Gente que sustenta a arte

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Gente que sustenta a arte

De grandes mostras na Pinacoteca do Ceará a livros de artistas, de núcleos de dança premiados aos blocos que logo tomam a rua, somos lembrados de quem faz a cultura brasileira

21fev2025 • Atualizado em: 10mar2025

O poder da cultura é sua matéria-prima, e essa será sempre a nossa gente. Gente que a faz forte. Mesmo com a escravidão, com todas as formas de racismo e tentativas de aniquilar corpos e ideias negros — ou, como me disse Sueli Carneiro, “a despeito de tudo contra” — nós ainda estamos aqui. Sobrevivendo e sustentando a arte.

Exemplos disso são os entregadores de aplicativo que inspiraram o Núcleo Iêê no seu mais novo espetáculo, que fala do sagrado com cuidado, da rua com respeito e da ancestralidade sem revelar segredos. Na capital do Ceará, encontramos um coletivo de jovens das periferias que utilizam a moda para impôr um novo olhar sobre seus corpos. Também temos fotógrafos de vários cantos olhando para esse mesmo mundo na exposição em cartaz na Pinacoteca cearense.

Aqui não falamos de culturas e vivências externas, mas do que somos, do que vivemos e do que podemos ser. Do poder de transformação, por exemplo, da artista mineira Sonia Gomes ao dar novos significados ao que já é alguma coisa, e que lança agora um livro reunindo boa parte da sua trajetória. Do legado de Nilma Bentes e do Centro de Defesa do Negro do Pará,  que inauguram uma exposição, e do Bloco Afro Axé Dudu, que há 38 anos ocupa as ruas de Belém com a sua negritude, como fazem o Ilê Aiyê, o Olodum, os Filhos de Gandhi, o Cacique de Ramos e todas as agremiações que comprovam que, como todo fevereiro, a vida é feita de começo-meio-começo. 

PASSEIO — Pinacoteca do Ceará

Inaugurada há pouco mais de dois anos, a Pinacoteca do Ceará abriga até junho a exposição Delírio Tropical, uma cartografia da produção visual do Brasil que lança olhar para o político, desviante e ainda pouco conhecido caldeirão cultural. 

Realizada em parceria com o Fotofestival Solar, a mostra reúne artistas de diferentes gerações vindos de todas as regiões do país. Entre essa diversa seleção estão Claudia Andujar, Dalton Paula, Joelington Rios, Evandro Teixeira, Keyla Sobral, Tadáskía, Ayrson Heráclito e Ventura Profana.

A exposição Delírio Tropical, em cartaz na Pinacoteca do Ceará (Marília Camelo/Divulgação)

Um trecho do manifesto de apresentação da curadoria dá o tom do que se pode ver por lá: “Do rito à dor, de corpes insurgentes ao giro que critica a colonialidade, nossos tristes trópicos vivem ainda sob o eco da modernidade jamais superada e da negação de nossas matrizes primeiras, com a importação das ideias e os olhos fechados para tantas questões que pulsam nesta dita democracia”.

Tudo que a boca come, do Núcleo Iêê

O Núcleo Iêê está rodando desde o final do ano passado com o espetáculo de dança Tudo que a boca come. Partindo da frase de Mestre Pastinha, o trabalho se nutre de saberes ancestrais. De forma crítica, aborda a correria dos entregadores de aplicativo que alimentam tanta gente, muitas vezes eles mesmos de barriga vazia.

Cena de Tudo que a boca come, do Núcleo Iêê (Sergio Fernandes/Divulgação)

A capoeira, premissa para outros trabalhos do Iêê, nos ensina a cair para poder se levantar e o jogo acontecer. Congregando um Jesus marginalizado com um Exu capoeirista, que se comunica com o movimento, eles estrearam no Centro de Referência de Dança, embaixo do Viaduto do Chá, no Centro de São Paulo, e fazem agora temporada no Sesc. Tudo que a boca come e seu diretor Rafael Oliveira receberam respectivamente o prêmio APCA de melhor espetáculo de dança e de interpretação dessa temporada, além do troféu de melhor figurino. Criado em 2015, o Núcleo Iêê desenvolve espetáculos que unem dança, música e poesia marginal para expressar as próprias pesquisas e experiências.   

