Coluna

Juliana Borges

Perspectiva amefricana

A epopeia de Beyoncé

Em formato de narrativa musical, novo álbum apresenta a jornada da artista às suas raízes, reivindicando a contribuição do negro na história

01maio2024 - 04h51 • 14maio2024 - 18h13
Beyoncé durante a entrega do troféu Innovator Awards (Kevin Mazur/Getty Images para iHeartRadio)

Enfim consegui trazer Beyoncé para esta coluna. Não que eu não quisesse antes, mas a mais nova produção da cantora tornou o tema incontornável. Act II: Cowboy Carter chegou ao streaming em 29 de março de 2024. Para os fãs, a experiência com Act I: Renaissance já havia sido algo histórico. Mas o segundo ato tem um incremento: Beyoncé, como anunciou, não apresenta um álbum de country music, e sim um “álbum de Beyoncé”, uma mistura de resgate histórico com pitadas políticas, cultura e diálogo intergeracional com nomes de destaque da música. Mais uma vez, ela foi além e provou que o auge de um artista pode sempre ser recriado. 

Aos 42 anos, a artista alcançou o reconhecimento de ninguém menos que Stevie Wonder, responsável por muitos arranjos e toques de gaita no novo álbum. Mais do que isso, Beyoncé conseguiu ser avalizada por grandes nomes da música em diversos gêneros, como Paul McCartney, Dolly Parton e Willie Nelson, além de consagrar a memória de Linda Martell. Ao mesmo tempo, dialoga com novas gerações de artistas, como Jon Batiste, Miley Cyrus, Post Malone, Brittney Spencer, Reyna Roberts, Tiera Kennedy e até reconhece o funk nesse panteão da arte afrodiaspórica, com DJ Dedé Mandrake. Não é pouca coisa.

Tampouco é novidade que Beyoncé vem se aprofundando em estudos para embasar sua produção artística, que dialoga com a tarefa dada pela geração de Nina Simone, Toni Morrison e tantas outras que explicitavam a importância de uma arte engajada para mudar relações de poder. Cultura e arte são dimensões fundamentais para descendentes da afrodiáspora. Muitas são as produções intelectuais que apontam que a disputa de hegemonia só se faz possível se o campo da cultura for pleiteado. E Beyoncé entendeu que sua presença no mundo pop está além do próprio gênero — o que fica evidente quando utiliza um trecho em “The Linda Martell Show” questionando “o que é gênero?”. 

Um exemplo dessa transcendência e seu impacto na cultura, o lançamento do álbum mobilizou não só o mundo da música e os fãs da cantora, como também marcas. A Verizon, gigante global das comunicações, fez parceria com Queen B para anunciar o lançamento e comentou: “Continue quebrando a internet, Beyoncé, nós podemos lidar com isso”. A Levi’s comemorou a menção à marca na faixa “Levii’s Jeans”: “A rainha deu a letra mudando nosso nome para Levii’s” — e realmente alterou o logo e nome nos perfis da grife nas redes sociais. 

Act II: Cowboy Carter me levou às lágrimas desde a primeira escuta. Li alguns comentários aqui e acolá falando sobre o tamanho do álbum, 27 faixas entre canções e interlúdios, mas não se constrói uma narrativa heroica em dez faixas. E foi assim que me relacionei com o álbum: uma narrativa musical que nos apresenta a jornada de Beyoncé às suas raízes, relacionando-a às raízes estadunidenses e reivindicando a contribuição do negro na história. 

Em linhas gerais, uma epopeia é um poema extenso que narra feitos indeléveis de um herói histórico que representa uma coletividade. Era preciso, portanto, grandiosidade para contar a história que Beyoncé nos conta. Mais do que feitos memoráveis, se remetermos à Ilíada, o poema épico homérico, há ali não apenas a história da conquista helênica sobre Troia, como também a narrativa da “Ira de Aquiles”. O que o sentimento possibilitou ao herói é o motor que Beyoncé nos apresenta como a “raiva eloquente”, proposta pela pensadora Brittney Cooper, utilizada por mulheres negras como propulsora de transformações.

Da primeira à última faixa há conexão e significado. “Ameriican Requiem” não abre o trabalho por acaso. Réquiem é como uma missa celebrada em homenagem aos mortos. Aqui, Beyoncé nos convoca para construir uma outra “América”. É tempo de parar o fingimento, dar “adeus ao que foi”, enfrentar e curar nossas feridas para construir o novo — juntos. 

A faixa seguinte é um cover de “Blackbird”, de Paul McCartney. Lançada em 1968, ano de muitas mudanças e lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos, a canção, como dito pelo próprio beatle, é uma resposta ao incidente conhecido como “Little Rock Nine”, em que um grupo de nove estudantes afro-americanos matriculados no colégio Little Rock, durante a política de integração, foram impedidos de entrar na escola racialmente segregada. Ao fazer o cover com outras quatro mulheres negras do country, Beyoncé articula protagonismo e aliança. 

“16 Carriages” é a música que considero em si a apresentação da jornada do herói. Para Joseph Campbell, crítico e mitólogo, o herói é uma figura que “dá sua vida por algo maior do que ele mesmo”. Não é, portanto, uma faixa apenas sobre a vivência de Beyoncé, e sim o momento em que a artista apresenta o início de sua jornada e nos convida a embarcar com ela pela história e memória que será a experiência de navegação de Cowboy Carter. Um dado importante: o banjo, característico do country, chegou às costas norte–americanas vindo de África. A cacofonia musical que dá sustentação ao gênero é a mesma que embasa ritmos como jazz, gospel, rhythm and blues, blues, rock e rap. “Se isso não é country, diga-me, o que é?”, questiona Beyoncé.

Alguém poderia se perguntar qual é a conexão disso com negros brasileiros. Talvez a obra de Beyoncé, focalizada em suas raízes, possa nos ajudar a retomar a memória da construção do negro no sertanejo brasileiro. Não são poucas as figuras negras que construíram o gênero, a despeito de sermos minoria no mainstream. Para ficar em algumas: Tião Carreiro, Cascatinha e Inhana, Pena Branca e Xavantinho, João Paulo, João Mulato e as Irmãs Barbosa. E se engana quem pensa que não denunciaram desigualdades em suas canções, ou que eram alienadas das questões sociais como o gênero se apresenta hoje. Indico, para isso, o pesquisador Rogério de Palma e seu artigo “Modernização, racialização e branqueamento na música sertaneja”. 

Ao encerrar “Amen”, última faixa do álbum, com versos de “Ameriican Requiem”, que o inicia, Beyoncé reforça a mensagem da primeira, “nada realmente termina”, fechando o ciclo de ida e volta da jornada do herói. É hora, portanto, de enterrar “ideias antigas”, de responder à tarefa histórica que nos foi delegada por nossos ancestrais. Amém.

Quem escreveu esse texto

Juliana Borges

Escritora e livreira