Literatura infantojuvenil,

A Copa da menina

Inspirado na relação das suas filhas com o futebol, escritor pernambucano faz retrato bem humorado do evento esportivo

23set2022 - 14h30 | Edição #61

As crianças estão em casa e querem assistir ao desenho animado, mas são impedidas porque o pai quer assistir a essa tal de Copa do Mundo. Foi por causa dela também que a casa foi decorada com as cores da bandeira do Brasil e o pai não para de assustá-las com seus gritos. A partir do olhar de Martinha, é apresentado às crianças o maior evento esportivo do mundo. Aproveitando que a Copa do Mundo do Catar acontece em novembro, a editora Vacatussa resolveu lançar o bem humorado Dona Copa, do pernambucano Thiago Corrêa Ramos e com ilustrações de Eduardo Padrão, que atualmente faz parte do Mundo Bita.

Em entrevista à Quatro Cinco Um, o escritor Thiago Corrêa Ramos, pai de Aurora, de oito anos, e Helena, de cinco, conta das expectativas para a Copa, a presença das mulheres no futebol e como é preciso voltar a se apropriar do verde e amarelo.
 

Como surgiu essa ideia de escrever esse livro?
Tenho duas meninas. A mais velha nasceu em 2014, depois da Copa do Brasil. Daí, em 2018, foi a primeira Copa a que eu assisti como pai. Quando ela começou, peguei as minhas filhas e botei minha mesa na frente da TV para tentar trabalhar e assistir à Copa — eu sou daqueles que tenta acompanhar todos os jogos. E, naturalmente aconteceu de eu gritar “gol” e as meninas se assustarem e chorarem, de elas quererem assistir a desenho e eu estar na televisão vendo jogo ou mesa-redonda. Já em 2018 escrevi a primeira versão do livro, no qual trabalhei por quatro anos. No começo deste ano, passei a trabalhar com o ilustrador Eduardo Padrão. A partir de algumas considerações que ele fazia, eu mexia no texto. Foi bem gostoso fazer essa história.
 


Ilustrações de Eduardo Padrão

Como era a rotina de trabalho com o ilustrador Eduardo Padrão?
Começamos a trabalhar em março. Eu e Eduardo somos amigos, e a gente tinha esse projeto que chamava Revista Vacatussa, que publicava uma série de poemas ou contos e cada texto era ilustrado por artistas diferentes, e Eduardo foi um deles. Ele também é pai de meninas, embora ele não seja tão ligado a futebol. Ele fez contribuições que eu nem imaginava. Ele é da equipe do Mundo Bita, trabalha com animação e fez algumas considerações sobre o texto. Alguns termos que poderiam ser problemáticos, a gente tentou evitar por causa dele. Aí eu trocava, sem perder nada na narrativa.

A gente discutiu muito sobre a questão cromática. Como vai ser um livro sobre Copa, a gente já pensa logo em verde e amarelo – e essas cores hoje em dia são problemáticas, pois foram apropriadas por um grupo político que é o oposto do nosso. Aí foi um problema: falar da Copa e da seleção sem usar o verde e o amarelo, que foram apropriados por outra visão política. Fizemos alguns testes com cores e optamos por ficar no verde e amarelo mesmo. Primeiro, porque o verde e o amarelo não são do Bolsonaro; o verde e o amarelo são do Brasil. Deu para amenizar um pouco. Eduardo fez algumas camisas que eram estilizadas ou listradas, ou com uma faixa que não remete diretamente à camisa da seleção brasileira. Só em alguns casos, quando a gente faz homenagem a alguns jogadores, que de fato a gente usa a camisa da seleção. Aí, em um momento, a gente deu um jeito de se posicionar politicamente, como uma espécie de easter egg.
 
