Esporte,

Nobre artista

Um roteiro literário das obras que cultuaram os boxeurs e sua arte, de Jack London e Cortázar a uma nova biografia de Muhammad Ali

01jan2021 - 01h00 | Edição #41 jan.2021

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O primeiro Cassius Marcellus Clay teve vida extraordinária. Seu obituário no New York Times, publicado em 23 de julho de 1903, é considerado por Margalit Fox uma das grandes peças jornalísticas de sua época. Filho de família aristocrática no estado de Kentucky, formado em Yale, ele se tornou um homem excêntrico e um abolicionista que libertou parte de seus escravos. Clay colocou um canhão na frente da sede do jornal que ele criou para defender o fim da escravidão; foi um campeão de duelos — sua fama era de ter matado mais pessoas em duelos do que qualquer outro americano. O primeiro Cassius Marcellus Clay era amigo e apoiador de Abraham Lincoln. O presidente dos Estados Unidos fez dele embaixador na São Petersburgo dos tsares — uma de suas tarefas foi participar das negociações para a compra do Alasca. 

O segundo Cassius Marcellus Clay — nomeado em homenagem ao primeiro — era negro, pintor de cartazes, boêmio, mulherengo e exímio bailarino em Louisville, no norte do mesmo Kentucky, estado famoso pelo bourbon, pelos cavalos e pelo racismo. Quando estava bêbado, despejava suas frustrações em atos violentos contra a mulher, Odessa. Em 1942, num parto doloridíssimo, ela deu à luz um imenso bebê e fez questão de que o seu primogênito fosse o terceiro Cassius Marcellus Clay (acrescentado de um Jr.), o “nome mais lindo que conheci”. Quando o terceiro Cassius Marcellus Clay ficou famoso, a primeira providência que tomou foi desprezar o nome, que, segundo ele, vinha da era da escravidão. O “nome mais lindo” foi substituído por Muhammad Ali, que lhe concedeu Elijah Muhammad, líder da organização negra Nação do Islã, 22 anos depois do seu nascimento.

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“Eu ainda me lembro de Cannon descrevendo como ficou até altas horas num apartamento ouvindo Sinatra cantar ao piano e, depois, como foi a pé para casa, sozinho, pelas ruas melancólicas de Nova York, enquanto o sol nascia”, disse Woody Allen em entrevista a Ira Berkow, do The New York Times, na época do lançamento do filme Poderosa Afrodite (1996) — no qual o diretor interpreta o papel do jornalista esportivo Lenny Weinrib. “Tudo o que eu sinto de Nova York como sendo a cidade de Gerswhin em preto e branco vem das minhas leituras de Jimmy Cannon.” “Ninguém me perguntou, mas…” era o bordão de abertura da coluna de Cannon, o mais famoso colunista esportivo — sobretudo do boxe, que ele chamava de “a zona dos pecados” (red zone district) dos esportes — da América.

Quando o terceiro Cassius Marcellus Clay ficou famoso, a primeira providência que tomou foi desprezar o nome

Assim como Allen, uma infinidade de garotos ao redor do mundo, em vez de achar nos livros de Goethe e Stendhal o seu romance de formação, encontravam-no diariamente nas palavras escritas nas tribunas de imprensa dos estádios pelos colunistas esportivos. Foi acompanhando esses homens de letras rápidas e observações cortantes que os meninos viveram o seu primeiro senso de injustiça, de raiva, de honra, de covardia. No esporte, o número de perdedores é desproporcionalmente maior do que o de vitoriosos. Essa era uma lição dura de  aprender — e o consolo vinha impresso nas páginas dos jornais.

Fazia parte do mundo de homens como Jimmy Cannon e Red Smith (colunista do cultuado New York Herald Tribune e do Times; vencedor do prêmio Pulitzer, entrevistador de Trotsky, consultor de dicionários; para ele, escrever colunas era fácil: “Eu só corto uma veia e deixo sangrar”), os maiores nomes da imprensa esportiva americana, além do talento para escrever bem e de serem sentimentais sob a pressão dos deadlines de fechamento dos jornais, o julgamento imediato, sentenciado no calor da hora. Não raro esse julgamento saía dos campos esportivos e derivava para questões morais conservadoras, para o racismo, para o enaltecimento da hombridade e do comportamento viril, sendo ecoados pelos leitores mais velhos e formando as convicções dos mais novos. Para esses homens, não faltava também uma dose diária — junto com o trago sagrado de cada dia — de amargura e de autodepreciação: “Um expert em esportes é um cara que escreve os melhores álibis por estar errado”, nas palavras de Jimmy Cannon. Os dois nunca engoliram Cassius Marcellus Clay, que dirá Muhammad Ali. 

