Coluna

Kalaf Epalanga

Um benguelense em Berlin

Música sem fronteiras

Dino d’Santiago estabelece diálogos com o mundo da eletrónica, do zouk e do hip-hop para dar voz às histórias, angústias e alegrias da nação crioula

18abr2022 - 12h03 | Edição #57

No dia 2 de abril do corrente ano, eu e as minhas crianças experienciámos algo novo. Juntámo-nos a uma multidão de mais de 4 mil pessoas que lotou o Coliseu dos Recreios para assistir ao músico luso-cabo-verdiano Dino d’Santiago atuar pela primeira vez em nome próprio naquela que é uma das salas mais emblemáticas de Lisboa. Para meu primogénito e para minha caçula, que até à data só haviam marcado presença em espetáculos infantis, foi o primeiro concerto de música para gente grande. Para mim, foi a estreia absoluta no tão aguardado papel de pai que leva os filhos aos concertos. 

Segundo contam meus primos mais velhos, minha primeira vez num evento de música ao vivo foi no início dos anos 80, no pavilhão Estrela Clube Primeiro de Maio, em Benguela. Devia ter uns cinco ou seis anos, e recordo fragmentos a que dificilmente conseguirei atribuir uma data, um nome, um rosto ou uma canção que seja. Vivo bem com a amnésia cultural da altura, pois esta não chega perto do desconsolo que é não guardar lembrança alguma de atividades recreativas realizadas com meu progenitor. Nadinha, nem uma performance inusitada de um músico ambulante na saída do metro tocando canções de Bob Marley. 

Meu pai e eu nos conhecemos pouco, infelizmente. Desconhecemos as canções favoritas um do outro. Não tenho registo de algo a que possamos chamar de nosso. A voz lacónica com que nos brindávamos nas raras vezes em que falámos ao telefone cedo revelou uma incapacidade de construirmos cumplicidade. Saudávamo-nos com a formalidade de dois juristas trocando correspondência, seguindo imediatamente para o assunto a que vínhamos, sem demais rodeios, tal como funcionários de uma repartição de finanças numa troca de palavras cronometrada ao segundo. Depois de finda a sofrida interação, com os ombros curvados de tanto arrependimento, com a sensação de que ambos gostaríamos de ter escolhido outras palavras, mais afetuosas, martirizava-me até prometer a mim mesmo de que no próximo telefonema agiria de forma diferente. Nunca aconteceu, continuamos iguais.

A obra com que o músico nos serenou no Coliseu de Lisboa é fruto de um trabalho comunitário

Iguais talvez seja exagero, a verdade é que me martirizo menos com nossas interações siberianas. A partir do momento em que fui pai pela primeira vez, há cinco anos (na mesma altura em que Dino me bateu à porta convidando-me para produzir seus discos), passei a adotar a sutil arte de ligar o foda-se para tudo o que esteja além do meu controlo, uma epifania mais em linha com Charles Bukowski (que teve também uma relação austera com seu progenitor) e menos com Mark Manson, de quem pouco ou nada sei além de ser um bukowskiano confesso.

Na noite de consagração do Dino d’Santiago, filho de Jorge e Andresa, tivemos vários momentos emocionantes. Um dos que mais me afetaram, por estar a viver a que tem sido para mim a maior dádiva da paternidade, o ato de apresentar o mundo a uma criança, foi quando ele dedicou umas palavras ao seu filho Lucas: 

“Por ti, sonho esse lugar outro. Por ti sonho essa nação kriola. Por ti canto a nossa pele, a nossa história. Por ti canto a nossa memória para que possas ser livre, meu filho. Livre deste peso que ainda carrego. Livre dessa voz interior que me atormenta. Para que possas ocupar qualquer lugar. Para que possas respirar. Coisa simples, respirar. Para que não sejas mais uma má notícia de jornal. Para que as ruas sejam um lugar de passeio e não de marcha. Para que a tua mão pequena nunca tenha de se fechar em punho a rasgar os céus. Canto o que me inquieta para limpar-te o caminho para a Utopia. Para um Mundu Nôbu”.

A democratização da música

Através da música do Dino nos permitimos vislumbrar o futuro que a geração nascida depois das independências dos países africanos de expressão portuguesa se atreveu a sonhar quando a música se democratizou, com o advento da internet e do aparecimento de software de produção musical acessível. Não existiam maneiras de, a partir dos nossos quartos de dormir, criar obras que nos abririam as salas e os festivais. Durante anos estes estiveram somente ao alcance de meia dúzia de artistas abençoados. Agora Dino ocupa o palco sozinho, servindo-se apenas de luzes e de elementos gráficos projetados num ecrã, como o pano di terra, tecido feito de algodão que começou a ser produzido no arquipélago da Morabeza em meados do século 15 pelas pessoas escravizadas provenientes do golfo da Guiné, que dominavam a arte da tecelagem. Esse pano serviu de moeda no comércio esclavagista na costa oeste de África para comprar homens e mulheres que foram levados para construir o Brasil. Esse mesmo pano di terra que no período pós-independência se tornaria símbolo da identidade cabo-verdiana.

A obra com que o músico nos serenou no Coliseu de Lisboa é fruto de um trabalho comunitário com muitas fronteiras, mas sem limites. Música que parte do funaná, da morna e do batuku, catártico, cru e negro, que tornou possível a gerações dos novos cabo-verdianos, tanto os nascidos no arquipélago como na diáspora, se reconciliarem e aprenderem a reivindicar a herança proveniente do continente berço da humanidade. Tem sido inspirador testemunhar de perto a forma como Dino, a partir desses géneros basilares, femininos e badius, tem vindo a construir diálogos com o mundo da eletrónica, do zouk e do hip-hop. Dando voz às histórias, angústias e alegrias da nação crioula que tem o Atlântico como uma extensão do seu território e a música como o único refúgio para a alegria.

Quem escreveu esse texto

Kalaf Epalanga

Escreveu Também os brancos sabem dançar (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #57 em fevereiro de 2022.