Esporte,

O triunfo da reconciliação

Vitória de Egan Bernal no Tour de France é derrota para polarização política na Colômbia, escreve romancista

29jul2019 - 12h28

Quando Gabriel García Márquez chegou a Zipaquirá, aos dezesseis anos, em 1943, os pátios gelados do Liceo Nacional, no antigo claustro de San Luis Gonzaga, lhe pareceram uma injustiça. Daquele povoado sabia apenas que tinha minas de sal, e a princípio acreditou que ganhar uma bolsa para estudar lá seria como se tivesse lhe deixado “cair o sal”, ou seja, uma condenação ao azar. Uma bolsa naquele povoado gelado de Cundinamarca, a 2.650 metros do nível do mar, disse, foi como ganhar um tigre numa rifa. E, mesmo assim, conforme reconheceria mais tarde em suas memórias, uma das maiores fortunas que teve na vida foi ter sido enviado a “esse antigo convento do século 17, transformado em colégio de incréus”,  porque naquele “vilarejo sonolento não havia outras distrações além de estudar”.

Mais de meio século depois, em 1997, quando as velhas galerias das minas de sal tinham se convertido em uma imponente catedral subterrânea, Egan Bernal, o novo fenômeno do ciclismo colombiano, viu a luz naquele mesmo povoado de Zipaquirá. E é possível que crescer a tal altitude, com a extraordinária capacidade torácica e pulmonar dos indígenas do alto dos Andes, tenha sido também para ele uma grande fortuna.

Germán, seu pai, que provou mais os dissabores que as glórias do ciclismo profissional, quis evitar que o filho seguisse pelo mesmo caminho. Mas, pelo menos, seja porque “naquele vilarejo sonolento não havia outras distrações além de pedalar”,  seja porque as condições físicas dele eram tão excepcionais que ganhava as provas de ciclismo até sem querer, o caso é que esse rapaz de 22 anos, o vencedor mais jovem da história do Tour de France da era moderna, é considerado hoje como um superdotado do esporte em bicicleta, uma espécie de Messi do ciclismo mundial.

No último 26 de julho em que Egan Bernal se converteu em líder do Tour, assistíamos na Colômbia a uma marcha em protesto ao assassinato de líderes sociais. No nosso país é normal que haja inverno e verão no mesmo dia, sol e granizo, vergonha e alegria, dor e felicidade, até o pico mais alto das montanhas. Egan Bernal se converteu em líder e conseguiu vestir a camisa amarela num dos dias mais quentes da história da França, que, mesmo assim, se converteu em tormenta e granizo no topo dos Alpes.

Era, sem dúvida, uma das etapas mais bonitas e épicas do Tour, mas de repente o sal do granizo, a 2.700 metros de altitude, tal como em Zipaquirá, jogou água na nossa festa de Egan Bernal, e não conseguimos vê-lo atravessar a linha de chegada com os braços erguidos, como merecido vencedor da etapa, porque um deslizamento de lodo se interpôs entre ele e a felicidade.

No dia seguinte, apesar disso, a primeira página do jornal mais antigo da Colômbia, El Espectador, foi impressa em amarelo. E, sobre esse fundo, mais amarelo, o da camiseta de Egan, vestido com a cor das borboletas de García Márquez e das flores que a mãe do ciclista, de nome Flor, cultivava em Zipaquirá quando o filho nasceu. A felicidade pelo líder Egan apagou a tristeza da primeira página da véspera, sobre a marcha pelos líderes assassinados. E assim, com essas sensações contraditórias e discordantes, feito uma tempestade de granizo no meio do calor, nós, colombianos, chegamos a este domingo com aquela felicidade sem partido político de ver, pela primeira vez, um dos nossos coroado campeão em uma competição que é como o prêmio Nobel do ciclismo: o Tour de France.

Nestes julho e agosto são celebrados na Colombia duzentos anos da independência. Duzentos anos de solidão não nos bastaram para nos unirmos e reconciliar as nossas contradições. A bandeira escolhida pela nova república está dividida em três partes. A metade superior é amarela; a outra metade é dividida equitativamente entre o azul e o vermelho. Azul é a cor dos godos (os conservadores); vermelho, a dos progressistas (os liberais). Essa polarização entre vermelhos e azuis, entre esquerda e direita, esteve na origem de muitas das nossas guerras civis. É possível que muitos dos líderes os matem porque os veem como vermelhos, ou como uma ameça aos azuis. Mas, desde há muito tempo, se defende na Colômbia uma opção pacifista, não sectária, que se identifica com a franja amarela. Aquele amarelo que tem a ver com algo que foi dito por Bolívar: “Que cessem os partidos e se consolide a união”.

Para nós, o triunfo de Egan é um símbolo de união. Godos e liberais, estamos felizes, direitistas e esquerdistas, católicos e anticatólicos, ateus e evangélicos. É uma grande sorte que o triunfo no Tour se vista de amarelo. Queremos que o líder Egan viva e triunfe muitos anos mais; que sempre vista amarelo. A última cor que Borges viu ao ficar cego; a cor que Gabriel García Márquez punha sempre em sua mesa, porque afasta o sal, já que é símbolo da convivência e da reconciliação de um país que precisa de muitos trunfos pacíficos como o de Egan para poder se unir e sobreviver.

Esse triunfo de Egan Bernal é muito mais que o Tour de France. É um triunfo do esforço, da alegria, da dor, da reconciliação. Por isso, quando Egan disse, ao vestir pela primeira vez amarelo, “estou com vontade de chorar”, nós, a imensa maioria dos colombianos, sentimos o mesmo e compartilhamos do mesmo nó na garganta e a mesma emoção. O sal das lágrimas também é felicidade. (Tradução: Paulo Werneck)

Quem escreveu esse texto

Héctor Abad Faciolince

É autor de Angosta: a cidade do futuro (Companhia das Letras).