Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Uma menina importante

Eu costumava pensar: como sobreviverá Lara a estes Verões, quando entender que nunca poderá viver como os viveu?

22set2022 - 15h21 | Edição #62

Este Verão tive a meu cargo durante uma manhã uma menina que estava longe da mãe. Fomos às compras e comprei-lhe cinco vestidos. Fui céptica em relação aos Verões de Lara até ela ter nove anos. Nessa altura, chegou uma menina alta para a idade, maciça, esperta. Entrei com ela na cabine de provas, despi-a e vesti-os um a um. Lara estava incrédula que os vestidos fossem para si. Eram tantos, tão bonitos.

Vestimos o primeiro. Ela olhou-se ao espelho e olhou-me a mim. Levarei o seu olhar comigo quando morrer. Eram olhos da mais pura felicidade, que se devia a duas razões. O vestido amarelo servia-lhe — e seria seu.

Aquele olhar brilhante encheu-me de vergonha pelo meu cepticismo. A madrinha de Lara, uma senhora da minha vida, fazia questão de a trazer de férias a Portugal todos os Verões. Conhecera a mãe de Lara ainda antes de a menina nascer, numa repartição pública. Tornaram-se amigas. A mãe, uma mulher guineense, vítima da mais dura das vidas, encontrara na senhora a mãe que não tivera.

O olhar da menina diante dos vestidos valia qualquer sacrifício, qualquer pretensa preocupação com o que os Verões de Lara representariam no seu futuro. Os seus olhos transportaram-me aos meus na mesma idade. Ao momento em que a minha mãe entrou comigo na cabine de provas de uma loja parecida com aquela e me encheu de vestidos. Eu teria seis, sete anos. Não me recordo desse momento, mas doutro, já a minha mãe regressara a Angola, onde vivia, para novo hiato sem nos vermos, que duraria três anos. Eu ficara tão feliz com a roupa nova, que a queria vestir todos os dias. A minha avó calçava-me as meias do conjunto, que tinham dois berloques no tornozelo. E dizia-me “olha que ser uma menina vaidosa é muito feio. As meninas não podem ser vaidosas”.

Trocas

Lara trocou olhares comigo várias vezes, através do espelho, à medida que lhe vesti e despi os vestidos. Não me lembro doutra vez em que, mulher madura, eu tenha vestido uma menina na pré-puberdade. Quase já tinha maminhas, reparei, e pensei comprar-lhe um sutiã de criança.

Fui educada nessa convicção de que Deus não gosta de meninas vaidosas. Talvez por isso me custe tanto ser fotografada. Cresci entre mulheres sem maquilhagem, sem joias, sem vestidos coloridos, sem batom, sem penteados exuberantes. Mulheres que cheiravam só a sabonete.

Ao quinto Verão, o olhar de Lara lançou-me na vergonha e no meu passado. Ali estava ela, para quem tudo estava sempre bem, feliz da vida por, durante um mês, não estar aprisionada em casa num bairro da periferia de Marselha. Por um mês, Lara não viveria numa zona de guerra e seria o centro das atenções de uma senhora portuguesa da minha família, sua madrinha.

Eu costumava pensar: como sobreviverá Lara a estes Verões, quando entender que nunca poderá viver como os viveu? Quando ganhar consciência do rio de águas paradas que a separa deles e das pessoas neles?

Lara ia tensa, quando nos dirigimos para a caixa para pagar os vestidos, apertou-me a mão com muita força. Mostrei o cartão à senhora da loja. Lara desviou o olhar e fechou os olhos, pedia o desejo de que o meu cartão funcionasse, como uma menina espera de olhos fechados pelo fim da cena do filme que a assusta. A senhora passou o cartão na máquina. “Já está?”, perguntou-me Lara, a medo, reabrindo os olhos. “Sim. Vamos. Toma os teus vestidos.”

“E se pudesses voltar à tua infância e conversar com a menina que foste”, perguntou-me ele, “como passarias um dia com ela?” Talvez eu escolhesse sentar essa menina aos meus pés e pentear-lhe o cabelo, dizer-lhe que ela era importante.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.