A raiz da literatura moderna sobre esporte é “The Fight” (A luta), de William Hazlitt,(1) “o primeiro homem moderno”, na definição do biógrafo Duncan Wu. No ensaio, ele narra a jornada para ver a troca de socos entre o açougueiro Bill Neate e Tom Hickman, o “Gaslight Man”, em 11 de dezembro de 1821, na localidade de Hungerford Common, na Inglaterra (proibidas, as lutas eram marcadas em lugares pouco conhecidos e não eram divulgadas abertamente). Hazlitt lança a pedra fundamental para a narrativa de não ficção esportiva moderna, abrindo o mundo das letras para aqueles que se tornariam jornalistas profissionais e para uma imensa legião de escritores diletantes que encontrariam no esporte, sobretudo no boxe, o laboratório ideal para narrar histórias humanas “maiores do que a vida”, como se diz.  

Afirma-se que a maior contribuição americana para a literatura universal é a narrativa de não ficção do século passado, embora as origens estejam profundamente mergulhadas no ensaio britânico do século 18. Nessa ramificação literária, o esporte está no cânone — e, entre os esportes, o boxe subiu ao pódio. No topo do pódio, como o maior personagem de não ficção do século americano (fora os heróis da política e das guerras) está o falastrão, o egocêntrico, o infantil, o militante racial e religioso, o pacifista, o talvez mais contraditório e complexo homem de seu tempo, o cara que, na definição de uma de suas mulheres, “viveu segundo as suas próprias regras”: Muhammad Ali. 

Em muitos aspectos, a luta pelo título mundial dos pesos-pesados entre os cincos Js (Jack Johnson X Jim J. Jeffries), em Reno, Nevada, no 4 de julho de 1910, foi um prenúncio das questões raciais do século americano — não por acaso, pela primeira vez foi usada a expressão “A Luta do Século”. Dois anos antes, em Sydney, na Austrália, o texano filho de escravos libertos Johnson havia sido o primeiro negro a conquistar o título de campeão mundial dos pesos-pesados, a categoria mais valorizada do boxe, ao vencer Tommy Burns. Seu rival em Reno, Jim J. Jeffries, havia se retirado invicto, seis anos antes. Estava obeso, totalmente fora de forma, quando iniciou os treinamentos para o retorno aos ringues, e declarou que voltaria a calçar as luvas apenas para provar “que o homem branco era melhor do que o negro”. Por isso, era chamado de “a grande esperança branca”.  

A supremacia branca sentiu um frio na barriga quando, no 15º assalto, sob sol impiedosamente quente (na Grécia antiga, as lutas de boxe se realizavam no quarto dia dos Jogos Olímpicos e começavam ao meio-dia, para que a sombra não ofuscasse nenhum dos contendores), Jeffries caiu pela primeira vez na sua carreira. Em muitos lugares dos Estados Unidos ocorreram animosidades e manifestações racistas contra a vitória do lutador negro que, como escreveu Jack London, (2) não parou de ostentar um “sorriso dourado” enquanto durou a troca de socos. A luta também deu origem a um dos episódios mais marcantes de censura no país. Uma reportagem cinematográfica foi rodada em Reno, mas teve sua exibição proibida nos cinemas de vários estados e cidades do país. (3)

No caso do filme do combate em Sydney que deu o título para Jack Johnson, a censura foi ainda pior, prejudicando as imagens para a posteridade: ele recebeu uma cirurgia intracorporal, e o filme foi interrompido exatamente no momento de Johnson disparar o murro fatal contra Burns. A imagem de um preto derrubando um branco não poderia circular nem ficar para a história.

London foi talvez o escritor americano mais popular de seu tempo, teve uma vida de aventuras extraordinárias, viajou muito, era um lobo do mar, militou pelo socialismo, emprestou seu nome e prestígio ao surfe e ao boxe e… nunca deixou de acreditar na superioridade da raça branca. Identificado como o primeiro da longa fila de escritores que se dedicariam ao esporte ao longo do século, cobriu as duas lutas de Johnson torcendo pela vitória de seus oponentes brancos — embora tenha reconhecido a superioridade técnica do lutador negro. A partir desses eventos, contudo, a sociedade americana teria que conviver com algo diferente do que pensava Jack London: a crescente hegemonia negra nos esportes, sobretudo na modalidade suprema para o macho branco, a categoria dos pesos-pesados. Budd Schulberg (4) tinha uma teoria sobre os campeões pesos-pesados: “De alguma maneira, cada uma dessas grandes figuras que detiveram o título mundial conseguiu resumir o espírito de sua época. […] Pode ser acidental, mas as principais tendências da sua época formam suas personalidades, ou as suas personalidades parecem refletir maravilhosamente a sua época”. 

