Esporte,

Boas de bola e de luta

Em clima de mundial, exposição Rainhas de Copas mostra a evolução do futebol feminino brasileiro

28abr2023 - 11h00 | Edição #69

Aos onze minutos do segundo tempo, Debinha desceu pelo lado esquerdo do campo. Cruzou na área para tentar alcançar Cristiane, mas a zaga da França rebateu. A bola sobrou nos pés de Thaísa, que a colocou no canto da trave da goleira Bouhaddi para empatar o confronto. Esse foi o último gol do Brasil em uma Copa do Mundo, no dia 23 de junho de 2019. Aquele que deu esperança a milhares de brasileiros que torciam pela seleção feminina, que acabou desclassificada pelas francesas na prorrogação. É fácil achar registros dele na internet. Mas você sabe qual foi o primeiro gol marcado por uma brasileira em um mundial?

Em 1991, na primeira Copa do Mundo feminina, na China, a zagueira Elane balançou as redes contra o Japão e sacramentou a vitória do Brasil pelo placar mínimo. Não há qualquer registro audiovisual desse gol, mas o feito agora ganha reprodução em uma maquete 3D. O primeiro gol do Brasil em uma Copa do Mundo de Futebol Feminino pode ser visto na exposição Rainhas de Copas, no Museu do Futebol, em São Paulo. A exposição temporária fica em cartaz de 28 de abril a 27 de agosto — encerrando uma semana depois da final da Copa do Mundo feminina de 2023, sediada na Austrália e Nova Zelândia, entre 20 de julho e 20 de agosto.

Desde 2015, em período de Copa, o museu dedica exposições temporárias ao futebol de mulheres. Segundo Maíra Corrêa Machado, coordenadora de exposições, naquele ano, a ideia era dar visibilidade às jogadoras e torcedoras, mostrar que as mulheres no futebol existem. 

Em 1941, Getúlio Vargas assinou um decreto-lei que impedia mulheres de praticar o esporte

Quatro anos depois, em 2019, o mote da mostra foi a denúncia, ao lembrar dos mais de trinta anos em que mulheres foram proibidas por lei de jogar futebol no Brasil. Em 1941, o então presidente, Getúlio Vargas, assinou um decreto-lei que as impedia de praticar o esporte. A justificativa era de que o futebol poderia afetar a função principal de uma mulher: ser mãe.

“A mulher não poderá praticar esse esporte violento sem afetar, seriamente, o equilíbrio psicológico das funções orgânicas, devido à natureza que a dispôs a ‘ser mãe’”, dizia o texto. O decreto caiu em 1979, mas a regulamentação da modalidade só ocorreu em 1983, exatos quarenta anos atrás. Por isso, neste 2023, a ideia do Museu do Futebol é celebrar as jogadoras de futebol brasileiras.

Não dá para falar de futebol de mulheres sem falar da luta, desigualdade e garra das jogadoras

“Não dá para falar de futebol de mulheres sem falar da luta, desigualdade, resiliência e garra das jogadoras, que enfrentam muitos desafios”, afirma Machado. “Mas, atualmente, dá para falar, sim, de muitas conquistas. E a exposição Rainhas de Copas vem nessa esteira, de celebrar, instruir e contar sobre esse histórico de garra e alegria.”

Estrelas

Em clima de mundial, Rainha de Copas é marcada pelas cores do Brasil, azul e amarelo em especial, pelas luzes e pelo brilho. Além das imagens, traz informações inéditas sobre a história dos mundiais femininos, que são o fio condutor da mostra. Até hoje, foram realizadas oito edições da Copa do Mundo feminina. Cada uma marcada por jogadoras brilhantes ou conquistas das mulheres brasileiras.

Antes de começar o percurso que conta a história das competições, há um importante preâmbulo: ao descer um túnel, visitantes encontram imagens e outros registros do Torneio Experimental, uma competição na China, em 1988, que foi o embrião da Copa do Mundo de mulheres. Na ocasião, o Brasil ficou em terceiro lugar. 

Três anos depois, veio o primeiro Mundial feminino — sessenta anos após a primeira edição da Copa do Mundo masculina, realizada no Uruguai, em 1930. Além do primeiro gol de uma brasileira, marcado em 1991, a exposição celebra Leda, uma das jogadoras que fez história com a camisa amarela na segunda edição do campeonato, em 1995, e a conquista do futebol de mulheres passar a ser um esporte olímpico, em 1996. A Copa de 1999 tem uma personagem especial: Sisleide do Amor Lima, a Sissi. Camisa dez da Seleção Brasileira, ela foi artilheira da edição com sete gols e levou o Brasil à terceira colocação.

A exposição segue com a Copa de 2003, a primeira do grande ícone do futebol feminino do Brasil, Marta Vieira da Silva, outra camisa 10. Depois, de 2007, quando o Brasil fez a melhor campanha da história em mundiais e chegou ao segundo lugar (a Alemanha levou a taça).

Futebol e sociedade

Rainha de Copas também sacia a curiosidade de fãs em relação a dados do futebol feminino e destaca o avanço da modalidade e da sociedade. “Não é só futebol. O futebol reflete questões da sociedade, da cultura, do desenvolvimento do bem-estar e de um senso de coletividade”, afirma a coordenadora de exposições do museu. “Todo o histórico do que é diferente entre o futebol de mulheres e de homens precisa ser relatado, porque isso não conta só a história da modalidade, mostra o caráter social e o status de progressão que a sociedade vem conquistando”, completa Maíra Corrêa Machado.

A edição mais recente da Copa do Mundo, em 2019, na França, foi um marco da luta pela visibilidade do futebol feminino. Foi lá que a seleção dos Estados Unidos, campeã do torneio, pediu igualdade salarial entre homens e mulheres. A disparidade era clara: por que a seleção feminina de futebol podia ganhar menos do que a masculina se elas empilhavam taças enquanto os homens não conseguiam destaque na modalidade? 

A conquista da igualdade salarial, exaltada na exposição, chegou em fevereiro de 2022, anos após as norte-americanas vencerem a Holanda e conquistarem o mundial pela quarta vez. 

A última sala da exposição é dedicada à Copa do Mundo de 2023 e incentiva todos os brasileiros, independentemente de gênero ou idade, a torcer pela Seleção Brasileira. “Quisemos trazer informações e experiências relevantes para diferentes públicos. É uma exposição que pretende ser divertida, saciar a curiosidade de boleiros e boleiras que querem saber mais sobre os campeonatos”, diz Machado.

O Brasil está no grupo F e estreia na Copa do Mundo no dia 24 de julho, contra o Panamá. Quem será a autora do primeiro gol brasileiro na Austrália?

Nota da redação
O Museu do Futebol fica na praça Charles Miller, no Pacaembu, onde acontece também A Feira do Livro 2023, entre os dias 7 e 11 de junho. 

Quem escreveu esse texto

Anita Efraim

É coordenadora de comunicação do Instituto Brasil-Israel.

Matéria publicada na edição impressa #69 em abril de 2023.