e traz tráfico de drogas, corrupção policial, Esquadrões da Morte, entre outras coisas. A solução é alugar o Brasil? Difícil dizer qual a solução para o Brasil. Com certeza temos de fortalecer as instituições e defender e preservar nossa democracia. E refletir sobre o que nos acontece e aprimorar nosso convívio social.

O livro fala sobre vícios. Tem algum autor por quem seja viciado? Meus autores prediletos vão mudando com o tempo, e a lista seria muito grande se eu fosse citar todos eles. Atualmente eu diria que o Tolstoi está numa fase de muito prestígio.

Você tem alguma trilha sonora preferida na hora de escrever? Não gosto de ouvir música quando escrevo, porque me distrai. Mas abro uma exceção de vez em quando para Miles Davies, John Coltrane e Charles Mingus. 

E uma pergunta que um personagem faz no livro: como tocar o coração oculto? Difícil responder, porque o coração oculto fica escondido no coração das trevas. Tento tocá-lo escrevendo.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #32 abr.2020 em março de 2020.