No livro, você dá um destaque também para o futebol feminino, trazendo a Marta, por exemplo.  
Hoje em dia a gente não pode mais pensar em fazer literatura, fazer qualquer coisa sem pensar nessa questão racial e de igualdade de gênero. Isso se sobressai pelo fato de eu ser pai de duas meninas, e isso é uma preocupação. A gente tenta quebrar essa doutrina da minha geração do começo dos anos 80. Fui educado de um jeito totalmente errado, em que a menina tem seu lugar e o menino outro. Hoje eu tento quebrar isso. E a valorização do futebol feminino é uma luta constante, de ter igualdade, a mesma visibilidade. É uma luta para elas até para ter o campeonato. Elas ainda estão batalhando sobre a questão de premiação. Um tijolinho de cada vez.

Como é que foi fazer esse exercício de olhar para o futebol com o olhar das crianças? 
É um exercício que eu tento praticar, acho que praticamente dentro de todos os meus livros infantis. Tento praticar esse olhar do outro e mesmo nos outros adultos, quando você tenta escrever sobre um personagem você tenta se colocar na posição do outro. Então, esse é um exercício da literatura, está intrínseco a literatura e aqui eu tento fazer isso. E faço algumas brincadeira com o hino, e até mesmo os adultos não conhecem algumas palavras, que ficaram arcaicas e já não estão no nosso vocabulário.

Inclusive, o título Dona Copa não existia, apesar de estar no texto. Durante muito tempo trabalhei nesse texto como “A copa da menina”, e quando Eduardo foi fazer as ilustrações, a primeira coisa que ele fez foi usar um recurso que no jornalismo a gente chama de olho, que dá destaque a determinado trecho do texto e coloca numa fonte maior. Aí o Eduardo usou “Dona Copa", e quando ele me mostrou, eu disse: “Você acabou de rebatizar o livro!”. Aí ficou Dona Copa.
 

Existe algum livro que você gostaria de ter lido na sua infância?
Olha, difícil. Tem um livro que adoro, que conheci já adulto porque comprei para as minhas filhas, e que virou meu: Até as princesas soltam pum, de Ilan Brenman. Acho maravilhoso esse livro porque desconstrói um pouco essa ideia de princesa e isso é importantíssimo. Desconstrói essa ideia da princesa que não é um bibelô. Tem um livro legal também sobre futebol que é A menina que amava futebol (Editora Moderna), depois que eu já estava nesse processo de publicar que eu vi aí comprei pra ler, assim. É interessante. Fala de uma menininha querendo jogar futebol e não podia porque os meninos lá da rua colocavam ela sempre como juíza. 
 
Como incentivar o hábito de leitura entre as crianças?
A gente sempre fez questão de comprar muitos livros paras as minhas filhas e ler. A hora de dormir é o momento da historinha. Existem uns livrinhos que elas gostam. É engraçado porque a mais nova não sabe ler, e a mais velha fazia a mesma coisa nessa idade. Elas pegam uma revistinha da Turma da Mônica ou um livrinho e a gente pergunta: “O que você tá fazendo?”. Elas respondem: “Estou lendo”. É engraçado porque ela não sabe ler. Mas vê as imagens e vai se apropriando daquilo da maneira dela. O hábito vem de ver gente lendo também. Na infância, as escolas dão conta e elas criam essa curiosidade e essa relação com a leitura. O problema vem depois, acho. Quando chega a época de vestibular você meio que para de ler; só voltei já na universidade. Então, acho que há esse lapso de ter que ler José de Alencar, por exemplo. Isso que afasta. Não está na idade.

Tem mais algum aspecto do livro que você gostaria de comentar?
Sim, eu e Eduardo discutimos a representatividade dos personagens. Eu sou branco, ele é branco [a família que aparece em Dona Copa é negra]. A gente não sabia direito se podia se colocar dessa forma. Tivemos algumas conversas e, no fim das contas, ele aceitou, não foi uma imposição, mas ele percebeu como seria bom trazer essa questão da representatividade para o livro, então fizemos personagens negros. Mas eu ainda tenho uma certa dúvida se caberia a gente falar. Não seria mais fácil um autor negro falando? Mas o papel da literatura é o da alteridade, de se colocar no lugar do outro e a questão racial não está colocada no livro. Não entrei nesse tema, mas tem a questão da escolha das cores dos personagens, a gente acabou optando por personagens negros e demos vida a eles.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #61 em julho de 2022.