A década de 1960 acrescentaria ainda outra diversidade: a projeção mundial de um campeão negro que defendia não o integracionismo de Martin Luther King, mas o orgulho negro e a separação entre as raças. Muhammad Ali era um astro da era da tv, e esse astro estava gritando no horário nobre que não havia futuro para as pessoas pretas no século americano.

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Muhammad Ali: uma vida, do jornalista e biógrafo Jonathan Eig, que a Record lança no Brasil, é um trabalho amplo, detalhado, atualizado, original, com muita informação inédita — e explica o que é explicável (o que permanece inexplicável: por que Ali continuou fiel a Elijah Muhammad e abandonou o companheiro Malcolm X quando este foi expulso da Nação do Islã?; por que Ali mostrava um ódio insano contra seus adversários negros, a ponto de constranger os militantes antirracistas, mas não o fazia na mesma proporção contra os adversários brancos?; por que ele se resignou em perder muito dinheiro ao se recusar a ir para o Vietnã, mas aceitou receber quase 10 milhões de dólares dos ditadores corruptos de países com muita miséria, como Mobutu Sese Seko e Ferdinando Marcos, para ir lutar no Zaire e nas Filipinas?).

A trajetória de Ali pode ser dividida em três blocos: 1) os anos de pura controvérsia e ódio com relação a sua pessoa, o início da prática de boxe aos doze anos até ser campeão aos 22, a mudança de nome e a recusa à convocação do Exército para ir combater no Vietnã; 2) os três anos e meio de proscrição, quando perdeu o título, o passaporte, foi proibido de lutar, condenado a cinco anos de prisão, período em que ele, que mal conseguia ler em razão de uma forte dislexia (jamais leu um livro inteiro, apenas passagens do Corão e da Bíblia), sobreviveu fazendo palestras em universidades, falando a jovens (na maioria brancos); 3) a absolvição pela Suprema Corte, (5) a volta às lutas e a pacificação com o grande público, a reconquista do título mundial por duas vezes em disputas memoráveis, os excessos de pancadas que o levaram a desenvolver a Síndrome de Parkinson, a aparição com a tocha na abertura dos Jogos Olímpicos de Atlanta (ironicamente, uma das capitais do racismo na história americana), de 1996, quando 3 bilhões de pessoas ao redor do mundo se reconciliaram com ele.

Muhammad Ali foi o paradoxo. Como diz Fritz Mauthner, (6) em seu Dicionário de filosofia, os latinos fizeram da palavra “quase um termo técnico do esporte (nas competições, ‘paradoxo’ podia designar aquele que vencia contra todas as expectativas)”. Um sujeito de pernas longas e braços compridos como um parágrafo de Proust, com o pescoço flexível e mais delgado, era a antítese do que se pedia de um lutador peso-pesado, como apregoava o glutão A.J. Liebling, (7) o grande escritor de gastronomia e boxe da revista The New Yorker. Na linguagem da pintura, o boxear de Ali seria considerado “sem volume”. Ele cometia os pecados de lutar com as mãos soltas, a guarda baixa e de não bater no corpo do adversário para ir derretendo a sua resistência. Em compensação, era rápido como nenhum peso-pesado pode ser, tinha pleno domínio sobre o espaço (uma de suas especialidades era dançar no sentido horário até atingir o ponto de distância ótimo, não tão longe que não conseguiria acertar a cabeça do adversário, não tão perto para ser atingido por homens bem mais fortes, mas de menor envergadura; “flutue como uma borboleta, pique como uma abelha”, como gritava seu treinador assistente e corner Bundini Brown).

