Literatura em língua portuguesa,

A poesia rara de Maria do Rosário Pedreira

O autor de ‘Torto arado’ relata o seu primeiro encontro com a poeta, sua editora portuguesa, e com a obra da nova amiga

28jun2022 - 15h08 | Edição #59

Em fevereiro de 2019 desembarquei em Portugal pela primeira vez. Era autor convidado do Festival Correntes d’Escritas, em Póvoa de Varzim, e lançaria Torto arado dali a alguns dias em Lisboa. No aeroporto, era aguardado por Maria do Rosário Pedreira. Desde o anúncio do Prêmio LeYa, em outubro de 2018, tínhamos trocado diversos e-mails sobre o processo de edição do livro: revisão do texto, capa, estratégias várias que antecipam a publicação. Mas ainda não havíamos nos encontrado pessoalmente.

A insegurança de editar o livro em um país que não era o meu levou-me a querer saber mais sobre as pessoas com quem passei a trabalhar. Antes de viajar a Lisboa, comecei a ler entrevistas e escritos de Maria do Rosário. Descobri que, além de seu conhecido e elogiado trabalho como editora — lançou os primeiros livros de Valter Hugo Mãe, João Tordo, José Luís Peixoto e Djaimilia de Almeida Pereira —, Rosário é também poeta, escritora e letrista de canções, que têm como intérpretes grandes nomes da música portuguesa: Aldina Duarte, Salvador Sobral, António Zambujo e Ana Moura. Conhecer um pouco de sua biografia me lançou numa teia de sentimentos contraditórios: ao mesmo tempo que antevia o seu trabalho de edição como uma oportunidade para meu livro, sentia-me pequeno diante de toda a experiência que ela acumulava como editora e artista.

Para minha sorte e tranquilidade, Rosário me recebeu tímida, mas com uma generosidade que lhe é peculiar. Quando deixei o desembarque e a encontrei à minha espera, tratou de quebrar a formalidade do primeiro encontro com um convite: “Venha ver a montra com teu livro”. E, claro, fiquei imensamente perturbado de ver aquele livro escrito sem grandes pretensões ocupando toda a vitrine daquela livraria no aeroporto. 

Eu não imaginava o ritmo intenso de compromissos que teria nos dias que se seguiram, fosse na editora, ou nas livrarias, ou nas Correntes d’Escritas. Rosário me acompanhava em quase todos, certamente para se certificar de que eu estava confortável, assistido, que me sentia de fato acolhido. Essa proximidade foi moldando uma amizade que se seguiu ao meu retorno ao Brasil. 

Nesse ínterim, fui conhecendo e me aprofundando na sua obra poética, pequena em sua extensão, mas que, por ser rara, é sempre recebida com muito entusiasmo por seus leitores. Percebendo meu interesse em seus escritos, me ofertou sua Poesia reunida. Foi nesse volume que tive contato com A casa e o cheiro dos livros (Quetzal, 1996), vencedor do Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho. Era sua estreia na literatura, dessa vez como autora, aos 36 anos. Nesse primeiro livro se anunciam os temas pelos quais transitam seus versos: o amor, os encontros e desencontros, a morte, a solidão e a memória. É o amor, sobretudo, que desponta com grande força e nos mantém deslocados por ser matéria quase que estranha à poesia contemporânea. Nesse primeiro livro despontam versos intensos, vertiginosos: “Agora o corpo é mais um barco que se solta/ Nele navegam primeiros os olhos e os receios/ E só depois a polpa dos dedos, à deriva, que/ é quem faz o sabor das ondas nesse mar”, e que nos dão a dimensão do lugar definitivo de sua poesia na literatura de língua portuguesa.

Seus versos me reconectaram à palavra e à alma, disperso que eu estava pelos tempos duros

Cinco anos depois publica O canto do vento nos ciprestes (2001). Maria do Rosário retorna aos seus temas de eleição e nos presenteia com sua poesia marcante. Um terreno onde dançam o amor e a dor, amantes, indissociáveis, a andar em par pelos caminhos da vida: “O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras/ com a nudez do teu nome — é um fantasma que estrebucha no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas”. No prefácio do livro, o escritor e crítico Pedro Mexia escreve: “Esta poesia não teme o trágico nem o ridículo, que é o trágico visto de fora. O vento fúnebre que canta nos ciprestes é como o espírito que sopra onde quer”.

Depois da publicação de O canto do vento nos ciprestes, seguiram-se Nenhum nome depois (2004) e A ideia do fim (2012), reunidos em um só livro, o já citado Poesia reunida. Ali os sentimentos vivificam tudo que faz parte da paisagem humana — dos animais à terra —, tornando-nos um só corpo: “Escrevo o teu nome e um pássaro levanta-se da terra/ — sobre o seu voo contariam os teus olhos mil histórias/ que eu escutaria com o mesmo silêncio admirado/ com que na boca cai um beijo ou a noite atira o amor para cima das camas”.

Reconexão

Nos idos de maio deste ano recebi seu novo livro, o meu corpo humano, grafado assim mesmo, em minúsculas. Estava a caminho do Festival Literário de Araxá e carreguei-o para voos e conexões. A poesia de Rosário era a companhia de que eu precisava. Por ser o corpo o centro desse volume, e o de nossas vidas, seus versos me reconectaram à palavra e à alma, disperso eu estava pelos tempos duros que atravessamos. Cada poema é dedicado a uma fração desse corpo, território ao mesmo tempo violado e inviolável, como este que segue: “Do que se passa atrás de/ mim, prefiro não saber; a/ menos, claro, que tu decidas,/ à traição, beijar-me a nuca”. Versos a nos recordar o corpo — ao mesmo tempo meu, teu, nosso — e uma língua para compartilhá-lo.

Já que nem todos os leitores poderão desfrutar da convivência afetuosa ofertada por Maria do Rosário, que pelo menos se deleitem com sua “poesia avara”, como bem descreveu o crítico Pedro Mexia. Eu costumo relatar aos conhecidos que o Prêmio LeYa — que trouxe ao mundo dos leitores meu romance que nem sequer tinha editora — na verdade são dois prêmios: o LeYa, com todo o seu prestígio, e a edição (e a amizade) de Maria do Rosário Pedreira. Que sua obra, traduzida da Colômbia à Itália, que inclui as crônicas bem-humoradas de Adeus, futuro e seu cancioneiro com inúmeros e belíssimos fados, encontre muitos admiradores — como este que vos escreve — por onde passar.

O especial Livros que falam a nossa língua tem o apoio de Portugal – País convidado da Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2022

Quem escreveu esse texto

Itamar Vieira Junior

Recebeu o Prêmio LeYa pelo romance Torto arado (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #59 em junho de 2022.