Entrevista,

Verdades inconvenientes

Em entrevista sobre novo livro, repórter da “New Yorker” fala de drogas, reality shows e autoengano em tempos de hiperexposição — e isolamento

05abr2020 - 06h53

Canadense criada no Texas, filha de filipinos, Jia Tolentino, 32, foi cheerleader, participou de um reality show adolescente numa praia em Porto Rico e integrou uma sororidade feminina nos tempos de faculdade na Virgínia. Além disso, é bonita, muito bonita. Um pré-conceito pode levar o leitor a levantar as sobrancelhas ao saber que se trata da mesma pessoa que leva uma audiência aos milhares à New Yorker, uma das publicações jornalísticas mais respeitadas dos Estados Unidos e do mundo, na qual atua como repórter, publicando três ou quatro artigos todo mês.

Millennial prodígio da revista, com passagens pelo Jezebel (site voltado ao público feminino) e colaborações para veículos como The New York Times Magazine, Grantland (da ESPN) e Pitchfork (portal dedicado ao universo musical), Jia escreve sobretudo para uma geração que caminha aos trancos e barrancos em meio ao show de horror do capitalismo e ao mal-estar da internet, transformando em textos envolventes assuntos como coronavírus, folk rock, minimalismo, cigarros eletrônicos e por que as pessoas tratam seus cachorros como humanos.

Uma boa amostra de seu talento está reunida em seu primeiro livro, Falso espelho: identidade e autoimagem num mundo assolado pelo eu, que acaba de sair no Brasil pela editora Todavia. Ao longo de nove ensaios inéditos, ela foca questões de autoimagem e autoengano tendo a internet como órgão central da vida contemporânea, e mostra como as plataformas que prometiam conexão começaram a provocar alienação em massa. Segundo Jia, a internet maximiza o nosso senso de oposição, nos faz supervalorizar nossas opiniões, degrada a nossa compreensão de solidariedade e distorce o nosso senso de identidade e a nossa noção de escala.

A subjugação das heroínas adultas na literatura, a eleição de Donald Trump — “o golpe final e definitivo para a geração millennial” — e as imposições cada vez mais punitivas da indústria de beleza são alguns dos temas abordados no livro, misturados a perspicazes insights de cunho pessoal sobre religião, casamento, reality shows e drogas psicoativas. Com engenho e lucidez, Jia empossa a voz de uma geração para refletir sobre a dificuldade de enxergar a si mesmo em um mundo assolado pela hiperexposição. Confira a seguir a entrevista concedida por Jia, via e-mail, à Quatro Cinco Um.

Falso espelho se concentra amplamente no conceito de autoilusão. Na sua opinião, qual é a pior autoilusão da humanidade neste momento?

Tendo a pensar que a autoilusão mais generalizada e perigosa, pelo menos nos Estados Unidos, é a fantasia do individualismo capitalista — que nosso propósito como seres humanos é ter uma vida tão feliz e confortável quanto possível, e que podemos e devemos chegar lá colocando os nossos próprios interesses acima de tudo. A era do coronavírus iluminou os limites e perigos extremos do capitalismo e do individualismo quando são levados a extremos. Tenho esperança de que saiamos disso com uma compreensão muito mais visceral de que a sobrevivência, o bem-estar e a felicidade coletivos são a base da sobrevivência, do bem-estar e da felicidade individuais. Ninguém pode viver confortavelmente enquanto o resto do mundo queima, mesmo achando que pode — há uma podridão que se instala na alma.

Você descreve a internet como um "febril, elétrico e inabitável inferno". Como isso muda nos tempos de quarentena? Ganha intensidade?

Atualmente, a internet é o único meio de conexão entre nós. Fiquei muito, muito grata por poder ver amigos no FaceTime e no Zoom, e pela maneira como a internet pode transmitir, imediatamente e a uma audiência de massa, como estão vivendo este trabalhadores de supermercado, funcionários de hospital, caminhoneiros etc. Mas, em quarentena, acho que é ainda mais óbvio que a internet tende a um volume de informações simultâneas e confusas, que nosso cérebro não foi feito para manejar por longos períodos de tempo. Ela confunde o banal e o urgente de maneiras realmente confusas, nos conecta de maneiras que nunca poderão substituir o tipo de comunidade, apoio, amizade e amor que buscamos na vida real.

As mídias sociais fizeram com que nos levássemos (e nossas opiniões) a sério demais, ou apenas jogaram luz em como sempre fomos?

Acho que ambos. Para mim, a internet não muda quem somos — apenas monetiza e incentiva a monetização de certas coisas (opiniões, corpos, desempenho de identidade) que antes só eram realmente monetizáveis se você fosse uma figura pública. Foram os incentivos e as estruturas que mudaram, não as nossas tendências básicas.

Atualmente, o Brasil está transmitindo a 20ª edição do Big Brother Brasil, que acaba de quebrar o recorde histórico de número de votos. Isso em parte se deve ao fato de os participantes refletirem a polarização extrema da sociedade atual. Por que acha que estamos vivendo esses tempos tão binários?

Estamos em uma situação tão difícil que parece claro que talvez sejam necessárias soluções extremas para nos levar a um futuro viável. Para simplificar bastante a polarização que está acontecendo em todo o mundo no momento, nos é apresentada uma escolha entre (à direita) priorizar o lucro individual ou (à esquerda) priorizar a sobrevivência coletiva, entre estreitar continuamente nossa zona de proteção ou expandi-la continuamente, entre maior concorrência e maior cooperação.

