Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Apanhado de trovões

As mulheres aparentam frieza ao narrar o terror, a frieza de quem carrega o peso do mundo

04maio2022 - 10h46 | Edição #58

Às vezes, no correr dos dias, apesar da cidade e da Primavera, as mulheres contam histórias que são trovões.

Um governador português mandou construir uma prisão em São Tomé. Um dos castigos dos presos, nessa prisão, era, balde a balde, esvaziarem o mar. Um oficial português apaixonou-se por uma mulher guineense, durante a guerra colonial. Fez-lhe um filho. Quando chegou o momento de regressar à metrópole, escreveu à família contando que os levaria consigo. A família proibiu-o de o fazer. Então, o oficial pegou fogo à mulher.

Chuva de raios

Para que servem as histórias? As mulheres aparentam frieza ao narrar o terror, a frieza de quem carrega o peso do mundo. Falam, e é como estarmos sob uma chuva de raios. Então, escuto. Guardo as histórias numa caixa, apanhado de trovões.

Os pais morreram e ele foi a única pessoa presente no funeral. Enterrou-os antes dos vinte e dois anos. E, aos vinte e três, enlouqueceu

Um amanuense português apaixonou-se por uma mulher santomense em São Tomé. Foram felizes e tiveram um filho. Quando chegou o 25 de Abril, o amanuense voltou para Lisboa e levou consigo o menino. O filho foi criado em Portugal pela família do pai, que entretanto casou. 

Mãe e filho nunca se viram até o dia em que o rapaz, entretanto homem, regressou a São Tomé para a conhecer. (Ela contava às miúdas da terra que tinha um filho em Portugal, filho de um branco. As outras julgavam que era mentira, que enlouquecera. Tinham morrido todas as testemunhas.) Tiveram poucos anos para estar juntos. A mãe morreu três anos depois.

Um rapaz emigrou para Portugal com os velhos pais, vindos de Angola. Era um filho tardio. 

Os pais cedo ficaram velhos e ele rápido se fez homem. Cedo, se tornou pai dos seus pais. Deixou a escola para trás pelo bem deles, tomando conta dos seus velhos até à morte, numa barraca da periferia de Lisboa. Os pais morreram e ele foi a única pessoa presente no funeral. Enterrou-os antes dos vinte e dois anos. E, aos vinte e três, enlouqueceu.

Uma mulher foi abandonada pelo noivo, em Angola. Ele trocou-a por outra, casou e teve filhos. A mulher começou por ouvir zumbidos. Depois, tornaram-se gritos, turbinas, furacões. Enlouquecida, acabou os dias a mudar fraldas num lar de idosos em Lisboa, uma daquelas senhoras negras que acordam muito cedo e ocupam os primeiros comboios. 

Toda a gente elogiava a delicadeza com que a mulher tratava dos avós dos outros. Entrava e saía do trabalho como qualquer pessoa, cumpria os seus deveres. Mas vivia sozinha num quarto em Chelas, cujos estores não abria havia vinte anos.

Sentido da vida

Após uma vida de delinquência em Lisboa, um jovem angolano é deportado para Luanda. Encontra o sentido da sua vida na aldeia onde nasceu, onde casa com uma rapariga e tem três filhos. Um dia, mete-se no contrabando e, a meio de um negócio, é morto um homem e ele é considerado culpado. Cumpre uma pena de doze anos. 

Uma mulher foi abandonado pelo noivo. Começou por ouvir zumbidos, tornaram-se gritos, furacões 

No dia em que ele sai da prisão, a mulher espera-o com os filhos. Este mês, libertado, construía a casa onde haveriam de viver, é atropelado por um camião.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).

Matéria publicada na edição impressa #58 em fevereiro de 2022.