Ali fez do recuo uma vantagem: dava um passo ou jogava a cabeça para trás, deixando os diretos, os cruzados, os ganchos inimigos passar de raspão na sua cara, mas sem atingi-lo para valer. (8) Ele sabia que os golpes no vazio, sem que a energia despendida atingisse uma resistência sólida, cansavam os pesos-pesados rapidamente. Poucos lutadores usaram as cordas para se apoiar como ele (o estilo ficou conhecido como rope-a-dope, uma variação do pugilista para a tradicional filosofia oriental do bambu, que “verga mas não quebra”). Ali era pura concentração, antecipava o momento em que o adversário ia disparar os golpes (há uma tradição no boxe que diz que o murro realmente perigoso não é o mais forte, mas o que não se consegue ver).

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Algumas lutas se tornaram eventos literários marcantes. Uma delas foi entre o campeão mundial dos pesos-pesados, o americano branco Jack Dempsey, e o enorme argentino Luis Ángel Firpo, “El Toro de las Pampas”, em 14 de setembro de 1923, no hoje demolido estádio de beisebol Polo Grounds, em Nova York. Firpo foi derrubado sete vezes antes de, em uma sequência de golpes, ejetar, com um cruzado de direita, Dempsey para fora do ringue… (9) num dos mais espetaculares primeiros rounds da história do boxe. O nocaute do latino-americano, que viria no segundo assalto, marcou para sempre uma geração de argentinos, entre eles um menino chamado Julio Cortázar, que ouviu a luta num rádio precário, cercado de vizinhos, no bairro de Banfield, em Buenos Aires. As regras estabelecidas pelo Marquês de Queensberry, em 1867, dizem que um lutador, depois de derrubado, não poderia ser ajudado a se levantar por ninguém, fato ocorrido com Dempsey quando foi atirado para fora do ringue (as regras de Queensberry também requisitavam a obrigatoriedade do uso das luvas acolchoadas, não para proteger o rosto, mas as mãos dos contendores, que se machucam com muita facilidade). Foi uma comoção de 15 milhões de argentinos, segundo Cortázar, “retorcendo-se de diversas maneiras e pedindo, entre outras coisas, a ruptura das relações, a declaração de guerra e o incêndio da embaixada dos Estados Unidos. Foi a nossa noite triste; eu, com os meus nove anos, chorei abraçado ao meu tio e a vários vizinhos ultrajados em seu patriotismo”. A noite inesquecível aparece no texto “A nobre arte”, incluído no livro A volta ao dia em oitenta mundos. Cortázar preferia o boxe ao futebol, os esportes individuais (“son dos destinos que se juegan el uno contra el otro”) aos coletivos, e dizia que “o romance sempre ganha por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute”.(10) 

Pelo menos cinco lutas de Muhammad Ali entraram para o panteão dos escritores. A primeira delas, quando ainda era Cassius Marcellus Clay e venceu, contra todas as previsões, o até então imbatível Charles “Sonny” Liston, em 25 de fevereiro de 1964, em Miami. Nesse período, para o bem ou para o mal, ele foi o protagonista dos enredos narrados pelos campeões da máquina de escrever: A.J. Liebling (que cobriu a medalha de ouro que o adolescente de Louisville ganhou na Olimpíada de 1960, em Roma, e não se encantou muito com a jovem promessa); Dick Schaap (que o levou para o primeiro passeio no Harlem e para conhecer Sugar Ray Robinson, seu lutador predileto, bailarino como ele); Tom Wolfe (que narra uma noite sublime andando com Ali em  Nova York, com três garotos negros tocando, em instrumentos improvisados, “Moedas caem do céu” — enquanto o chapeuzinho virado na calçada esperava pelas moedas terrenas dos transeuntes); Murray Kempton (que cobriu a luta de Miami e emprestava estatura moral para qualquer coisa sobre a qual escrevia); Norman Mailer (que inicialmente também não levou o garoto desafiante a sério: se Clay conquistar o título de pesos-pesados “isso significará que qualquer valentão de esquina pode sair por aí se gabando e ser levado a sério”);  George Plimpton (11) (a quem Ali chamava de “Kennedy”, pela origem WASP; ele levou o boxeador, que tinha um prazer infantil em criar rimas, de brincar com a sonoridade das palavras, para conhecer a poeta Marianne Moore, e, juntos, fizeram alguns versos); e Robert Lipsyte (um dos poucos que ficaram do lado de Ali desde o início; quando ele assumiu a coluna Sports of the Times, o cronista esportivo mais experimentado Arthur Daley disse para ele: “Não leve a coluna para a cama”).