Como alguém que já participou de um reality show, você diria que esse formato se alimenta da crueldade social?

Sabe, eu praticamente parei de assistir a reality shows depois de 2005, quando passei o meu tempo nessa indústria. (Embora tenha passado anos assistindo ao programa Shark Tank, que adorei.) Pelo que posso dizer, há exemplos de reality shows que funcionam com um ethos diferente — Terrace House [série japonesa em que estranhos aprender a conviver em comunidade, mas sem confinamento] ou The Great British Baking Show [competição de confeitaria britânica em que os jurados se restringem a críticas construtivas]. E não tenho certeza se algo como Keeping up with the Kardashians se alimenta da crueldade da maneira como alguns outros reality shows de pessoas ricas parecem fazê-lo. Para mim, esses programas parecem oferecer (além de uma oportunidade constante de espanto) uma espécie de espaço de ensaio narrativo, um lugar para as pessoas elaborarem ideias sobre superioridade e inferioridade, sobre quem é atraente e quem não é. Mas não sei, na verdade, porque não assisto a eles!

Você escreve que não importa que Trump não cumpra promessas, desde que seja homem, rico, branco e agressivo, pois ele representa o ideal americano de poder. Eu diria até que ele representa o ideal global de poder, pois a lógica parece se aplicar a muitos países hoje (inclusive o Brasil). Por que você acha que isso está acontecendo planetariamente?

Você está certa. Filipinas e Hungria, entre outros países, vêm à mente. Eu acho que isso remonta à questão básica de saber se sobreviveremos limitando ou expandindo nossa compaixão, priorizando alguns poucos definidos de maneira restrita ou estendendo as proteções a tantos quanto pudermos.

Você diz que se espera das mulheres hoje uma aparência impecável naturalmente, algo disfarçado sob a bandeira da "beleza real". Comparando com o tempo em que as revistas nos diziam para emagrecer, contornar o rosto com maquiagem e alisar o cabelo, considera essa nova norma — que muitas vezes surge disfarçada de autocuidado e vida saudável — um avanço?

Eu acho que o ideal de beleza realmente se diversificou, o que é de um lado realmente muito bom, mas, de outro modo, meio inútil: que tipo de liberdade é essa de todos poderem ser bonitos se ainda por cima todos devem ser bonitos? Mas, em termos do novo tipo de ideal de beleza do Instagram, isso envolve uma tonelada de dinheiro investido em exercícios, “bem-estar” e cuidados com a pele, além de procedimentos como extensão dos cílios e preenchimentos de lábios e bochechas, para que as pessoas possam usar “maquiagem mínima” e dizer que curtem uma "aparência natural". São apenas dinheiro e esforço se transferindo para lugares diferentes no setor de beleza, e isso é igualmente e talvez até mais punitivo do que os dogmas passados de ideal, porque agora a linguagem do feminismo está misturada nisso tudo.

Um de seus ensaios aponta o preconceito relacionado às personagens femininas adultas na literatura. Que escritoras contemporâneas você tem lido?

Acabei de devorar  uma prova de divulgação do novo livro da Elena Ferrante, A vida mentirosa dos adultos [previsto para ser lançado no Brasil pela editora Intrínseca neste ano]. Passei a quarentena lendo a trilogia Wolf Hall (Record) da Hilary Mantel. Nesta manhã, pedi um monte de cópias da nova coletânea de ensaios de Samantha Irby para enviar aos meus amigos que estão presos em casa. Nos últimos seis meses, estive gravitando bastante em torno da literatura estrangeira, que me parece mais vigorosa — eu gostei muito de Eggs and breasts [“Seios e ovos”, ainda sem edição brasileira] de Mieko Kawakami.

Você é bastante aberta em relação às suas experiências com substâncias psicoativas. Acredita que todos poderiam se beneficiar delas, se usadas com segurança?

Talvez nem todos — eu nunca aconselharia alguém que está se sentindo proibitivamente instável ou que enfrenta fortes dificuldades clínicas de saúde mental a “viajar” muito durante um dia inteiro. Mas com certeza acesso grande parte da minha conexão fundamental com a alegria, a clareza, o enraizamento, a gratidão e a liberdade por meio de experiências ocasionais com drogas, e espero que a pesquisa médica sobre usos terapêuticos de psicodélicos e MDMA avance.

Espero que, uma vez que todos nos acostumemos a estar perto de outras pessoas de novo, muitos aproveitem a ocasião para ir a um lugar bonito com os amigos e usar uma quantidade responsável de drogas, ouvir música e dançar, fazer uma bela refeição e saborear o prazer de estar na companhia um do outro, vivendo em um mundo onde as coisas crescem, onde tanta coisa é possível, onde os animais ainda vagam (por enquanto).

Gostei muito de uma frase sua sobre “a exigência e a impossibilidade de uma pessoa conhecer a si mesma sob as condições artificiais da vida contemporânea". Há alguma saída?

Talvez seja apenas tentar ser honesto a respeito de quem você é, o que você quer e por que você quer, sobre onde você se posiciona dentro dos sistemas do mundo, na medida do possível, e depois seguir em frente — pensar em entender, como pré-condição para fazer o que você realmente quer e pode fazer, o fato de estar vivo.

Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).