Coluna

Kalaf Epalanga

Um benguelense em Berlin

O corpo negro de Moïse

Estaremos apáticos com notícias que deixaram de informar e passaram a disputar o título de programa de entretenimento com mais audiência?

01mar2022 - 04h51 | Edição #55

A cada 23 minutos morre uma pessoa negra no Brasil. O risco de um jovem afrodescendente ser morto na terra que reclama para si a nacionalidade de Deus é 2,5 vezes maior do que o de uma pessoa jovem que tenha o mesmo tom de pele (pelo menos o que habita nosso imaginário) do filho do Criador. A cristalina verdade que Emicida fez questão de nos relembrar no seu clássico AmarElo, ao cuspir: “Existe pele alva e pele alvo”.

Barras rijas como as que o filho da dona Jacira rimou na canção “Ismália”, que, como muitas outras da história da música brasileira, servem tanto de bálsamo como de alerta para a dura realidade das ruas. Tão dura que me pergunto, nos dias mais desesperançados, se não estaremos já anestesiados, apáticos com notícias que deixaram de exercer a função de informar e passaram a disputar, a par de novelas, seriados e bbb, o título de programa de entretenimento com mais audiência.

Da primeira chibatada que rasgou a pele escura no primeiro pelourinho erguido no Brasil às 39 pauladas infligidas com taco de beisebol no corpo negro de Moïse, o autor de “Ismália” disse tudo: “Um corpo preto morto é tipo os hit da parada. Todo mundo vê, mas essa porra não diz nada”.

Em 24 de janeiro, quatro dias depois de Elza Soares ter passado para o reino dos ancestrais, o assassinato do jovem congolês Moïse Mugenyi Kabagambe fez soar, nas mentes e nos corações dos indignados, “A carne”, o hino de protesto de Seu Jorge, Marcelo Yuka e Wilson Capellette, cuja letra na voz-século nos grita a condição de pechincha em que se encontram as vidas negras nessa terra, da qual Pero Vaz de Caminha, quiçá o primeiro publicitário luso, disse sem exagero de mercador que “de tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”. Oh, terra abençoada.

Diariamente morrem 63 jovens afro-brasileiros. 23.100 por ano. Esse absurdo matemático me lembra Deuses americanos, de Neil Gaiman: “Precisamos de histórias individuais. Sem indivíduos vemos apenas números: mil mortos, cem mil mortos, ‘as baixas podem ascender a um milhão’. Com as histórias individuais, as estatísticas tornam-se pessoas — mas mesmo isso é mentira, pois as pessoas continuam a sofrer em números que são eles próprios entorpecedores e sem sentido”.

Brasil mortífero

Para seus filhos de tez escura, o Brasil é mortífero e sua democracia racial é mito. Como fazer sentido quando suas instituições reflectem uma história de políticas racistas destinadas a empurrar os afro-brasileiros para as margens que têm habitado desde o século 16, quando os africanos chegaram pela primeira vez à colónia portuguesa? Embora 4 milhões de escravizados tenham sido levados para o país, embora o Brasil tenha sido responsável por quase 40% do comércio de escravos, enquanto seus herdeiros (tanto os beneficiários diretos como os eternos em cima do muro) não se convencerem de que sem inclusão, reconhecimento e respeito às vidas e às contribuições da população negra a sociedade está condenada a repetir aquilo que ela escuta — a querer sempre viver no passado, como se este pertencesse ao presente, como afirmou Grada Kilomba.

Tenho uma dívida afetiva imensa para com o Brasil. Minha forma de estar na literatura e na música é o que é hoje por causa do contacto com a produção intelectual e artística brasileira desde que me lembro como gente. Admiro a coragem e o talento do povo, e tenho o privilégio de chamar de amigos a um bom punhado dessas pessoas. Com elas, tenho um ritual. Quando  nos encontramos no mesmo espaço, como velhos marinheiros, exibimos nossas coleções de cicatrizes, porque os respectivos territórios onde nascemos continuam a quebrar-nos os corações, mas com a esperança, tal como disse Saramago, “só a esperança, nada mais, chega-se a um ponto em que não há mais nada senão ela, é então que descobrimos que ainda temos tudo”.

Uma descoberta que me ajudou a entender a construção política e social dos territórios habitados pela diáspora africana foi o livro O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, de Darcy Ribeiro, que, mesmo consumido pela doença, fez das tripas coração para o terminar: “Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. […] A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista”.

Uma homenagem

O escritor João Melo, pai grande, como dizemos em Angola, da literatura do meu país, em Diário do medo nos brinda com um poema dedicado a Elza Soares e inspirado na canção “A carne”, que penso ser apropriado para homenagear a memória de Moïse, que continuará viva na de sua mãe, Lotsove Lolo Lay Ivonne, na de seus familiares e amigos, assim como na de todos que saíram às ruas pedindo justiça e para que a sua morte não seja reduzida a estatística. Oh, povo abençoado.

Carne negra

A carne mais sofrida do Brasil é a carne negra
A carne mais resiliente do Brasil é a carne negra
A carne mais translúcida do Brasil é a carne negra
A carne mais luminosa do Brasil é a carne negra
A carne mais resplandecente do Brasil é a carne negra
A carne mais sangrenta do Brasil é a carne negra

***

Amanhã
essa carne
sofrida resiliente
translúcida luminosa
resplandecente sangrenta
Exigirá a todos o seu preço justo

E não serão os míseros duzentos reais devidos a Moïse Mugenyi Kabagambe. Será o futuro.

Quem escreveu esse texto

Kalaf Epalanga

Escreveu Também os brancos sabem dançar (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #55 em outubro de 2021.