Ensaio,
O feminismo de Susan Sontag
Coletânea de textos da intelectual norte-americana mostra sua relação ambígua com a vertente radical do movimento das mulheres
10jun2026 • Atualizado em: 09jun2026 | Edição #107Em 1978 Susan Sontag, em entrevista a Jonathan Cott para a Rolling Stone, falou sobre sua relação com o feminismo: “Como já disse no passado, não acho que a emancipação feminina esteja ligada à igualdade de direitos. É uma questão de ter igualdade de poder, e como as mulheres terão isso se não participarem das estruturas que já estão aí? Minha ideia é acabar com a segregação. Sou um tipo de feminista antissegregacionista”.
Sontag já havia expressado esse pensamento em “O Terceiro Mundo das mulheres”, quando respondeu a um questionário, em 1972, para a revista em língua espanhola Libre, que havia sido enviado a outras cinco mulheres (dentre elas, Simone de Beauvoir): “Qualquer programa sério para libertar as mulheres deve começar com a premissa de que libertação não tem a ver só comigualdade (a ideia ‘liberal’). Libertação tem a ver com poder. Mulheres não têm como ser libertadas sem que se reduza o poder dos homens”.
Cinquenta anos se passaram, e é assustador ver como essa argumentação continua atual, ainda mais em um Brasil cujos índices de feminicídio crescem a cada ano, apesar — ou talvez por causa — dos avanços alcançados pelos movimentos das mulheres. É comum ver uma reação conservadora se intensificar diante de momentos em que grupos oprimidos conseguem obter mais direitos. Foi num período como este que Sontag escreveu “O Terceiro Mundo das mulheres”, “A beleza de uma mulher: desvalorização ou fonte de poder?” e outros cinco textos presentes em Sobre as mulheres, organizado postumamente por David Rieff, seu filho.
Os ensaios foram publicados entre 1972 e 75, em meio à segunda onda do feminismo, na qual as mulheres procuraram ampliar direitos após a conquista do voto. Todos continuam bem atuais, inclusive “O duplo padrão do envelhecer”, que analisa a diferença entre a aceitação social do envelhecimento feminino e a do masculino; “Beleza: qual será a próxima mudança?”, sobre como a beleza não é só estética, mas uma forma de controle patriarcal para manter a submissão das mulheres; e uma entrevista à revista Salmagundi, formato em que Sontag brilha, por ser o diálogo uma de suas atividades preferidas.
A autora reconhecia a importância das pautas feministas, como a crítica ao patriarcado e a defesa da autonomia das mulheres — tanto que, em uma entrada do seu diário de 1972, escreveu que as “mulheres” eram um dos seus principais temas de investigação. No entanto, evitou se identificar como feminista radical — uma das fortes vertentes da época —, preferindo manter uma postura de intelectual “dissonante”, que não se encaixava em rótulos.
Fascismo
O verdadeiro compromisso de Sontag era com o “livre pensar”, mais do que com qualquer sentimento identitário ligado ao gênero ou a outra categoria social. Ela não queria ser reconhecida intelectualmente por ser mulher, publicar textos apenas em revistas femininas ou circular em ambientes exclusivamente femininos. E defendia o mesmo com relação ao trabalho de outras mulheres — é exatamente essa linha de raciocínio que encontramos em um de seus ensaios mais conhecidos: “Fascinante fascismo”, de 1974, também presente na coletânea.
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Sontag questiona o destaque da diretora e atriz alemã Leni Riefenstahl no Festival de Cinema de Nova York de 1973, ao lado de outras cineastas como Agnès Varda e Shirley Clarke. Conhecida por filmes como Triunfo da vontade (1935) e Olympia (1938) e por sua ligação próxima com o nazismo, Riefenstahl estava sendo resgatada como artista, inclusive com a publicação do livro de fotografias Die Nuba (1973), que retratava o povo nuba das montanhas no sul do Sudão. Era como se sua arte, apontava a ensaísta, tivesse sido produzida sem ter nenhuma ligação com seus posicionamentos políticos.
Na visão de Sontag, as criações artísticas de Riefenstahl eram celebradas apenas por ela ser uma das poucas cineastas a “ter feito filmes que todos consideram de primeira linha”, tendo se tornado um “ícone” por causa da “cultura cinematográfica”. No início dos anos 70, com o avanço das lutas pelos direitos das mulheres, o fato de ser mulher se sobrepunha ao de ter sido uma artista que colaborou com a difusão do nazismo. O pensamento crítico, então, teria sido suprimido em favor da afirmação de uma identidade de gênero.
O compromisso de Sontag era com o ‘livre pensar’, mais do que com sentimentos identitários
Após a publicação desse ensaio, a escritora e ativista feminista Adrienne Rich enviou uma carta àNew York Review of Books criticando os posicionamentos desenvolvidos por Sontag em “Fascinante fascismo” e apontando as contradições do ensaio e de “O Terceiro Mundo das mulheres”. Este, segundo Rich, “começa a parecer no fim das contas mais um exercício intelectual do que a expressão de uma realidade sentida — a sua própria — interpretada por uma mente arguta”. Na sua visão, não há continuidade de pensamento entre um texto e outro, e falta, nos trabalhos de Sontag, “uma reflexão séria acerca dos valores feministas”.
A carta, junto com a resposta de Sontag, aparece logo em seguida a “Fascinante fascismo”, sob o título “Feminismo e fascismo: um diálogo entre Adrienne Rich e Susan Sontag”. Nesse texto, assim como em seu diário, Sontag critica o “anti-intelectualismo” de determinada retórica feminista.
“Seria de se pensar que Sontag não fosse se dissociar do feminismo”, observa Rich. Certo. Mas eu me dissocio, sim, daquela ala do feminismo que promove a rançosa e perigosa antítese entre a mente (“exercício intelectual”) e a emoção (“realidade sentida”). Pois justamente esse tipo de diminuição banal das virtudes normativas do intelecto (seu reconhecimento da inevitável pluralidade das reivindicações morais; os direitos que ele concede à hesitação e ao distanciamento, caminhando lado a lado com a paixão) é também uma das raízes do fascismo — aquilo que eu estava tentando expor em minha argumentação sobre Riefenstahl.
Esse alerta de Sontag ainda serve para todos nós.
Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “O feminismo de Susan Sontag”
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