Juliana Borges (centro) com a irmãs Mariana e Alícia e a mãe Claudia (in memoriam), em 2012 (Acervo pessoal)

Perspectiva amefricana,

Domingos com minha mãe

Aprendi entre mulheres que sustentavam a casa e o mundo de gestos simples que o cuidado também é uma forma de organizar a existência

08maio2026 • Atualizado em: 07maio2026 | Edição #106

“Jujuba, desce pra arrumar o cabelo!”, chamava minha mãe, todos os domingos pela manhã, enquanto ela e minhas tias abriam as janelas da casa ao som de Djavan ou Jorge Ben. Ambos eram a trilha oficial dos domingos, com pouquíssimas exceções, que passavam por Originais do Samba, Di Melo e Fundo de Quintal — até que passou a existir o Racionais MCs. Mas essa é outra história. Antes da organização da casa, vinha a música. 

Na cozinha, o falatório nunca cessava, atravessando a manhã da casa sempre cheia em que cresci. Da pequena sala, minha avó acompanhava o movimento sentada na poltrona, lendo o jornal que meu tio-avô buscava junto com os pães quentes, quando o dia mal tinha começado. 

A vida se distribuía naquele quintal compartilhado: na casa da frente, moravam meu tio-avô, minha tia-avó e o primo da minha mãe, também meu primo, porque conosco as distinções nunca se fixavam muito. Nos fundos, nós, ocupando a casa que ele permitiu que minha avó construísse quando nasci, depois que ela decidiu sair do Centro, onde morava antes, porque, como repetia, “Centro não é lugar de criar criança”, que precisava de quintal, espaço para correr, rua para brincar e, sobretudo, proximidade. Viver também era isto: estar perto o suficiente para que ninguém precisasse atravessar o dia sozinho. 

Pouco depois, eu era puxada para o meio da sala, entre minhas tias, rindo, acompanhando o ritmo. A música sempre alta, anunciando o domingo em família. Em todas as casas da rua, a rotina parecia se repetir e ressoar pelo bairro de Jardim São Luís, periferia da zona sul de São Paulo ou, como chamamos por aqui, “zona show”. 

Juliana Borges quando criança (Acervo pessoal)

Meu lugar estava sempre preparado no chão, numa almofada encostada na poltrona, onde minha mãe se sentava com pentes, cremes e grampos ao alcance das mãos. Enquanto meus cabelos eram divididos e presos em xuxinhas, às vezes com pompons coloridos, o som seguia, e o gesto de cuidar não interrompia a música, apenas mudava o ritmo do dia. 

Além de mim, minha mãe, tias e avó, havia primos que não necessariamente eram de sangue. Filhos de amigas da minha avó, crianças que chegavam e ficavam, vínculos que se afirmavam na convivência. Sempre havia alguém entrando, saindo, ocupando um lugar que, no dia seguinte, já parecia ter sido seu desde sempre.

Sem que eu soubesse os nomes das músicas, alguns trechos se fixavam, e eu cantarolava Djavan na escola durante a semana, um pouco desconexa das demais crianças porque, por insistência de minha avó, eu estudava em uma escola próxima ao seu trabalho, num “bairro melhor”. Enquanto cantavam, as mãos de minha mãe e minhas tias seguiam ocupadas. Uma penteando meus cabelos, outra lavando louça, outra lavando roupa, enquanto meu tio-avô aparecia na janela e avisava que ia buscar o frango assado e a maionese na padaria.

Quando coloco uma música de Jorge Ben ou Djavan, entendo que o tempo pode ser moldado coletivamente

Domingo era dia de macarronada, frango assado e maionese, ainda que a combinação pareça um pouco estranha. Entre a saída para buscar o almoço e o momento de servir, um intervalo de espera se instalava, e esse intervalo, longe de ser vazio, era sustentado pelo som contínuo, com Jorge Ben e a “menina mulher da pele preta”, pelas conversas que se cruzavam, pelas pequenas negociações que sempre existem quando muitas pessoas compartilham o mesmo espaço. 

Da combinação entre cheiro, música, circulação e espera, uma forma de reconhecer aquele dia foi sendo construída, ainda que sem nome. Muito tempo depois, percebi que não se tratava apenas de alimentação ou de trilha sonora, mas de uma organização possível do tempo e da convivência, sobretudo quando o restante da semana se apresentava fragmentado entre escola, trabalho, levar a menina para a natação, por deslocamentos longos. Embora o descanso nunca fosse completo, reorganizava-se um modo de sustentar a vida para além do que era exigido dela. E eu vivia o aprendizado, sem que isso precisasse ser anunciado. 

Naquele convívio familiar-comunitário se ensinava, ainda que sem intenção pedagógica, e eu aprendia a esperar, a dividir e a perceber o outro. Também entendia que família podia ser mais ampla do que o sangue e que pertencimento se construía na prática. Aprendi ainda que o descanso significava uma mudança de ritmo e que, mesmo cansadas, aquelas mulheres produziam outra qualidade de tempo.

Arranjos

Anos depois, ao ler Lélia Gonzalez, sobretudo sua formulação de amefricanidade como modo de produzir cultura e existência, algo dessa experiência se tornou legível em outros termos. Não porque a teoria explicasse o vivido, mas porque oferecia uma linguagem possível para aquilo que já estava inscrito em minha memória e minha personalidade. A casa deixou, então, de ser apenas cenário lúdico e se afirmou como campo de produção de sentido, continuidade e invenção. 

Hoje penso que o que aquelas mulheres faziam não se reduzia a hábito automático: a manutenção daquele arranjo exigia decisão. Quando a tentativa de organizar o próprio tempo se impõe como problema, a ausência mais evidente não é só de recursos, mas de forma. A lembrança daquela casa não funciona como idealização, e sim como indicação de método e de ritmo do dia que implica escolhas reiteradas de produzir diferença, e quiçá descanso, dentro de condições limitadas. 

Quando coloco uma canção de Jorge Ben ou Djavan, ou quando preparo uma refeição com mais calma, entendo minha tentativa de reativação de uma lógica em que o tempo pode ser moldado coletivamente, ainda que em escala menor. 

O que ficou daqueles dias não foi apenas o som ou a imagem das mãos trançando cabelos, mas uma compreensão profunda de que viver exige arranjo e a construção contínua de um tempo que não nos seja totalmente imposto. O que aprendi entre mulheres que sustentavam a casa e o mundo de gestos simples foi que o cuidado também é uma forma de organizar a existência, que o coletivo não é um dado e que é preciso, de novo e de novo, inventar um jeito de fazer caber a vida.

Quem escreveu esse texto

Juliana Borges

Escritora e livreira

Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “Domingos com minha mãe”