Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Livro em branco

Recordações de pontos e passagens da Lisboa que parecia um mundo e já não está mais no mapa

18ago2022 - 04h51 | Edição #60

Cresci numa casa de jornalistas. Na véspera, preparavam-se para as reportagens na manhã seguinte. Havia que preparar a mala, rever notas para as entrevistas. Ver onde ficavam as ruas aonde iriam no dia seguinte. Lá em casa havia um livrinho, um guia das ruas de Lisboa. Cabia na mão da menina de dez anos que eu era. Indicava todas as ruas, por ordem alfabética, e as linhas de autocarro que nelas passavam, o mapa até chegar a elas. Não havia internet ou Google Maps. Os adultos conferiam o caminho na véspera para não se perderem na cidade no dia seguinte. Recordo a cama deles, as máquinas fotográficas e as lentes espalhadas sobre ela, as agendas, os cartões e papelinhos, e o livrinho, numa altura em que Lisboa me parecia um mundo em vez da mão de menina que me parece hoje.

Nesse tempo, os adultos saíam à noite no Bairro Alto e às vezes levavam-me. Bebiam shots de Lucky Strike, enquanto eu olhava para as raparigas e os rapazes.

Recordo em especial uma vez, em que me ofereceram um canário branco, David Rockefeller. Eu teria oito anos. Fomos buscá-lo a casa de uma senhora no Bairro Alto e viemos com ele até à Rua de Martim Vaz, onde o meu pai vivia, parando em cada bar. Pousávamos a gaiola em que ia o canário em cima das mesas dos bares e eu brincava com ele enquanto os adultos conversavam.

Lisboa é, para mim, um livro em branco. Tenho a ideia dos nomes, permanecem direcções-chave. Mas a linha que unia os pontos e fazia a ligação entre eles quebrou-se

Esse Agosto, no Chiado, em Lisboa, estacionámos o carro num parque. Saímos na saída que costumava ir dar à Torres & Brinkmann, uma loja à época chique, onde então admirávamos as porcelanas de Limoges, os faqueiros e os atoalhados. Serviços de mesa brancos, com ramagens e senhoras em baixo-relevo, pinheiros de Natal, candelabros, terrinas, guardanapos.

Depois, descíamos o Chiado, comprávamos um pão de passas no supermercado Celeiro e apanhávamos o comboio. Ia até Queluz a mordiscar o pão escuro, enquanto olhava pela janela.

A loja desapareceu — está “encerrada permanentemente”, diz o Google Maps.

Mais tarde, vivendo na Graça, trabalhava na Rua Nova da Trindade. Nesses anos, apanhei o eléctrico todas as manhãs e sentava-me à janela a sentir o cheiro húmido e lodacento que o rio espalhava nas ruas. As manhãs no Chiado eram sempre cinzentas, pairava no ar o peso da noite, nada parecia limpo, até que o sol levantava pelas onze e meia e, chapando nas fachadas, lavava a rua.

Inexistências

Os adultos conheciam as ruas pelo nome, nomes de reis, almirantes, homens de letras e ciências, chefes de Estado, nações. Só precisavam do livrinho para tirar dúvidas, confirmar caminhos. Agora, Lisboa é, para mim, um livro em branco. Tenho a ideia dos nomes, permanecem direcções-chave. Mas a linha que unia os pontos e fazia a ligação entre eles quebrou-se.

Não consigo senão encarar no Tejo um caixão dos jovens todos que já pisaram a cidade. A maré muda e leva-lhes a alma

Fecho os olhos e vejo diante de mim a Rua de São Paulo. Mas logo a ligo à Lapa por uma dessas linhas mentirosas, que ignoram o certo e o errado. Caminhando pela rua, loja sim, loja não, os lugares que um dia foram novos são hoje outros. Os que são novos para mim já estão velhos. Dos antigos não há sequer memória. Sendo a cidade onde me imaginei mulher, estranho notar que os sítios à montra dos quais sonhei o meu futuro, ser grande e finalmente ter a coragem de neles entrar, o que era enquanto cresci sinal do que achávamos bom gosto, objectos de desejo — tudo desapareceu e deu lugar a restaurantes. O que é Lisboa? O penso sujo de pus no olho do velho deitado no banco, o estendal de roupa preta, os fios eléctricos a subir a fachada, emaranhados, o ferro verde das varandas, enferrujado, a laranjeira cortada pela raiz, o jardim entrevisto das janelas da frente da casa térrea? Nada disso. Atravesso a ponte, e o meu coração aperta diante da visão de Alcântara. Alcântara? Não consigo senão encarar no Tejo um caixão dos jovens todos que já pisaram a cidade. A maré muda e leva-lhes a alma. Não é cidade que não durma, ou lugar de tudo ou nada. E, no entanto, a cada minuto, uma juventude murcha (em Lisboa) como murcham as flores.

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Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.