Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Estar viva

Passei as últimas semanas a pensar na ideia de um lugar seguro e no que penso do que penso sobre esse lugar

22mar2023 - 15h20 | Edição #68

Este mês, numa conversa, disse a uma mulher que tentava que as personagens dos meus livros encontrassem em mim o lugar seguro que nunca encontrei: “Procuro não as julgar, mesmo quando são odiosas”. A minha interlocutora respondeu-me: “Mas imagina que existe realmente um lugar seguro para alguém nesta vida?”. “Não sei, eu nunca encontrei.” Ela então concluiu que não acreditava nesse lugar seguro, que ele não existe nesta terra para nenhum humano, como Beckett ensina. Passei as últimas semanas, em viagem, a pensar nas suas palavras e na ideia desse lugar e no que penso do que penso sobre esse lugar.

Não se trata de um lugar seguro como são mais seguras do que outras algumas cidades, seguros como são alguns ambientes para algumas pessoas mais vulneráveis. Mas um lugar seguro num sentido mais essencial: um ponto interior de segurança, onde possamos esperar não sofrer tanto.

Sinto que era capaz de escrever apenas uma lista, sempre a mesma, interminável: de espantos

Penso nos meus sonhos — e em como nem nos sonhos habito esse lugar. Atento nos intervalos do silêncio da casa, e em como nela me encontro à mercê de perigos a que não sei dar nome. Recordo as caras nas ruas das últimas semanas: os imponderáveis esgares, olhares, modos, gestos, sons dos estranhos pela rua: às vezes, uma cara desconhecida é um abrigo, às vezes, nos olhos dos transeuntes, reconheço um portal tenebroso. Abro a porta a uma italiana: olha-me com nojo. Troco duas palavras de boas-vindas com uma ucraniana: parece que nos conhecemos doutra vida. Falo num mau espanhol com gente de vários pontos de Espanha e cada um deles é um país próprio, um silêncio que não sei ler. Converso com a dominicana que limpa o quarto do hotel: chama-me “cariño”. Janto com uma escritora da Guiné Equatorial que me conta a razão de lá se falar castelhano. Ouço a vida de dezassete mulheres: “Ai, se o meu pai me visse a rir, matava-me, mulher não pode dar gargalhada, não, mulher não pode rir, mulher cozinha e chora”.

Às vezes, sinto que era capaz de levar os próximos anos a escrever apenas uma lista, sempre a mesma, interminável: uma lista de espantos, indícios de segurança ou de pavor. Sinto, por vezes, que o grande desperdício é a frase e a ideia de frase — que o princípio da literatura é o item dessa lista (como se o princípio do vestido fosse o ponto ou o botão em vez da roda da saia), e que assim que se desdobram as subordinadas, assim que os verbos correm, se instala um ritmo que trai o que as coisas tinham de verdadeiramente vivo. Queria escrever, mas só as pedras: não a dominicana, a italiana, os homens à porta do hotel, mas só os olhos, só o vulto, só o desdém.

Ando longe de casa sem saudades pela primeira vez. Perguntam-me de onde sou e repito que agora deixei de saber de onde sou. Um com o outro, conversamos sobre portuguesices, Fradique Mendes, pedantes e filistinismo, como bons tugas em campanha. Leio os jornais à distância, vejo televisão doutras paragens, ando num género de enjoo marítimo, em que já não tenho país — alguma vez tive? O que é ser de algum lado, sabe alguém de onde é?

Todo o tempo me acompanha a ideia da mulher com quem falei. Se houvesse um lugar seguro, ele estaria tão absolutamente cá dentro que jamais lá chegaria. Porque haveria esse lugar de estar acessível? Talvez para lá entrar fosse preciso uma chave e para encontrar a chave fosse preciso um mapa e todos os livros do mundo só falassem disso. Vou perdendo a saudade e encontrando alguma coisa, que ainda não sei qual é. Talvez seja necessário vivermos com medo. Estar viva se calhar é isto. 

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).

Matéria publicada na edição impressa #68 em março de 2023.