Esporte, Jornalismo,

Sacana e humano

Livro-reportagem conta a história do empresário J. Hawilla, peça-chave do Fifagate

21nov2018 - 12h04 | Edição #13 jul.2018

É uma delícia quando um bom romance policial cai em nosso colo. Daqueles danados, intrincados, com uma história que, aos poucos, nos enreda e prende a atenção. É uma arte construir um grande livro-reportagem. Achar um assunto que ainda não tenha sido bem contado e que seja suficientemente interessante para obrigar alguém a desembolsar algum trocado nessa era de histórias gratuitas que são despejadas todo dia pela internet. É raro, bem raro, quando alguém consegue uma grande história verídica, que tenha as características necessárias para ser relatada em tom de romance policial. 

Sorte dos repórteres Allan de Abreu e Carlos Petrocilo, que acharam uma dessas pra chamar de sua. Sorte, perseverança e competência, diga-se. José Hawilla, ou o simplificado Jota Ávila, é figura fundamental para explicar o lado A e o lado B do futebol brasileiro. Várias de suas histórias estavam por aí, embaralhadas em cima da mesa como pedacinhos de um quebra-cabeças de mil peças. Outros desses fragmentos andavam perdidos e exigiam investigação. Só quando a imagem aparece prontinha diante de nossos olhos é que fica claro como funciona o mundo e o submundo do futebol.

O delator é a biografia nem um pouco autorizada de um dos principais personagens do futebol contemporâneo. Hawilla, que morreu em São Paulo no último dia 25 de maio (o livro estava pronto para ser impresso quando chegou a notícia de sua morte), está no centro do Fifagate. Os investigadores americanos do FBI juntaram provas para prender Jota até o fim de seus dias e lhe deram a opção de liberdade vigiada caso entregasse todo o esquema. Já com a saúde abalada por um câncer, Jota optou por entregar todos os parças que conseguisse. Fosse apenas um bom relato disso, a obra já seria leitura obrigatória para quem gosta de jornalismo, futebol ou ambas as coisas. Só que o biografado é um tremendo personagem. Um vilão, sim, porque afinal enriqueceu roubando. Mas um vilão complexo, sacana e humano, narcisista e generoso. Não é como Ricardo Teixeira, o escroque clássico, que saqueou o futebol brasileiro sem ao menos tentar parecer simpático.

A história de Hawilla é muito mais rica: quem o conheceu sabe que ele era fascinante em vários sentidos. Começou radialista no interior, se tornou repórter da TV Globo, perdeu o emprego por comandar a maior greve de jornalistas do Brasil. Como empresário, primeiro fracassou; depois, virou milionário, guinado pelo faro de negociante  natural, quem sabe, de sua descendência libanesa. Só que Jota era brasileiríssimo, e sua trajetória ajuda a entender o processo de formação de um corrupto. Como alguém que quer apenas crescer “se dando bem” atravessa a fronteira ética e suja as mãos?

Jota começa a enriquecer vendendo placas de publicidade em estádios. Até aí, apenas esperteza. Descobriu um filão pouco explorado, beneficiado pelos contatos dos tempos de repórter e executivo de televisão. Dali, descobre que vender direitos de transmissão dos jogos poderia ser ainda mais rentável. Segue aproveitando suas boas relações e jogando, digamos, dentro das regras do mundo dos negócios. 

Não é como Ricardo Teixeira, o escroque clássico, que roubou sem nem tentar parecer simpático

A vida começa a complicar em 23 de janeiro de 1991. Em uma reunião no Paraguai, para comprar os direitos da Copa América, é chamado a sós pelo presidente da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) Nicolas Leóz e escuta o dá-ou-desce existencial. Para seguir tocando o negócio, teria que pagar uma propina entre 400 e 600 mil dólares. Nesse instante, o empreendedor esperto se torna um picareta. E Jota passaria os 27 anos seguintes numa vida dupla, alternando os papéis de empresário respeitado e de corrupto.

A história é boa demais, ainda que o detalhamento de alguns episódios possa cansar em determinadas passagens. Hawilla, mulherengo e supersticioso a ponto de não andar em carros pretos, é uma figuraça. A descrição de ambientes e acontecimentos vai em clima de thriller em momentos essenciais, como o da prisão dos engravatados bandoleiros da bola em um hotel de luxo na Suíça. É uma pena que Jota não tenha tido tempo de ver a sua própria história tão bem contada.

Quem escreveu esse texto

Sérgio Xavier Filho

É autor de Boston: A mais longa das maratonas (Arquipélago).

Matéria publicada na edição impressa #13 jul.2018 em junho de 2018.