Coluna

Kalaf Epalanga

Um benguelense em Berlin

Viva a música africana!

Ver os artistas africanos da nova geração ocuparem espaços que julgávamos proibidos ou só ao alcance dos artistas afro-americanos é inspirador

31mar2020 - 01h00 | Edição #32 abr.2020

“A nova geração de artistas vindos de África vai surpreendê-los. Chegou a hora!” Foi com essas palavras que a cantora, atriz e ativista Angélique Kidjo fechou seu discurso de aceitação do galardão de Melhor Álbum de Música do Mundo na 72a cerimónia do Grammy Awards diante de uma plateia recheada de astros. A senhora Kidjo referia-se à nova vaga de música africana nascida no triângulo Lagos— Acra—Londres e designada afrobeats (com “s”), que não deve ser confundida com afrobeat — gênero criado pelo músico e ícone cultural nigeriano Fela Anikulapo Kuti e sua banda Africa 70, fundindo música highlife e juju com ritmos de jazz e funk.

O afrobeats é uma mistura irresistível de afro-pop, R&B e funky house. Não é exagero afirmar que se trata da manifestação musical com mais potencial de crescimento hoje e que encontra paralelo com poucos gêneros, como o reggaeton da América Latina. O afrobeats é a maior revolução musical vinda do continente depois de Miriam Makeba e Fela Kuti e, ao contrário do que aconteceu com a música do Mali e do Senegal, não precisou do rótulo world music nem do co-sign francês para tomar de assalto as tabelas de vendas do pop mundial. Bastou-lhe o YouTube, passos de dança e os jovens da diáspora residirem na Europa e nos eua para se globalizar.

O afrobeats é a maior revolução musical vinda do continente depois de Miriam Makeba e Fela Kuti

Nenhum outro grupo demográfico precisou nos dizer que a canção “Oliver Twist”, do nigeriano Oladapo Daniel Oyebanjo aka D’Banj, era boa. Fomos nós, os ouvintes de origem africana, que a fizemos virar nosso hino no verão de 2012, uma proeza sem precedente que a fez atingir o número 2 na tabela de R&B do Reino Unido — a ponto de Kanye West, que sabe muito bem farejar sucesso, não resistindo ao hype originado em volta de D’Banj e do produtor Don Jazzy, lhes oferecer um contrato.

O mesmo sucedeu com Wizkid, P-Square e Innocent Ujah Idibia aka 2Baba, outros grandes nomes do afrobeats assinados pelo cantor e empresário Akon — que jamais se perdoaria se lhe tivessem passado esses artistas; afinal, não podemos esquecer que foi através da gravadora desse filho de imigrantes senegaleses nos eua que ficamos a conhecer Lady Gaga e T-Pain.

Para muitas pessoas, o afrobeats entrou em suas vidas de forma despercebida, quando Drake, na sua faceta Sinatra, de crooner do novo milênio, brindou-as com versos memoráveis como “Oti, oti, there’s never much love when we go ot”, no já clássico “One Dance (feat. Wizkid & Kyla)”. Admitamos, nenhum amante de música poderá dizer que o verão de 2016 não se tornou um pouco mais interessante com a existência dessa canção. Pois bem, só temos que agradecer a Wizkid, starboy nigeriano que assina um dos maiores hinos do gênero, “Ojuelegba”, canção que o colocou no radar de Drake e rendeu o remix “Ojuelegba (feat. Drake & Skepta)”, este último filho de pais nigerianos e uma das maiores vozes do grime britânico.

Como não nos comovermos diante da exuberância e optimismo que essa nova música africana exala? Ver-los ocuparem espaços como estádios e pavilhões desportivos, arenas e casas de espetáculo que julgávamos proibidos ou só ao alcance dos artistas afro-americanos é inspirador. Imaginem o que poderá fazer a próxima geração de Burna Boy, Davido, Tiwa Savage, Mr. Eazi, Yemi Alade e Niniola? Esses e outros tantos. Não os conheço a todos, mas trago muitos debaixo d’olho, observo suas tentativas, hesitações e descobertas de novos caminhos para a música popular.

Não sei dançar o gwara gwara ou o shaku shaku, mas sei que quem os cria e pratica é cool e, até onde consigo entender, ser cool é ser apenas, sem esforço. É saber tirar o melhor de cada experiência, é deixar que tudo à nossa volta pulse e vibre de acordo com sua intensidade própria.

Em 2018, o Spotify anunciou a criação do Afro Hub, seção de playlists que visam celebrar a cultura e a música africanas. Era uma questão de tempo até que o músico inglês de origem ganesa Fuse odg aka Richard Abiona colocasse metade dos súditos da rainha Isabel 2a , incluindo o ex-primeiro-ministro David Cameron, a dançar seu “Azonto” em 2013. Estávamos diante de uma inevitabilidade. África viraria negócio, e os africanos seriam os primeiros a se beneficiar de suas criações.

Missão própria

Diante desse levante cultural, vêm- -me à mente as palavras de Frantz Omar Fanon, psiquiatra, filósofo e ensaísta marxista nascido na Martinica, um dos mais influentes pensadores do século 20, que desbravou discussões sobre descolonização que inspiraram muitos dos pais das revoluções africanas das décadas de 1960 e 70, incluindo Fela Kuti. Uma de suas tiradas que mais celebro diz: “Cada geração, dentro de uma relativa opacidade, tem de descobrir a sua missão, cumpri-la ou atraiçoá-la”. Gosto de revisitar essa expressão sempre que me vejo envolvido em discussões sobre o conteúdo do afrobeats e sua mensagem. O facto de esses músicos optarem por não enfrentar o sistema tal como fez Fela Kuti não significa que a música que produzem não seja nutritiva.

À sua maneira, esta geração se propõe a mudar a percepção que se tem da cultura que produzimos, porventura sem grandes análises ou floreados sobre como artistas devem liderar a oposição a regimes opressores. A música desta nova geração, ainda que hedonista, é também um grito de resistência. Resistir ser rotulado de vítima passiva e à mercê da caridade ocidental, resistir ser rotulado de imigrante quando muitos nasceram na Europa e carregam duas ou mais nacionalidades. Essa música tal como nos chega vem devolver a dignidade à produção cultural africana como nunca antes vista. E isso é positivo, certo?

Quem escreveu esse texto

Kalaf Epalanga

Escreveu Também os brancos sabem dançar (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #32 abr.2020 em março de 2020.