Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Sara

No dia da sua morte, desaparecemos todas ainda mais um pouco. Choro-a como a uma irmã

07dez2023 - 16h29 | Edição #77

A primeira mulher que quis ser foi Sara Tavares. Ela tinha quinze anos e eu tinha onze, mas para mim ela era já uma moça. Achava-a parecida comigo e não estava habituada a ver raparigas parecidas comigo na televisão. Cristina Roldão tem razão quando lembra, em crónica belíssima no jornal Público, que nunca saberemos quantas meninas terão sido Sara Tavares naqueles anos. Fui uma delas — e estamos todas quarentonas.

O legado de Sara Tavares é um pouco diferente para nós que nos reconhecemos na sua cara, no seu cabelo, na sua história, no arco da sua vida, nós que sonhámos cantar como ela, vencer como ela, no Portugal dos Pequenitos. Do alto dos meus onze anos, decretei em casa que queria concorrer à Chuva de Estrelas: e o meu pai lá pôs uma cassete comigo a guinchar no correio, depois de desistir de me persuadir que eu não era tão parecida como pensava com a Teresa Salgueiro dos Madredeus.

Se muitas não teriam cantado sem Sara, outras não teriam ousado sonhar, como ousei, sem Sara.

Mas Sara tinha-me posto o diabo no corpo: se ela conseguia, eu também conseguia, conseguíamos todas. No dia da sua morte, desaparecemos todas ainda mais um pouco. Choro-a como a uma prima, a uma irmã. Nunca conheci Sara, se é possível não conhecer a voz que nos acompanhou enquanto tentámos voltar à vida.

Sara pertencia àquilo a que chamo a constelação afro-atlântica. Constelação é melhor do que raiz ou origem, porque não está assente na terra, não está sujeito a fronteiras, ao poder e ao domínio, à incomensurável injustiça da exploração usurpadora dos recursos, das línguas e das culturas.

Se muitas não teriam cantado sem Sara, outras não teriam ousado sonhar, como ousei, sem Sara

As constelações não são sujeitas ao colonialismo e ao modo como escolhemos torpedear os outros, apesar da nossa insignificância. Ao invés, nelas, os astros unem-se em virtude do seu brilho — e não das afinidades, ou sequer da proximidade geográfica. As constelações já cá estavam. Testemunharam, sobre o Atlântico, os navios que nos transportaram a nós, africanos, até o Brasil. Continuarão além do termo da nossa vida.

É enquanto parte desse espectro astral que encaro a vida de Sara e outras como ela.

A morte de Sara leva-me a outras mortes e tristezas, e tenho ainda mais pena deste tristonho jardim à beira-mar plantado: à morte recente de Mariama Barbosa, — figura da força, da lata, da graça, da coragem, da gargalhada — ao desaparecimento público de Joacine Katar Moreira, banida da res publica (em virtude de quê, afinal?). Dá ideia que querem acabar connosco, mulheres afro-portuguesas, que todas quantas brilham, ousam, se atrevem, dançam, se divertem, gozam, desaparecem, ou são apagadas. E a cada desaparecimento penso na menina negra em casa a ver-nos desaparecer,

sentada no chão, frente à televisão. Vejo-a

cada vez menos nítida, primeiro sem nariz,

a cara esfumando-se, os olhos

perde as

mãos,

a trança, o peito, os dedos,

desaparece igual a nós

a menina também.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).

Matéria publicada na edição impressa #77 em novembro de 2023.