Crônica de Salvador, Esporte,

Bahêa com H

Aos noventa anos, o Esporte Clube Bahia inaugura museu tecnológico na Arena Fonte Nova para reforçar a ligação da bola com a arte e a cultura

01mar2021 - 00h10 | Edição #43

De tanto pedir “mais um”, o Esporte Clube Bahia chegou aos noventa. Não em títulos de glória, conforme clama o hino do clube, mas nos anos de existência. Entre os presentes de aniversário, o tricolor baiano — que já havia recebido regalos de Caetano Veloso em “Reconvexo”, de Gilberto Gil em “Tradição” e dos Novos Baianos em “Campeão dos Campeões”— ganha em março, em data ainda indefinida, o Museu do Bahia, o primeiro espaço dedicado exclusivamente a saudar a memória do principal time de futebol do estado. 

O museu ocupa 1.200 m² da “ferradura”, o ponto mais privilegiado da Arena Fonte Nova, onde, de um lado, há o gramado do estádio, palco de milagres como o gol de Raudinei (que rendeu o título de Campeão Baiano ao clube no apagar das luzes contra o Vitória em 1994) e, do outro, o Dique do Tororó, abençoado pelos orixás do artista plástico Tatti Moreno.

“O Bahia tem as cores e o nome da Bahia. Foi o primeiro campeão brasileiro, o primeiro time do Brasil a disputar uma Libertadores. Outros clubes podem até ter torcida, tradição, títulos, história, mas não têm o vínculo popular que o Bahia tem”, explica Daniel Rangel, curador da exposição inaugural, “A Bahia é Bahêa”, cujo mote é reunir o clube e a “baianidade” e mostrar o que há de imbricado entre ser baiano e torcer pelo Bahia.

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O Bahia surgiu em 1º de janeiro de 1931 e roubou o coração até daqueles cujo peito batia mais forte pelo Ypiranga, até então o time mais popular da cidade. Nos anos subsequentes, conquistou a Taça Brasil de 1959, ao  vencer o Santos de Pelé em 29 de março, aniversário da cidade do Salvador; foi heptacampeão do Baianão de 1973 a 1979; e sagrou-se bicampeão brasileiro, guiado pelo elegante e sutil Bobô, em 1988, contra o Internacional.

Mas, menos de uma década depois de ser bicampeão, o clube passou por sua chamada “Fase das Trevas”. De 1997 a 2013, o time ficou apenas quatro anos na Série A, esteve na Série C pela primeira vez e incluiu na sua história aquela que é considerada uma das maiores tragédias do futebol brasileiro, quando parte da arquibancada da Fonte Nova cedeu e matou sete torcedores do Esquadrão.

A má fase fez com que os torcedores resolvessem tomar as rédeas do time para si. A reação veio com o movimento democrático Bahia da Torcida, que, em caráter inédito no futebol brasileiro, abriu a caixa-preta do time. “O processo de redemocratização [sacramentado em 2014] foi a principal semente para a criação do museu, para que houvesse memória e esses episódios controversos do passado não se repetissem”, ressalta Rangel. Em 2018, cinco anos após a alteração no estatuto do time, que estabeleceu eleição direta e ficha limpa entre seus principais pontos, o então presidente eleito Guilherme Bellintani instaurou o projeto Memória de Aço, com objetivo de preencher as lacunas da história e patrimônio do clube, com o Museu do Bahia como produto final desse resgate.

A Sala dos Milagres reúne lances ‘sobrenaturais’ já protagonizados pelo tricolor

Com financiamento coletivo dos torcedores e recursos da Lei Rouanet e do próprio cofre do clube, o Bahia deu início à construção do museu, com foco principal na recuperação dos troféus e na documentação de todos os jogos oficiais do tricolor. “Dos anos 1970 para trás, a gente não tinha troféu nenhum”, conta Rangel, que tem participado de perto do processo de recuperação dos troféus e da reprodução de réplicas dos exemplares perdidos. “É uma nova página que começa a se construir a partir de agora.”

“Baba”

O museu é recheado de espaços imersivos e tecnológicos e dividido em dois núcleos principais: um dedicado ao time e outro dedicado à torcida. Logo na entrada, o painel “Somos a Turma Tricolor” traz 88 imagens feitas por fotógrafos baianos ou radicados na Bahia para ilustrar a paixão do soteropolitano pelo futebol — não somente aquele praticado nos estádios, mas o “baba” (a “pelada”) de cada esquina. Além das fotos, o espaço recebeu obras de artistas como Bel Borba, Alberto Pitta e Luciano Bahia.

Em seguida, ao passar pela sala que abriga os troféus e objetos históricos, o torcedor encontra uma sala montada como álbum de figurinhas dos grandes jogadores do time. A fé do torcedor, por sua vez, é protagonista nas duas salas que encerram a visita. A primeira delas, a Sala dos Milagres, reúne todos os lances considerados “sobrenaturais” já protagonizados pelo tricolor — como aquele em que o zagueiro Nildon impediu que Pelé marcasse o seu milésimo gol na Fonte Nova. A segunda delas é a Sala dos Ex-Votos, que, assim como naquela instalada na Igreja do Senhor do Bonfim, é reservada para que os “devotos” deixem seus agradecimentos após terem suas graças alcançadas.

Com clara inspiração no Museo del Fútbol Club Barcelona, localizado no Camp Nou, e no Museo de la Pasión Boquense, da Bombonera, o Museu do Bahia é o primeiro de seu segmento no Brasil — um museu em moldes parecidos está em fase de planejamento pelo Flamengo. “Com a torcida passando a ter voz, a memória ganha uma importância maior. O torcedor pensa: o que vai acontecer quando eu sair daqui? Há um pensamento de eternidade, de legado”.

No seu livro-declaração Futebol ao sol e à sombra, Eduardo Galeano escreve que andava ao redor do mundo, “com um chapéu na mão’’, implorando: “Jogue bonito, pelo amor de Deus!”. E completa que quando o bom futebol aparecia, ele apreciava o “milagre” independemente do clube ou do país que lhe oferecesse aquilo. O objetivo do Museu do Bahia é esse, segundo Daniel Rangel. “Não é um simples memorial ou repositório de troféus. É um museu que não vai interessar só ao torcedor, mas também a qualquer turista que vier para cá. A gente está falando do esporte como uma potência social, como uma cultura que vai além do clube.”

A afirmação confirma a sua veracidade quando reparamos que, ainda que não esteja tão bem das pernas no futebol — o clube chegou a flertar com a Segundona no último Brasileirão, mas se segurou na Série A —, o Bahia tem recuperado a sua autoestima e respeito ao redor do Brasil por meio do seu papel social a partir das ações afirmativas que vem coordenando — o clube viraliza constantemente com campanhas a favor das minorias, da democracia e da liberdade de expressão. Saudando novamente Galeano, “goste ou não goste, o futebol continua a ser a mais importante paixão popular do mundo”.

Quem escreveu esse texto

Clara Rellstab

É jornalista, roteirista e repórter do Uol.

Matéria publicada na edição impressa #43 em fevereiro de 2021.