A segunda das lutas que inspiraram escritores foi o rumble in the jungle (combate na selva): Ali lutou contra George Foreman, em 30 de outubro de 1974, às quatro horas da madrugada, em Kinshasa, no Zaire (antiga República do Congo), acontecimento que rendeu pelo menos dois clássicos ao redor do boxe: o filme Quando éramos reis (1996), dirigido por Leon Gast, que ganhou o Oscar de melhor documentário, e o livro A luta (1975), de Norman Mailer. Quem poderia ter feito algo histórico sobre essa aventura na África era o fundador e único praticante do jornalismo gonzo, Hunter S. Thompson: ele foi enviado ao Zaire pela Rolling Stone, mas não quis assistir à luta que parou o mundo e ficou fumando maconha, uma das atrações locais, na piscina do hotel (anos depois, escreveria uma grande peça de revista, “O Último Tango em Las Vegas”, na qual afirma que, como Jay Gatsby, Ali tinha uma “fascinação sem fim por aquela luz verde no fim do píer”). 

A melhor de três disputada contra Joe Frazier, o contendor que deu mais trabalho para Muhammad Ali, além de estar entre as preferidas dos escritores, completando o quinteto literário aliano, traz também lutas muito caras aos experts pela intensidade das disputas. Ele foi nocauteado, pela primeira vez, no encontro inicial, que perdeu por pontos (em 8 de março de 1971, no Madison Square Garden, Nova York, então a abadia do boxe mundial; Frank Sinatra fotografou o evento para a Time); ganhou a segunda, também por pontos; e na terceira, disputada em 1º de outubro de 1975, às dez da manhã, em Manila, nas Filipinas, sagrou-se o primeiro peso-pesado a conquistar o cinturão pela terceira vez, quando Frazier desistiu no último round. Há toda uma literatura de sagração da trilogia Ali X Frazier, mas um retrato brutalista e sombrio dessa luta chamada de thrilla-in-Manila (suspense em Manila) foi feito pelo repórter Mark Kram, um dos que mais escreveram sobre Muhammad Ali, no livro Ghosts of Manila. (12)

Ali não gostava do boxe e não gostava de apanhar na cara, mas esse era o caminho rápido, o atalho, para um lutador espetacular e narcisista como ele comprar Cadillacs, ter bonitas sparrings na cama, ganhar dinheiro e ser alguém no mundo — e ele foi bem mais que alguém. É moralmente correto procurar a arte e a poesia em algo tão violento quanto o boxe? Poucas obras são tão violentas quanto a Ilíada, na qual talvez se encontre a primeira referência literária à luta com os punhos. Em ensaio sobre o épico de Homero, Simone Weil diz que o principal personagem é a força. (13) A Ilíada continua viva porque ainda hoje, como ontem, se reconhece a força no centro da história humana. O boxe, como metáfora para os escritores, desapareceu — como desapareceram os chapéus Fedora e as máquinas de escrever —, mas as suas melhores histórias ainda vivem na imaginação de um mundo em que a violência se tornou tão grande que as lutas de boxe do passado parecem rusgas de carmelitas descalças.     

Como calculou Jonathan Eig, somando os períodos, Clay e Ali devem ter levado cerca de 200 mil golpes no corpo e na cabeça durante toda a carreira. Essas pancadas lhe “roubaram justamente as coisas que o tornaram espetacular — a rapidez, a resistência, o charme, a arrogância, os jogos de palavras, a graça, a masculinidade como força da natureza, e aquele brilho juvenil nos olhos, que revelava seu desejo de ser amado, não importa o quanto absurdamente se comportasse”. No final, Ali mal balbuciava as palavras, tinha a mão esquerda trêmula e andava devagar. Mas estava consciente de tudo (ser nocauteado é perder a consciência) e era alguém pacificado com a vida. Feito uma criança, adorava brincar de mágico. “Vou lhe dizer como gostaria de ser lembrado: como um homem negro que ganhou o título dos pesos-pesados e era bem-humorado e tratava todo mundo bem”, disse para o editor da New Yorker, David Remnick. (14) Nos últimos anos, tinha o semblante sereno, um sorriso eterno de Monalisa e o olhar de quem viu uma verdade simples.  

Em 3 de junho de 2016, Paul Simon parou seu show em Berkeley, na Califórnia, para dar a notícia. “Peço desculpas por comunicar a vocês dessa maneira, mas Muhammad Ali faleceu”, disse. E continuou a cantar a música que havia interrompido, “The Boxer”.  