Bloco Afro Axé Dudu e exposição

Bloco que anualmente abre o carnaval de Belém, sempre exaltando os orixás, o Axé Dudu é um dos marcos da cultura negra do Pará. Fundado em 1987 como um instrumento de luta do Cedenpa (Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará), o grupo utiliza a arte para expressar orgulho pela cultura afrobrasileira e como meio de lutar contra o racismo. Neste ano, homenageia Omolu, o orixá da cura e da transformação. Cezar Atoto, Dalva, Caldaia Peniche, Socorro Clemente e Marta Mariana lideram o cordão carnavalesco, um time de mais de quarenta componentes. O cortejo pela  avenida Aldeia Cabana ainda aguarda a confirmação da data devido à autorização da prefeitura.

O Cedenpa, entidade criada para trabalhar o combate à desigualdade racial, é liderado por nomes como Nilma Bentes e Zélia Amador de Deus. Dona Nilma é uma das principais articuladoras da Marcha das Mulheres Negras e da inclusão de políticas para mulheres e sobre racismo ambiental no debate público.  

Outro fruto do trabalho do Cedenpa, a exposição Amazoniando: Artes de colonizadores transforma obras da história da arte europeia a partir do olhar ancestral negro e a vivência da Amazônia. Quadros clássicos de Monet, Van Gogh e Da Vinci são relidos e as paisagens e figuras europeias são enegrecidas e “amazonizadas”, nos termos de Dona Nilma. Em cartaz na sede da entidade, os visitantes podem fazer um jogo para identificar de que obras partiram as referências. As colagens contam com trabalho de Felipe Ribeiro e Tatiana Deane Sá.  

18 de fevereiro, na Sede do Cedenpa. Passagem Paulo VI, 244, Cremação, Belém

MAIS PRA FICAR LIGADO

Mancuda

Idealizado por Nair Beatriz e Carll Souza, a Mancuda surgiu durante a pandemia de Covid-19 para ser um meio de sobrevivência de dois estudantes de ciências sociais. Conectando seus interesses pela prática de fabricar bolsas à mão, Nair e Carll inventaram uma marca a princípio com a vontade de produzir roupas para vender, mas sentiam a necessidade de direcionar suas criações para pessoas negras e periféricas de Fortaleza. Daí surgiram coleções como a inspirada no funk dos anos 90 e o estilo dos pais das integrantes do coletivo, que resgata o veludo e uma nova referência em beleza.

Um pouco do estilo da Mancuda, marca idealizada por dois estudantes de ciências sociais (Nair Beatriz e Carll Souza/Divulgação)

Na gíria das periferias da capital cearense, “mancuda” significa alguém estiloso. No caso do coletivo, a moda não se encerra no objeto produzido, mas como uma forma de linguagem e ferramenta para contar histórias e elevar a autoestima. Na trilha de nomes como Isa Silva e de marcas como o LAB Fantasma de Emicida, a dupla de criadores procura contar histórias através da marca, como na linha Santo Forte, que traz o sincretismo religioso presente na vida de Nair e Carll e nas suas comunidades. A mensagem é transmitida em festivais de moda, cursos e produção audiovisual.

LISTÃO

Assombrar o mundo com beleza, de Sonia Gomes

A artista visual Sonia Gomes acaba de lançar Assombrar o mundo com beleza, pela Cobogó. Organizado por Paulo Miyada, o livro reúne materiais inéditos da carreira da artista de 77 anos, além de ensaios de nomes como a ensaísta e professora Leda Maria Martins, o curador do Tate Modern de Londres, Michael Wellen, e a curadora da Bienal do Mercosul, Yina Jiménez Suriel.

Para a dominicana Jiménez Suriel, “o fazer de Sonia Gomes é uma prática que, a partir de objetos aparentemente singulares, foi criando uma estrutura e conformando um sistema de corpos que vivem no compasso do sol, na medida em que existem completamente em relação à luz”.

A edição é composta por imagens de obras, registros de exposições, cadernos pessoais de desenhos e poemas, uma seção relicário — com objetos e cartas da artista —, além de aspectos pessoais do seu processo de produção. A inserção de sua obra no campo da arte contemporânea resulta da ambição de recriar o mundo a seu redor por meio de gestos de cuidado, começando pela intimidade do corpo, da roupa e da casa.

Editoria com apoio da Casa de Cultura do Parque

Em 2024, a Quatro Cinco Um estreia a editoria de cultura contemporânea, com com apoio da Casa da Cultura do Parque

Quem escreveu esse texto

Jefferson Barbosa

Jornalista, membro da Coalizão Negra por Direitos, Global Fellow da Fundação Ford, foi fundador dos coletivos PerifaConnection e Voz da Baixada e autor de A Mãe do mundo: vida e lutas de Mãe Beata de Yemanjá (Malê, 2023).