Fichamento,

Adelaide Ivánova

Poeta pernambucana faz ‘épico escalafobético’ sobre migração não voluntária, repressão estatal e insubordinação feminina

01abr2024
Adelaide Ivánova [Pedro Pinho/Divulgação]

Exilada por séculos, julgada por muitos, a protagonista de Asma (Nós) nos pergunta: que crime ela, as bruxas do mundo, os imigrantes e os pobres cometeram?

Quem é essa protagonista, Vashti, que caminha pelo mundo e pelos séculos se encontrando com figuras que vão de um rei persa a Amy Winehouse?
Pesquisei figuras históricas até descobrir Vashti, rainha persa que foi expulsa pelo rei Xerxes por se recusar a fazer um strip-tease para os amigos dele. O mito inaugural da mulher insubordinada. Na minha cabeça, ela continua andando até hoje, aliás foi vista no Recife na semana passada (a louca!). Nesses 3 mil anos caminhando pela face da terra, ela encontra de gregos a Amy, e vai sendo inspirada por mulheres, talvez pelas mesmas que são importantes para mim.

No livro, ela está sendo julgada. Do que é acusada?
Não sabemos. A ideia de não revelar o crime não é original, peguei do Kafka. Me interessa a questão de como o sistema judicial pode ser uma arma de oprimir qualquer pobre, não só no Brasil. Em Berlim, onde moro, se você for pega três vezes no metrô sem bilhete tem que pagar uma multa de mil euros ou vai presa. No primeiro capítulo, Vashti pergunta: “Por que estou aqui? Porque viajei sem bilhete?”. Mas às vezes tenho a sensação de que ela é acusada de matar o marido abusivo. Pois pode ser, quem sabe? Em Caruaru, onde minha família mora, uma ativista, dona Maria, matou o pai, que a estuprou por anos, quando ele tentou estuprar a filha dela.

Há um clima de caça às bruxas em Asma…
Sim. Tem um divisor de águas na minha vida, 2017, quando conheci Silvia Federeci. Me comoveu como mulher e também por mostrar como a gente faz para ter uma ideia de pertencimento. Senti um conforto ao ver que nós, as mulheres da classe trabalhadora, as bruxas do mundo, na falta de uma genealogia sanguínea, podemos ter uma genealogia de classe muito poderosa.

Asma é um poema, mas pode lido como prosa?
Tentei antes fazer um texto para teatro, mas não tenho referência, ficou uma bosta. Depois dos meus primeiros livros, fui ficando cada vez mais preocupada com quem lê poesia no Brasil. Quis escrever um livro para o povo declamar na Feira de Caruaru, sem trair minha formação como poeta e como leitora. Asma não é só isso, mas tem vários poemas em que quero me conectar com essa, digamos, democracia da poesia falada e improvisada.

Como foi sua pesquisa sobre migração não voluntária?
Em 2016, entrei numa piração com as semelhanças entre minha separação, a de um casamento, um projeto de vida, e o impeachment de Dilma Rousseff, que tinha um cunho misógino muito forte e era a despedida de um projeto de país. Veio a inspiração para projetos de despedida, e isso me levou a pensar no processo de migração de minha família, que foi do sertão de Pernambuco para o agreste, de Caruaru para Recife… O livro nasce dessa vontade de olhar perdas coletivas.

Falando em migração, Ivánova tem origem russa?
A Wikipédia diz que sou uma poeta pernambucana de ascendência russa, não sei de onde tiraram. Zero origem russa. Minha mãe lia muito. Em Irmãos Karamázov [de Dostoiéviski] tem a Adelaide Ivánova, a rapariga que foge com o amante. Minha mãe deve ter pensado: “O nome da minha filha vai ser o da quenga do livro”.

Em Asma há essa pergunta: ser quenga ou ser sábia?
Ou ser as duas? Não tenho simpatia pela [cantora] Anitta, mas gosto quando ela diz que rebolar não significa ser burra. Temos direito de dançar, se esfregar e usar a cuca.

E sapatear na cara do patriarcado?
Será que não é disso que a Vashti está sendo acusada?

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)