Notas
1. Ele mesmo um praticante do boxe, assim como seu contemporâneo Lorde Byron (1778-1824), que deixou um par de luvas na memorabilia de sua casa, hoje transformada em museu (Newstead Abbey, em Nottinghamshire, Inglaterra). 
2. Jack London foi um dos escritores americanos que gostavam de expressar sua competitividade lutando boxe como exercício e divertimento. Outros dois seriam Ernest Hemingway e Norman Mailer.  A segunda mulher de London,  Charmian Kittredge, costumava calçar as luvas para lutar com ele. Sobre aquilo que era (e é) visto como uma forma de assédio violento do escritor contra as mulheres, ela, que foi libertária, sufragista e sabia muito bem fazer suas escolhas, escreveu: “Sim, eu me machucava — uma pessoa não luta boxe para um pleno relaxamento, mas para ter o prazer de estimular o bom e vermelho sangue e deixá-lo livre para correr pelas veias morosas, para aclarar pulmões e cérebro e dar a essa pessoa um novo impulso de vida. Para Jack, que amava os jogos acima de todas as virtudes, foi a maior glória que em duas ou três ocasiões tivéssemos ficado com o rosto marcado por coágulos provocados pelos golpes um no outro. Mas era de sua própria derrota que ele era mais vaidoso porque ‘a mulher-moleque enquadrou seus valorosos ombrinhos e se pôs em pé, os olhos bem abertos e destemidos, e deu e tomou um direto de esquerda’”.  Jack London: uma vida, Alex Kershaw.
3. As reportagens filmadas de lutas de boxe foram tão importantes que criaram uma categoria à parte, os chamados fight films. Ver The Golden Age of Boxing on Radio and Television, Frederick V. Romano. O boxe também serviu de inspiração para muitas comédias do cinema mudo. Martin Scorsese disse que Buster Keaton era “a única pessoa que tinha a atitude correta das lutas de boxe no cinema”.  Sobre as relações entre o boxe e a arte, ver o monumental Boxing: A Cultural History, de Kasia Boddy.
4 Budd Schulberg, Loser and Still Champion: Muhammad Ali, 1972. Ele deixou uma antologia de textos jornalísticos sobre o boxe, Sparring with Hemingway; foi o primeiro editor da modalidade na revista Sports Illustrated; roteirista ganhador do Oscar por Sindicato de ladrões, com Marlon Brando; e autor do romance The Harder They Fall, inspirador do roteiro de A trágica farsa, com Humphrey Bogart. Os dois filmes de Schulberg estão entre o que de melhor o cinema produziu sobre o boxe.
5.  Coincidentemente, o juiz que seria decisivo para rever o caso de Ali, na Suprema Corte, John M. Harlan, era neto de um amigo do primeiro Cassius Marcellus Clay.
6.  Revista Serrote 6. Introdução e tradução de Márcio Suzuki. 
7.  Existem duas antologias de seus influentes textos sobre boxe: The Sweet Science (“the sweet science of bruising”, a doce arte de machucar, era uma das maneiras como o boxe era chamado entre os ingleses) e A Neutral Corner. 
8. A esquiva, “uma convergência seguida imediatamente de uma divergência”, como descreveu Michel Leiris no Espelho da tauromaquia, une o toureiro ao lutador de boxe. 
9. Naquela noite, o quadrado do ringue era circundado por três cordas. Modernamente, se usam quatro cordas, para dar mais proteção aos lutadores. 
10. Cortázar talvez tenha sido o maior contista sobre o boxe, com obras notáveis como “El Torito” e “La noche de Mantequilla”. Ver também a entrevista “Um bom match e um certo swing”, Serrote nº 3. 
11. Praticante do “jornalismo participativo”, fundador da Paris Review, conta em Shadow Box, um dos melhores livros sobre boxeadores e escritores, como desafiou e lutou com o campeão Archie Moore. Antes dele, Paul Gallico havia subido ao ringue para enfrentar Jack Dempsey, quando ele se preparava para a luta contra Luis Firpo, mas a experiência terminou no primeiro golpe do campeão.
12. Há um ensaio muito interessante de Jan Philipp Reemtsma sobre essa luta. A versão consultada é em inglês: More Than a Champion: The Style of Muhammad Ali.
13. Ver revista Serrote nº 30.
14. O rei do mundo, Companhia das Letras, 2011.
 

Quem escreveu esse texto

Matinas Suzuki Jr.

É jornalista e editor.

Matéria publicada na edição impressa #41 jan.2021 em dezembro de 2020.