A jornalista francesa de origem afro-caribenha Sylvia Serbin (Acervo pessoal)

Perspectiva amefricana,

Genealogias negras

Sem idealizações, jornalista relata a trajetória de mulheres que ocuparam lugares de liderança, resistência e criação em diferentes tempos e territórios

23out2025 | Edição #99

No imaginário social ainda vigente no Ocidente, quando se fala em rainhas, a primeira imagem que surge é moldada por uma modernidade colonial: coroas, cetros e mantos em corpos brancos, imortalizados em retratos de cortes europeias. As rainhas desse repertório vêm das histórias infantis importadas, das dinastias anglo-francesas ou ibéricas, das coroações televisionadas que reafirmam uma ordem mundial marcada pela invasão e pela colonização.

A ausência de rainhas africanas e de heroínas da diáspora no imaginário hegemônico é resultado de um apagamento, da violência simbólica que se somou à do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. Rainhas da África e heroínas da diáspora negra, da jornalista e historiadora Sylvia Serbin, surge como gesto político de enfrentamento a essa tradição de esquecimento e a essa tipologia de representação que nega a possibilidade de reconhecer soberanias negras e femininas.

Em mais de quatrocentas páginas, Serbin estabelece uma genealogia de mulheres negras que ocuparam lugares de liderança, resistência e criação em diversos tempos e territórios. Não de forma enciclopédica, mas como uma constelação que articula história, memória e mito.

Em um mundo cujos arquivos oficiais foram organizados para apagar vozes negras, recorrer à memória coletiva é uma forma de reparação — e a autora sabe disso. Seu trabalho não se limita a reunir documentos escritos; ela convoca a oralidade, a tradição ritual e a fabulação como fontes legítimas. Já no sumário, Serbin evidencia essa proposta. O material é apresentado em blocos que orientam o leitor e dão dimensão da diversidade de experiências femininas negras.

Há o bloco dedicado às rainhas da África, com figuras que governaram reinos. Outro com mulheres de influência histórica — lideranças espirituais, culturais e políticas. Resistentes africanas e amefricanas que, diante do avanço colonial ou da escravização, ousaram confrontar ordens estabelecidas. Além de blocos para heroínas, profetisas, mães de grandes símbolos da diáspora e guerreiras, como as célebres amazonas do Daomé, que desmontam a noção de fragilidade feminina ao expor tradições militares compostas por mulheres.

Essa divisão não é estanque. Pelo contrário, ajuda a mapear a complexidade das trajetórias, marcando a pluralidade de registros e experiências que desafiam a linearidade da maneira ocidental de contar histórias.

Resgate

A reivindicação da memória de tais figuras não significa idealizar sistemas que podiam ser atravessados por tensões sociais, mas evidenciar que a África não foi um continente sem história, um espaço vazio à espera da civilização europeia. Suas sociedades possuíam formas complexas de organização política, militar, espiritual e econômica, com reinos, impérios e sistemas jurídicos próprios que se relacionavam em escala continental.

Serbin nos relembra das rainhas e heroínas negras que desafiaram ordens patriarcais e coloniais, que inventaram novos modos de poder e que legaram às gerações futuras exemplos de resistência, bem como de criação e cuidado. Assim, o livro é mais do que uma coletânea de biografias — trata-se de um gesto político e literário de restituição, que nos ensina que só há reparação quando reconhecemos plenamente as histórias das mulheres negras que sustentaram e transformaram mundos.

A relevância de Rainhas da África e heroínas da diáspora negra se deve também a seu modo de narrar. A escrita de Serbin não é fria e distante, mas pulsante e engajada, oscilando entre o rigor da pesquisa e a poesia da evocação. Ao colocar lado a lado documentos históricos, tradições orais e interpretações, a autora constrói uma narrativa de conhecimentos e afetos. Com isso, amplia horizontes, convidando os leitores a repensar o passado e a reconhecer a densidade das histórias de mulheres negras como parte do patrimônio universal da humanidade.

A escrita de Serbin é pulsante e engajada, entre o rigor da pesquisa e a poesia da evocação

Apesar da contribuição do livro, há aspectos da linguagem que merecem problematização. Chama atenção o uso do termo “mulata”, que no Brasil tem uma carga histórica de ofensa e de objetificação sexual. Ainda que seja pontual, o emprego da palavra revela como a circulação transnacional de textos precisa ser sensível às especificidades dos debates raciais de cada país.

Outro exemplo é a afirmação de que Pokou, rainha da Costa do Marfim no século 18, instituiu um matriarcado. Ao propiciar, com sua epopeia, que mulheres passassem a assumir postos de liderança, Pokou rompeu estruturas patriarcais, mas isso não significa que tenha instaurado uma ordem matriarcal, entendida como aquelas governadas por mulheres.

Essas tensões não diminuem a força da narrativa, que não se limita a denunciar a ausência, já que propõe uma pedagogia da memória. Ao apresentar rainhas, guerreiras, profetisas e mães de heróis, Serbin oferece ao leitor uma educação racial que valoriza as mulheres negras como sujeitos históricos. Em um Brasil onde a história oficial insiste em marginalizar a experiência negra e em tratar a escravidão como nota de rodapé, Rainhas da África funciona como instrumento de letramento racial e de reparação simbólica.

Quem escreveu esse texto

Juliana Borges

Escritora e livreira

Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Genealogias negras”

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